Boletim Letras 360º #694
DO EDITOR
LANÇAMENTOS
Nova tradução e edição de uma das novelas mais importantes para a narrativa insólita.
Com uma carta de recomendação nas mãos, Peter Schlemihl vai à casa de Herr Thomas John, um rico proprietário de terras, em busca de um emprego. Entre os convivas lá reunidos em uma recepção, está um misterioso homem vestindo uma casaca cinza. De seu bolso ele tira qualquer coisa que lhe peçam: uma luneta, uma tenda completa, três cavalos. Espantado, Peter trava conhecimento com o homem, que lhe faz a proposta: alguma maravilha em troca de sua sombra. Peter escolhe uma bolsa de couro da qual se saca ininterruptamente moedas de outro. Mal o negócio é selado, enquanto vai a pé para sua hospedaria, é notado por quem lhe cruza o caminho e achincalhado por não ter sombra. Passando a evitar as pessoas e a sair só à noite, ele contrata o fiel Bendel e o esperto Raskal, que serão sua interface com o mundo. Sem sucesso, busca o homem de cinza para desfazer o negócio. Por fim se estabelece, com a alcunha de Conde, em um vilarejo. É benquisto pela comunidade, apaixona-se por Mina e é correspondido. Mas a falta da sombra lhe atravessa o destino outra vez. A figura do diabo é muito presente nas fábulas e na literatura alemã, sendo Mefistófeles, de Goethe, o exemplo mais conhecido. Peter Schlemihl, esse Fausto envolto em delicadeza, procura manter-se íntegro à luz que o ilumina e que não projeta sombra. A extraordinária história de Peter Schlemihl é admirada por muitos escritores, dentre os quais Thomas Mann e Italo Calvino. Calvino a citava sempre, destacando sua leveza, que ele reputava à origem francesa do autor, e seu caráter fantástico presente na literatura alemã, afirmando que essa era a única história de outros autores que gostaria de ter escrito. Com tradução de Bruno Gambarotto, o livro sai pela Grua, na coleção Arte da novela. Você pode comprar o livro aqui.
Keichi Maruyama estreia na literatura com o livro com o qual foi reconhecido com o 8º Prêmio Cepe Nacional de Literatura, na categoria Conto.
Atemoia foge ao lugar-comum ao confrontar a ideia vigente de progresso. Nos contos estão representados vários tipos, dos vaidosos altos executivos àqueles quase invisíveis, que sobrevivem em um mundo em que lucros e performances profissionais são priorizadas ante a qualquer conexão humana. São 11 protagonistas interligados a um edifício comercial de fachada de mármore, à beira de um rio de uma grande metrópole brasileira. Assim, conhecemos Dora, a ascensorista que trabalha há duas décadas no elevador do condomínio, no conto que dá título ao livro; vemos o etarismo e a disputa de poder entre Maria e Roberto, em “Mundo entre parênteses”; conhecemos o executivo que está hospedado há quatro meses em hotéis de luxo e se perde em alucinações; nos deparamos com Regi, funcionário do banco de seu Itamar, envolvido em uma fraude milionária, entre outras figuras ambíguas e enigmáticas. O livro sai pela editora Cepe. Você pode comprar o livro aqui.
Guilherme Pavarin reúne onze contos que atravessam o cotidiano e o insólito com uma prosa que não faz concessões.
São histórias em que o familiar se desloca para revelar rachaduras profundas na memória, na família, no amor e, sobretudo, na linguagem. Uma mãe confinada em um reality show vira objeto de análise das filhas. Um astronauta à deriva estuda um planeta distorcido. Duas irmãs crescem lado a lado até que algo incomunicável as separa. Um casal transforma a insônia em compulsão por pilotos de séries que nunca foram ao ar. Um namoro perdura dentro de uma versão antiga de um simulador de fazenda.
Em cemitérios, portos, teatros, mirantes, apartamentos compartilhados, campings, estradas e banheiros apertados, os personagens enfrentam, ao longo do livro, perdas difusas e a sensação persistente de deslocamento. O tempo falha, a realidade se curva e os laços humanos revelam sua estranheza mais íntima. Ao fim, restam os mistérios que seguem ecoando depois da leitura. Miragens ao sul é publicado pelas Edições Jabuticaba. Você pode comprar o livro aqui.
Romance disseca os vícios da elite peruana do século XIX.
Blanca Sol é a mulher mais admirada da alta sociedade limeña: bela, elegante e calculista, usa seu charme para conquistar o marido mais rico da cidade e garantir uma vida de luxo e prestígio. Mas por trás das aparências impecáveis escondem-se a vaidade absoluta, a frivolidade e a ausência total de valores morais. À medida que sua fortuna declina e as máscaras sociais começam a cair, Blanca Sol se vê diante das consequências de uma vida construída sobre interesses e ilusões. O que parecia uma ascensão triunfante revela-se, na verdade, uma queda inevitável. Com olhar preciso e crítico, Mercedes Cabello de Carbonera disseca os vícios da elite peruana do século XIX, questionando o papel imposto às mulheres, a hipocrisia das convenções sociais e a superficialidade de uma sociedade obcecada por aparências. Blanca Sol é um marco do naturalismo latino-americano e uma obra surpreendentemente atual em sua denúncia das armadilhas do poder e do prestígio. Com tradução de Roberta Vilas Boas, o livro é publicado pela editora Pinard. Você pode comprar o livro aqui.
Lucía Solla Sobral fez sua estreia na literatura com um impactante e visceral romance sobre relacionamentos abusivos, luto e silenciamento feminino. E este livro chega aos leitores brasileiros.
Em um verão, a jovem Marina, de luto pela morte do pai, se deixa capturar pelo olhar enigmático de Jaime. Esse homem, vinte anos mais velho, é a personificação de tudo o que ela sempre sonhou e, em pouco tempo, vira sua vida do avesso. Marina não acha mais graça em ir a shows nem em frequentar baladas e deixa a casa que divide com a melhor amiga Diana para se instalar no incrível apartamento onde ele mora e jantar todo fim de semana nos melhores restaurantes. Mas não demora muito para que o deslumbramento com a vida sofisticada que o charmoso Jaime lhe oferece comece a desvanecer. O encanto do início do namoro vai dando lugar a algo cada vez mais sombrio. O romance intenso e hipnótico aos poucos vai se transformando em um ciclo de comportamentos erráticos e agressivos por parte de Jaime. Enredada em uma teia de controle cada vez mais perigosa, Marina sente que está se perdendo em um relacionamento que a cada dia se parece mais com uma armadilha. Com uma prosa delicada que oscila entre o lirismo e a visceralidade, a estreia literária de Lucía Solla Sobral explora o que significa ser jovem, amadurecer e construir uma identidade. Sensível, perturbador e impossível de largar, Comerás flores é um romance sobre as diferentes faces do amor, as fases e os percalços do luto e os perigos escondidos em relações aparentemente perfeitas. Uma história em que desejo e medo caminham lado a lado, revelando como certas violências se infiltram no cotidiano de maneira quase imperceptível. Com tradução de Ivone Benedetti, o livro é publicado pela editora Record. Você pode comprar o livro aqui.
Romance autoficcional da escritora e atriz japonesa Izumi Suzuki passa pelos territórios da dependência química e da vida alternativa na Tóquio dos anos 1970.
Em capítulos breves como faixas de um álbum de rock, Izumi Suzuki retrata seus vinte e poucos anos neste romance autoficcional: a dependência química, os relacionamentos com músicos da cena alternativa da Tóquio dos anos 1970 e um vazio existencial que dá à personagem tanto fragilidade quanto força. Niilista e mercurial, Izumi se distrai com o próprio temperamento e leva uma vida descompromissada, até se envolver com o saxofonista de vanguarda Jun, com quem embarca em um casamento convulsivo de desfecho trágico. Incendeie meu coração traz um jovem mulher tentando sobreviver a si mesma ― duro e melancólico, mas também irônico, sagaz e apaixonadamente musical, o romance sai pela DBA com tradução de Jefferson José Teixeira. Você pode comprar o livro aqui.
Um novo título de Eva Baltasar em português.
A protagonista de Mamute é uma jovem arcaica, presa na vida moderna. Sente atração por mulheres, mas usa homens desconhecidos para tentar saciar uma ânsia visceral por engravidar. Até que, exausta da sua rotina enclausurante, ela deixa a cidade e parte para o campo. Em busca de isolamento, aluga uma casa antiga numa região inóspita, onde o acesso é difícil e o único vizinho é um pastor de ovelhas. Mas, longe de uma fuga idílica, o que a prosa selvagem de Eva Baltasar apresenta é a jornada de uma mulher que responde a um chamado primordial para evitar a própria extinção. Com tradução de be rgb e Meritxell Hernando Marsal, o livro sai pela editora Dublinense. Você pode comprar o livro aqui.
Tendo como ponto de partida a união de George Orwell e Eileen O'Shaughnessy, um dos casamentos literários mais importantes do século XX, Anna Funder reflete de forma honesta sobre o que significa ser esposa e escritora no mundo moderno.
“Os biógrafos de Orwell são sete homens olhando um homem. Cada qual é brilhante, e cada qual conta uma história levemente diferente”, escreve Anna Funder. “Mas todos eles minimizam a importância das mulheres na vida de Orwell. No final, as biografias começaram a parecer ficções de omissão.” A premiada escritora australiana passa então a chafurdar os arquivos em busca do que foi silenciado. E lá estava Eileen O'Shaughnessy, primeira esposa de Orwell, personagem fundamental na construção literária do autor britânico. Foi a sua perspicácia prática que salvou a vida do escritor. Ousado tanto na forma quanto no conteúdo, Funder mescla episódios reais — cartas e diários escritos durante a Guerra Civil Espanhola e em Londres na Segunda Guerra Mundial — a cenas imaginadas, inserindo-se na intimidade da solidão feminina. O que é preciso para ser escritora? E o que significa ser esposa de alguém? A vida invisível da sra. Orwell é um ensaio poderoso sobre o trabalho invisível das mulheres hoje e ontem. Publicação da Companhia das Letras com tradução de Denise Bottmann. Você pode comprar o livro aqui.
Uma coletânea de ensaios que transforma a leitura solitária em experiência compartilhada.
Diga a coisa como ela é reúne mais de quarenta textos de Tatiana Salem Levy publicados em sua coluna quinzenal no Valor Econômico entre 2017 e 2026. Organizada em seis eixos temáticos, a coletânea percorre um amplo repertório de leituras ― de clássicos a obras contemporâneas ― que exploram a relação entre pais e filhos, as representações do corpo na literatura, as experiências do feminino e os paralelos entre ficção e memória, além de trazer reflexões sobre identidade, sexualidade, filosofia, crítica e política. A seleção abrange uma pluralidade de gêneros, nacionalidades e épocas, e inclui também comentários sobre livros em que a natureza se impõe como força primordial, deslocando o humano do centro da narrativa. De Sófocles a Djaimilia Pereira de Almeida, passando por Franz Kafka, Virginia Woolf, Clarice Lispector e Édouard Louis, Tatiana Salem Levy revela um olhar atento que nos aproxima das obras revisitadas e faz da leitura um exercício de indagação sobre a existência. Publicação da editora Tinta-da-China Brasil. Você pode comprar o livro aqui.
REEDIÇÕES
Nova edição de um dos livros mais originais de Elvira Vigna, com posfácio de Carola Saavedra.
Dino é Bernardino Bertolli Martezzi nos documentos, Dino para os familiares e Bebê Martê para lá da ponte. Adora torresmo com cachaça, como atesta seu último pedido. Os filhos se reúnem sem entusiasmo numa festa que mais parece um funeral. Querem celebrá-lo ou enterrá-lo? Onde se meteu o velho que nem ficou para comer o bolo do próprio aniversário? Será que vai cumprir a promessa de morrer depois da festa? Enquanto nos fazemos essas perguntas diante dos fatos narrados — ou inventados? —, um fio subterrâneo vai percorrendo este romance em que não são os bons sentimentos que movem as personagens e onde todos, inclusive a narradora, têm algo inconfessável a esconder. O assassinato de Bebê Martê não é um romance linear, cristalino, com heróis e vilões, causas e efeitos perfeitamente identificados. Ele avança em círculos, como se a cada momento precisasse voltar ao “local do crime” para esmiuçar detalhes. Mas aos poucos percebe-se que certas coisas não ditas e determinados sentimentos não explicitados estão por trás dos acontecimentos desta história duplamente filtrada, refratada por olhos cuja maior preocupação não é, certamente, a verdade, mas suas versões. O efeito e a máscara, obtidos com maestria. Publicação da Companhia das Letras. Você pode comprar o livro aqui.
RAPIDINHAS
Resgate dos infanto-juvenis. Vários títulos da sequência Astrúbal, o terrível, publicado por Elvira Vigna nos anos 1970 e há muito esgotados, ganharam nova edição pela FTD. Projeto faz parte do resgate de obras que caíram no esquecimento até mesmo da autora, que colaborou em muitas histórias do gênero à época com nomes como Roseana Murray.
Resgate da poesia. A editora Tutameia publica Os elementos do verbo, do desconhecido Cauby Cruz. Poeta quisto por nomes como Max Martins, Mário Faustino, Ruy Barata e Benedito Nunes, o raro livro tirado das prateleiras pelo próprio poeta ganha segunda edição mais de sete décadas depois.
Mais de Adélia Prado. Depois de reeditar os romances Solte os cachorros e Filandras, a Record prepara para o fim de 2025 a publicação de uma edição com a Prosa completa da poeta mineira.
Mais de Agustina Bazterrica. Depois de dois livros publicados no Brasil, chega As indignas. Trata-se de uma distopia que reúne questões ligadas ao fanatismo e a violência dele derivada. Publicação do selo Tusquets.
Desoriental. É o título do livro da escritora e cineasta franco-iraniana Négar Djavani que ganha edição entre os leitores brasileiros em setembro. O livro publicado pelas Edições Cosac dá contas de uma mulher iraniana que escapa do seu país para viver numa França chauvinista e racista.
DICAS DE LEITURA
1. A polaquinha, de Dalton Trevisan (Todavia, 160p.) O único romance do autor que se destacou entre o conto acompanha a vida de uma jovem que, para pagar os estudos e se manter, decide se prostituir. Um itinerário acidentado entre a culpa e a perdição. Você pode comprar o livro aqui.
2. Antes e depois, de Alba de Céspedes (Trad. Francesca Cricelli., Bazar do Tempo, 136p.) Situado na Itália do pós-guerra, este romance acompanha a vida de duas mulheres numa altura em que a decisão inesperada de uma coloca em crise toda a percepção formada entre as duas forçando-as uma reaprendizagem da autonomia. Você pode comprar o livro aqui.
3. Antologia poética, de Federico García Lorca (Trad. William Angel de Mello, Martins Fontes, 301p.) Quase nada da obra de um dos nomes mais importantes da literatura de língua espanhola está publicado no Brasil. Nesta antologia, o leitor ao menos encontrará os mais populares poemas de Lorca e os mais significativos na escolha do tradutor. Você pode comprar o livro aqui.
VÍDEOS, VERSOS E OUTRAS PROSAS
Marjane Satrapi se tornou célebre com uma tetralogia em quadrinhos que narra a sua infância no Irã durante a Revolução Islâmica. Persepólios é um marco do gênero com a projeção de uma mulher poderosa, eloquente e determinada, de olhos escuros magnéticos, voz rouca e áspera pelo cigarro e um discurso incisivo. A autora franco-iraniana “morreu de tristeza pouco mais de um ano após a morte de Mattias Ripa, seu marido e amor de sua vida”, cf. escreveu em nota a família no dia 4 de junho para a Agência France-Presse. O jornal Le Monde resgatou uma entrevista com Satrapi realizada em outubro de 2020.
BAÚ DE LETRAS
O livro de Chamisso agora em nova edição e tradução é destaque neste texto que traduzimos para o Letras em novembro de 2024.
DUAS PALAVRINHAS
Eu aprendi que você deve sempre gritar mais alto do que o seu agressor.
— Marjane Satrapi
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