Contra a ignorância, ler



Já tantas vezes alguém terá repetido o entendimento de que um povo sem cultura está com os dois pés atolados na barbárie. Em tempos de ócio, como os que vivemos hoje, para pensar tal qual Domenico Masi, é mais perigoso ainda, porque, vou me repetir agora pela via do popular, mente vazia é oficina do diabo – não exumando, claro está, essa criatura vítima da ambição divina, coisa para se discutir noutra ocasião. O que salvará a humanidades nesse estágio de crise, e volto ainda uma vez mais ao Masi, pode ser que seja a criatividade, uma palavrinha que tem dominado e muito todos os cenários sociais. Parece óbvio que também um povo sem cultura é um povo sem criatividade e vice-versa. Os dois termos têm forte relação de interdependência. Sem os dois estamos condenados à ignorância – um elemento da barbárie ou quem sabe a própria barbárie em seu estado mais alto.

Mas, tudo isso que digo aqui é para tratar de alguns mal entendidos que têm tomado forma ao redor do mundo; não faz tanto tempo e eu andei comentando por aqui sobre o caso de apreensão de ‘livros eróticos’ acusados de promoverem uma espécie de ofensa a moral infante. Semanas depois disso vieram dois novos: um, a seita Opus Dei, tão atrasada que ainda anda a fazer listinhas de proibições, divulgou um catatau de obras consideradas impróprias, entre elas, claro, quase que integralmente a obra do escritor português José Saramago, que, tenho para mim, não foi toda porque os fazedores da lista devem ter guardado o restante para uma segunda listagem a ser divulgada quando passar o réveillon de 2013 para 2014. Sim, agora, em São Petersburgo, o Museu Nabokov tem, depois de vinte dias, um segundo ataque promovido por outro grupo-quase-seita Cossacos de São Petersburgo. Acusam Nabokov, já morto há quase trinta e seis anos de incitar a pedofilia e atrair a fúria de Deus, isso só porque teve ele a triste ideia de redigir Lolita, clássico da metade da década de 1950 que conta a paixão do professor Humbert pela enteada de doze anos de idade.

Toda vez que escuto ou leio coisas do tipo a primeira pessoa para quem eu olho é para mim mesmo. Há muitos outros próximos a mim, mas eu prefiro ainda confiar um tanto naquilo que venho sendo. E é possível que seja mesmo anormal, porque a lista desenhada pela Opus Deis, por exemplo, já li de ponta a ponta e também o livro do Nabokov, entre outras coisas proibidas e mais ‘pesadas’ e, até agora, não tenho sido ao menos na minha vida fora dos livros vândalo, assassino, psicopata, pedófilo e outras ‘anormalidades’ sociais. Enquanto isso, os que saem escandalizando a imoralidade de papel são os que mais exercem o papel da imoralidade. Sim, por que quem são os vândalos e os pedófilos senão os que picham e quebram janelas como os Cossacos e a grande seita maior da Opus, a igreja católica? Sem generalizações, entendam.  

Esses tipos são apenas individualistas extremistas, incapazes de uma vida social porque à sua frente não existem outros senão os que a eles se associam pelo mesmo motivo sectarista. Para alcançarem o limite da convivência precisam urgente de professores de literatura que os façam ler de ponta a ponta suas listas de proibições a fim de desenvolverem outras capacidades da faculdade mental. Nada justifica atitudes de violência seja de que tipo for e vejo duas razões para os justiceiros da moral. Apesar de não ser indicado, mas é muito mais fácil ter apenas uma visão sobre as coisas e mundo que conviver com variadas visões; outra, em tempos de mídia, o que alguns querem, repito o que disse em “O cerco à literatura”, é aparecer, ocuparem o espaço da fama seja lá com o que for tal como o falso suicida que sobe a torre de televisão da sua cidade e além de acolher um grupo de admiradores também atrai as câmeras para si.

Ocupar as mãos com livros e o ócio com leitura ainda me parece a decisão mais acertada para a criatividade e para a alargamento das fronteiras culturais; consequentemente é também uma das alternativas mais coerentes de desvio da ignorância e logo da barbárie. Pela literatura, sobretudo, nos experimentamos vândalos, psicopatas, pedófilos e outras ‘anormalidades’ sociais, mas só experimentamos, enquanto outros necessitam ser justamente pela ausência  da capacidade da experimentação.

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