Folk horror em Animais tropicais, de Javier A. Contreras

Por Douglas Sacramento 

Javier A. Contreras. Foto: Guaíra Maia



Existe um imaginário antônimo do espaço citadino — o chamado lugar da organização cultural. No distanciamento das cidades também existe cultura, mas beirando o estranho e, por vezes, o diabólico. Os filmes de terror pontuam constantemente essa relação dicotômica e a literatura apresenta ótimos exemplos em que o distanciamento do urbano se relaciona com o encontro do mal, do transgressor e do selvagem.

Lembro-me de um conto de Stephen King em que um casal, ao se afastar da cidade, encontra uma pequena comunidade no interior circundada por um grande milharal. O resultado é o encontro das personagens com uma sociedade governada por crianças que mataram todos os adultos e adoram uma divindade que vive no milharal alimentando-se dos jovens quando começam as transformações da adolescência. O sacrifício humano ocasionava num bem-estar comunitário e uma vida tranquila para aquelas crianças que organizavam e controlavam o poder da pequena cidade.

Horror e campo mexem com a imaginação do autor e, consequentemente, do leitor. Foi com um misto de surpresa e desconfiança que li a premissa do novo romance de Javier A. Contreras. O autor foi repórter policial e ganhou prêmios como o da Associação Paulista de Críticos de Arte com o romance Crocodilo (2019), além de ter sido finalista dos prêmios São Paulo de Literatura e Jabuti. 

Com Animais tropicais (Companhia das Letras, 2025), o romance em questão, há um retorno de Contreras ao gênero policial, mas as personagens continuam guiados por encontrar respostas — caminhos que percebo como constante na produção do autor. O leitor se depara com Emílio e Sara, jornalistas que estão à procura de um amigo que foi para Terra Luminosa e nunca mais voltou.

Assim, o casal protagonista desloca-se para o interior do Brasil e se depara com a Colônia Lumiar, lugar onde supostamente encontrará o amigo. Mas, ao chegar próximo ao destino, Emílio atropela um homem e quebra o carro no acidente, obrigando-o a permanecer na região e perceber que algo estranho ronda Colônia, seu fundador João Salvador, sua prole e as pessoas que vivem ali. 

Ao mesmo tempo, o romance apresenta um narrador, a princípio misterioso, mas que, no decorrer da narrativa, descobrimos ser um dos herdeiros da Colônia, que possui o mesmo nome do pai, embora chamado apenas de “menino”, e que possui questões neurológicas decorrentes de complicações no parto. É quando compreendemos a relação entre o nascimento do primeiro filho, as tentativas de tratamento realizadas pelo pai, a construção da Colônia Lumiar e seus segredos macabros.

Folk horror e o passado do Brasil 

Andrey Kolling Lehnemann pesquisou, no mestrado, o folk horror — ou horror folclórico, em tradução literal. O foco de sua análise é outra produção artística, um dos filmes de Ari Aster, mas o que o pesquisador aborda teoricamente é importante para esta crítica. Para Lehnemann, num primeiro momento, o folk horror apresenta uma estreita relação com o velho e o antigo; o afastamento dos grandes centros urbanos é sinônimo da manutenção de uma tradição, e as pessoas representadas nesses lugares são frequentemente marcadas por uma ojeriza em relação ao que vem de fora. Portanto, esses sujeitos viajantes aparecem e tentam, de algum modo, descortinar o que está acontecendo nesses lugares recônditos.

Em seguida, o pesquisador faz um passeio pelas influências britânicas sobre o gênero cinematográfico e demonstra como, após analisar produções para além desse contexto, o folk horror passa a funcionar como uma crítica ao progressismo, marcada por sujeitos que vêm de fora, enquanto existe uma exaltação dos costumes antigos e tradicionais — reverberados de forma constante nas produções artísticas do gênero. Portanto, o folclore e, consequentemente, a manutenção do tradicional e do antigo ecoam e deságuam no retorno ao contemporâneo que Javier A. Contreras faz em seu romance mais recente.




O movimento do estrangeiro como possível agente de mobilização e desestruturação de uma estrutura já muito bem alicerçada acontece desde o início do romance, quando os protagonistas são interrogados sobre o que estariam fazendo naquele local e qual seria o interesse deles na Colônia. Isso demarca um lugar de incômodo que, no decorrer da narrativa, vai se intensificando. O que se descobre na Colônia, assim como a relação entre o patriarca da família e seus filhos, atesta ao leitor que algo muito complexo e estranho acontece naquele lugar, razão pela qual tudo é tão escondido e fortificado — salientando que existem segredos difíceis de acessar. 

“Um pouco à frente, podia-se ver um portão de metal ladeado por cercas de arame trançado cuja extensão era impossível de mensurar e, em certo ponto, pareciam se metamorfosear à escuridão da noite. Do lado direito da cerca, um pequeno terreno baldio limpo de vegetação parecia fazer as vezes de estacionamento, já que ali pairava solitário um velho modelo de furgão até o portão branco. Usando as lanternas dos celulares foram até o portão e tentaram forçar sua abertura quando perceberam que um cadeado impedia o movimento entre as duas partes: a fixa e a de correr. Olharam para cima e viram rolos de arame farpado.” (p. 44)

O uso do folk horror também surge na dinâmica interna da Colônia Lumiar. A relação de um dos filhos da família Salvador com as flores e das pessoas da cidade próxima que estão ali para mudar de vida e trabalhar estabelece uma ligação direta com as plantas e com a terra, um encontro com a natureza no qual o mundo globalizado e o seu tempo tão acelerado parecem não os alcançar. Portanto, os jornalistas marcam uma cisão e criam um incômodo nesse bucolismo.

Lehnemann aborda em O mal não espera a noite: horror, folclore e alteridade, que uma características do folk horror se encontra a partir de uma crítica ao progresso contemporâneo, mas a busca pelo tradicional e pelo antigo no romance de Contreras, além disso, cria novas possibilidades metafóricas. Para mim, esse é o ponto-alto da narrativa: o diálogo entre tempos distintos e o segredo da Colônia, que remetem e dialogam com um Brasil ditatorial. A família Salvador outrora torturava os que afrontavam o regime instaurado no país e continua promovendo torturas e experimentos comportamentais — como transformar sujeitos pobres do interior do país em animais tropicais e selvagens:

“Aguardou um pouco e, quando voltou a observar o grupo pela teleobjetiva, notou que o vigia já não estava à frente do casarão e ficou procurando-o até vê-lo sair da construção mais antiga; segurava uma coleira comprida com um cão enorme que tinha parte da cabeça coberta por uma espécie de focinheira. Sara, então, aproximou ainda mais a imagem e, quando o foco enfim se estabilizou, ela pôde notar que não se tratava de um animal, mas sim de um homem que se movimentava como um quadrúpede; fotografou inúmeras vezes.” (p. 154)

Portanto, a beleza do local, o castelo e seus jardins escondem no interior do interior da Colônia Lumiar um passado pautado na tortura. Até mesmo a forma como a espacialidade está organizada no romance remete ao Brasil e ao seu modo de colocar debaixo do tapete um assunto tão importante quanto a ditadura. No mesmo caminho, a presença dos animais tropicais funciona como referência aos estereótipos que cercam as pessoas pobres de um Brasil não assistido pelos governantes. O folk horror traz à tona, no romance de Contreras, uma compreensão da nação e daqueles que vivem à margem.

“Tirou a cabeça da mulher do tonel de lata onde havia água misturada a excrementos. Ela resfolegava, chorava, babava e tossia; tudo ao mesmo tempo. Não vomitava mais porque já não havia nada dentro dela. Chamavam-na Celeste, mas era apenas um nome falso; um codinome de guerra.” (p. 132)

Contudo, se por um lado o uso do folk horror, do passado nacional e das relações do gênero dentro do romance ocorre de forma orgânica, por outro existem escolhas estéticas que não funcionam tão bem quanto as citadas anteriormente. Personagens acessórios que pouco acrescentam ao romance, assim como o filho que possui capítulos próprios à parte: uma voz narrativa que tem um crescente muito interessante, mas cujo desfecho não corresponde ao tom de vingança construído anteriormente, ou seja, não dialoga plenamente com o final sangrento e imagético da obra.

“A atiradora, que continuava em posição de combate, matando um a um, foi alcançada por um dos bichos, que a segurou pelo rabo de cavalo e tentou girá-la no ar tantas vezes que o escalpo da mulher ficou em sua mão.” (p. 163)

Outro ponto é como o romance apresenta personagens de difícil identificação. Diferentemente de Crocodilo, obra em que a busca de um pai por respostas pelo suicídio do filho é marcada por indagações e ganchos narrativos muito competentes, em Animais tropicais alguns capítulos passam quase despercebidos. Ainda assim, essas questões podem ser interpretadas como escolhas do autor diante das possibilidades específicas desse diálogo entre o romance e o folk horror, além do arco narrativo que culmina num grande ápice — uma tentativa de preservar um ritmo acelerado para a narrativa. 

Javier A. Contreras é inventivo, apresenta ao leitor um enredo dinâmico e renova o tratamento contemporâneo do folk horror no romance. Portanto, o leitor está diante de uma produção em que nada é gratuito, pois ao fundo existe uma metáfora e um espelho da nação esgarçada. Animais tropicais funciona, incomoda e é interessante.


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Animais tropicais
Javier A. Contreras
Companhia das Letras, 2025
176 p.


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