Notas sobre Porventura: finitude, efemeridade e estética do carpe diem

Por Igor Araújo

Antonio Cicero. Foto: Ana Alexandrino. Reprodução a partir de SESC-SP



Antonio Cicero nasceu em 6 de outubro de 1945, na cidade do Rio de Janeiro. Foi poeta, filósofo, compositor, crítico literário e ensaísta. No dia 10 de agosto de 2017, foi eleito para a cadeira 17 da Academia Brasileira de Letras. Cicero faleceu no dia 23 de outubro de 2024, em Zurique, na Suíça, devido ao agravamento do seu quadro de Alzheimer; vendo-se impossibilitado de realizar as atividades que mais adorava, optou pelo suicídio assistido, prática legalizada no país. 

Considero importante destacar alguns aspectos da biografia de Antonio Cicero que dialogam muito com as características da sua criação poética. Primeiro, a sua formação acadêmica. Tanto a sua graduação quanto a sua pós-graduação é na área da Filosofia e esse aspecto acentua um lirismo de predileção filosófica. E, somado a isso, o filósofo-poeta assumiu um tom cerradamente cético sobre a vida, renunciando a qualquer perspectiva espiritual, de modo a enfatizar a necessidade de o sujeito tomar o controle de sua existência e vivê-la em completa plenitude. 

Nesse sentido, seus escritos filosóficos e poéticos orientam-se para ser uma “salvaguarda à abertura do espaço em que a arte e a filosofia — as produções do espírito — livremente se dediquem ao ser”, palavras do próprio Cicero presentes em seu ensaio “A razão Niilista”. É precisamente a dedicação reflexiva sobre o ser que marca a centralidade e reúne as linhas de forças do seu terceiro livro de poemas Porventura, publicado em 2012. 

Vida, valeu
Não te repetirei jamais. (Cicero, 2025, p. 163)

Poucos poemas sintetizam de forma tão precisa a poética desenvolvida por Antonio Cicero em Porventura quanto os dois versos de “Valeu”. Em sua extrema concisão, o poema condensa uma reflexão que atravessa toda a obra: a consciência da impermanência da existência não conduz à negação da vida, mas à sua afirmação mais intensa. O vocativo “Vida” estabelece uma interlocução direta com a própria experiência de viver, enquanto o verbo “valeu” assume o sentido de reconhecimento e gratidão pela existência. O verso seguinte — “Não te repetirei jamais” — não expressa o desejo de uma nova oportunidade, mas a aceitação de que a vida, justamente por ser única e contingente, encontra seu valor na intensidade com que é vivida. Essa concepção organiza grande parte dos poemas reunidos em Porventura

A consciência da passagem do tempo, da finitude e da contingência, longe de produzir uma atitude resignada ou pessimista, fundamenta uma poética que convida o leitor a habitar plenamente o presente. É a partir dessa chave de leitura que se articulam os diferentes eixos da obra: o diálogo com a tradição clássica, a reflexão metafísica sobre o nada, a valorização do carpe diem e a transformação da memória em matéria poética.

Porventura segue a linha dos dois primeiros livros de poemas publicados pelo autor, Guardar (1996) e A cidade e os livros (2002). Sua obra poética dialoga com a tradição filosófica e literária, por meio de uma dicção profunda e delicada, suscitando sempre contundentes reflexões sobre o acaso, o tempo e a realidade, sendo forças que o poeta tenta (em vão) guardar. Podemos entender a palavra “Porventura”, que intitula o livro, partindo da separação “por ventura”, em que ventura pode ser entendida, segundo observa Noemi Jaffe, como um “bom acaso, ou sorte, como a ventura de um deleite passageiro, o encontro venturoso que só a cidade e os livros, se bem guardados, podem produzir” (Jaffe, 2025, p. 210). A leitura proposta pela crítica ilumina não apenas o título da obra, mas também um de seus procedimentos centrais: transformar acontecimentos fortuitos em matéria poética, preservando pela escrita aquilo que, de outra forma, se perderia no fluxo do tempo. 

Essa é uma das possibilidades de leitura que se pode ter do poema que encerra o livro, intitulado “3h47”. Nele, a insônia, experiência involuntária, torna-se a condição de possibilidade da escrita. O que poderia permanecer apenas como um instante banal da madrugada, converte-se em poema, isto é, em registro de um acontecimento efêmero. A vigília, inicialmente marcada pelo desassossego, transforma-se em ocasião para o exercício da criação poética e para a preservação desse instante pela linguagem. Nesse sentido, a “ventura” evocada pelo título manifesta-se justamente no encontro inesperado entre a vigília e a criação poética, fazendo da escrita uma forma de guardar o contingente, como se observa no poema: 

Bem que Horácio dizia
preferir dormir bem 
a escrever poesia. (Cicero, 2025, p. 166)

A referência a Horácio evidência a convergência de Antonio Cicero com a tradição clássica. A menção ao poeta latino funciona como algo além de uma mera ornamentação erudita, ela insere o poema contemporâneo em um diálogo que perpassa séculos de reflexão sobre a própria poesia. Na medida em que essa voz da Antiguidade é retomada para tratar de uma experiência cotidiana e habitual, Cicero aproxima passado e presente e demonstra como a tradição permanece produtiva quando reinterpretada pela sensibilidade contemporânea. Essa interlocução reaparece em diversos momentos do livro, especialmente nos poemas que reelaboram personagens e motivos da mitologia greco-romana, como ocorre em “Ícaro”:

Buscando as profundezas do céu
conheceu Ícaro as do mar; 

Adeus poeira olímpica
grãos da Líbia 
barcos de Chipre 

Adeus riquezas de Átalo 
vinhos do Mássico
coroas de louro
flautas e liras 

Adeus cabeça nas estrelas 
adeus amigos 
mulheres 
efebos 
adeus sol;
ouro algum permanece. (Cicero, 2025, p. 164)

Cicero não se limita a recontar um episódio da tradição clássica. Pelo contrário, reelabora o mito de Ícaro à luz de uma reflexão sobre a finitude da experiência humana. A sucessão de despedidas, marcada pela repetição do termo “Adeus”, imprime ao poema um movimento contínuo de perda, como se cada verso registrasse o desaparecimento de aspectos caros à existência humana, dentre os quais aparecem a glória, a riqueza, a arte, os afetos e, por fim, o próprio sol. O verso final “ouro algum permanece” condensa essa percepção da impermanência, desfazendo qualquer expectativa de permanência material ou simbólica. Nesse sentido, a ascensão de Ícaro deixa de representar apenas o desejo de transcendência e passa a evidenciar os limites da condição humana. O poema condensa, assim, uma das ideias centrais da poética de Antonio Cicero em Porventura, segundo a qual tudo o que existe está submetido ao tempo, à perda e ao caráter inevitavelmente efêmero da existência.

Fullgás, livro que reúne a poesia de Antonio Cicero



Desse modo, Cicero articula, em diversos momentos do livro, a tradição do carpe diem a uma reflexão de caráter metafísico. Um exemplo expressivo é o poema “Nihil”, cujos versos iniciais “nada sustenta do nada esta terra/ nada este ser que sou eu” deslocam a atenção para a própria origem do ser e da “nada” estrutura o poema e produz um efeito de constante dissolução, estendendo essa condição não apenas ao eu lírico, mas também à beleza, ao dia, à noite, ao sol e, por fim, ao próprio poema. 

Ao incluir o poema nessa cadeia, Cicero estende a impermanência à criação artística, recusando-lhe qualquer estatuto de permanência absoluta. Longe de representar um simples exercício de negatividade, essa recorrência evidencia o caráter efêmero de todas as coisas, que surgem, existem por um breve instante e inevitavelmente se extinguem. É justamente dessa consciência da impermanência que emerge a aproximação com a tradição do carpe diem, pois, se tudo nasce do nada e a ele retorna, a experiência do presente adquire um valor ainda mais intenso. O próprio poema demonstra essa condição ao reconhecer sua brevidade nos versos finais: “nada o poema que breve se encerra/ e que do nada nasceu”. Eis o poema “Nihil” na íntegra: 

nada sustenta no nada esta terra
nada este ser que sou eu
nada a beleza que o dia descerra  
nada a que a noite acendeu  
nada esse sol que ilumina enquanto erra 
pelas estradas do breu  
nada o poema que breve se encerra  
e que do nada nasceu (Cicero, 2025, p. 139)

É nesse aspecto que se concentra uma das manifestações mais significativas do carpe diem na obra: todas as ponderações sobre o “nada” que marcam o poema “Nihil” não conduzem, na poética de Antonio Cicero, a uma negação da existência, mas à valorização da experiência concreta do presente. Se a consciência da impermanência evidencia que todas as coisas estão submetidas ao tempo e à perda, ela também intensifica a necessidade de viver plenamente o instante. 

É nessa perspectiva que se insere o poema “Presente”, no qual o carpe diem deixa de aparecer apenas como um motivo clássico e se realiza na experiência sensível do mundo. O convite para deitar-se sobre o gramado, sentir o cheiro das flores, contemplar o céu, perceber a brisa e ouvir os pássaros constrói uma poética da presença, em que o contato com a natureza se torna uma forma de habitar intensamente o agora. A lembrança de que “a idade breve” levará “cabelos sonhos devaneios” reforça que esse presente deve ser vivido antes que o tempo transforme também essas experiências em perda. É esse convite que se materializa nos versos seguintes: 

Por que não me deitar sobre este 
gramado, se o consente o tempo, 
e há um cheiro de flores e verde 
e um céu azul por firmamento 
e a brisa displicentemente 
acaricia-me os cabelos? 
E por que não, por um momento, 
nem me lembrar que há sofrimento 
de um lado e de outro e atrás e à frente 
e, ouvindo os pássaros ao vento 
sem mais nem menos, de repente, 
antes que a idade breve leve 
cabelos sonhos devaneios, 
dar a mim mesmo este presente? (Cicero, 2025, p. 142)

Em alguns momentos de Porventura, a reflexão sobre a passagem do tempo assume um tom marcadamente testemunhal. Sem reduzir o eu lírico à figura do autor, alguns poemas incorporam referências que remetem à sua trajetória de vida, convertendo lembranças pessoais em matéria poética e em reflexão sobre a finitude. É o que ocorre em “Na praia”, poema que revisita a juventude por meio da evocação de amigos, rememorando as suas convivências em meio à experiência compartilhada do mar: 

Na praia — parece que foi ontem —
ficávamos dentro d’água eu,
Roberto, Ibinho, Roberto Fontes
e Vinícius, a água era um céu,
e voávamos nas ondas trans-
parentes, deslizantes, do azul
mais profundo do fundo ciã
do oceano Atlântico do sul.
Mas era outro século: Roberto
morreu, morreu Vinícius, Roberto Fontes
quase nunca vejo, e Ibinho
casou e mudou. Já não procuro
o azul. Os mares em que mergulho
são os homéricos, cor de vinho. (Cicero, 2025, p. 156)

A primeira metade do poema constrói um cenário de leveza e plenitude, marcada pela convivência entre amigos e pelas imagens do mar, da água e do céu, que se mesclam à experiência da juventude. Essa memória, entretanto, é abruptamente interrompida pelo verso “Mas era outro século”, que introduz a consciência da passagem do tempo e reorganiza toda a leitura do poema. A enumeração das perdas: “Roberto morreu/ morreu Vinícius/ Roberto Fontes quase nunca vejo/ e Ibinho casou e mudou” evidencia a ação irreversível do tempo sobre os vínculos humanos. 

O verso “Já não procuro o azul” simboliza esse afastamento do horizonte da juventude, enquanto o desfecho desloca o mergulho no mar da experiência para os “mares homéricos, cor de vinho”. A antiga vivência permanece, assim, não como realidade recuperável, mas como memória reelaborada pela literatura, reafirmando um eixo permanente da poética de Antonio Cicero, que consiste na tentativa de guardar, por meio da linguagem, aquilo que o tempo inevitavelmente faz desaparecer.

Somado a isso, a ponto de nomear o seu segundo livro, uma das temáticas que sempre ocupou destaque em sua criação foi a relação da voz poética com a cidade. Em Porventura, Cicero também retoma a matéria sobre a cidade e dessa vez insere a persona poética em alguns contatos com o urbano. De modo que, ora a voz poética assume um olhar de cronista, como em “Meio-fio”, ora a cidade vigia o poeta que, por precaução, opta por encerrar o poema “Blackout”, como aponta (Belúzio, 2012). 

A reflexão sobre a finitude, sobre o metafísico e sobre a memória se adensam quando entram em contato com a cidade. No poema “A cidade e os livros”, presente em seu segundo livro, o urbano, ainda que tedioso, aparece como possibilidade, em razão da presença dos livros. Todavia, o mesmo não ocorre na cidade no poema intitulado “Cidade” presente no livro Porventura. Nele, a voz poética apresenta um eu lírico que, imerso em um horizonte de expectativa e desejo, tudo espera da cidade, a qual apresenta-se nebulosa, prestes a ser descoberta. Porém, chegada a finitude, as possibilidades apresentam-se em “névoa do futuro do passado”, que “adensa-se dia a dia”, em decorrência do aspecto contingente que não se permite captar inteiramente frente à finitude. E o que resta? Memória. O poema na íntegra nos diz: 

Lembro que o futuro era uma cidade 
nebulosa da qual eu esperava 
tudo e que, sendo uma cidade, nada 
esperava de ninguém. Ah, cidade 
sonhada de avenidas macadâmicas, 
turbas febris e prédios de granito: 
o que era que eu perdera e que, perdido 
e em cacos, buscava nas tuas áridas 
calçadas e esquinas? Hoje constato 
que a névoa do futuro do passado 
adensa-se dia a dia. De longe 
teus contornos são mais arredondados. 
Tu, cidade irreal, aos poucos somes:
já anseio te rever e já te escondes. (Cicero, 2025, p. 158)

Em suma, se “Vida, valeu” sintetiza a resposta que Antonio Cicero oferece ao percurso desenvolvido em Porventura, é porque toda a obra conduz a essa afirmação. A consciência da passagem do tempo, da perda e da contingência não reduz a existência ao desencanto; ao contrário, torna-a ainda mais digna de ser vivida. Ao transformar o efêmero em matéria poética, Cicero demonstra que a poesia não vence o tempo, mas preserva a intensidade dos instantes que ele insiste em levar consigo. É justamente nessa tensão entre a inevitabilidade da perda e o desejo de guardar o que passa que Porventura encontra sua maior força, oferecendo ao leitor uma reflexão profundamente filosófica e, ao mesmo tempo, intensamente humana. 

Referências: 

BELÚZIO, Rafael Fava. Porventura, de Antonio Cicero. Palimpsesto, Rio de Janeiro, n. 18, p. 296-302, jul./ago. 2014. Acesso em: 29 maio 2026. 
CICERO, Antonio. Porventura. In Fullgás: poesia reunida. São Paulo: Companhia das Letras, 2025.
CICERO, Antonio. A razão niilista. In O eterno agora: ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 2024.
JAFFE, Noemi. Lucidez e maravilha. In: CICERO, Antonio. Fullgás: poesia reunida. São Paulo: Companhia das Letras, 2025. p. 209–228.



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