Percorrendo outras paragens da nação pelo Rio Negro em Um rio sem fim, de Verenilde S. Pereira
Por Douglas Sacramento
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| Verenilde S. Pereira. Foto: Gabriela Biló. |
I
Quando o literário serve de insumo para corroborar ou rasurar determinados discursos dados como verdades universais ganha estatuto de documento de uma memória coletiva, seja de grupos sociais e étnicos, seja do próprio país em que o escritor está inserido. Atento a esse movimento, o teórico indiano Homi K. Bhabha, em O local da cultura, discorre que o discurso de nação sempre emprega em seus atos cívicos e na história oficial a ideia de que “somos todos um”, produzindo um sentimento de pertença coletivo. Contudo, um país de modo unívoco é uma falácia, pois aqueles que ocupam as margens sociais experimentam a nação de modo outro.
É nesse contexto que Bhabha propõe o conceito de contranarrativa. Para o teórico, essas são narrativas de rasura, que confrontam o discurso totalizante da nação; ao colocar a ideia de nação num campo de disputas, produzem “deslocamento contínuo da ansiedade do espaço moderno irremediavelmente plural”. Ou seja, ao apresentar diferentes formas de nação, as contranarrativas evidenciam a pluralidade do país e abala as estruturas unificadoras sobre as quais o discurso nacional está alicerçado.
Essa discussão está de forma explícita em Um rio sem fim, de Verenilde S. Pereira. O romance da manauara, escritora afro-indígena, jornalista e professora, foi publicado originalmente em 1998 e relançado em 2025 após a repercussão de um artigo na Folha de S. Paulo assinado pelo pesquisador Rodrigo Simon de Moraes.
Em Um rio sem fim uma narradora busca reunir histórias e diferentes versões sobre as missões realizadas pela Igreja Católica na Amazônia em meados do século XX, mais precisamente em 1950. Durante esse período, os missionários cooptavam crianças indígenas de suas comunidades para serem “civilizadas” e, ainda na infância, enviadas para a capital, onde trabalhavam como empregadas domésticas para a elite. Nesse cenário, a busca da narradora gira em torno de Maria Assunção e de outras meninas submetidas a esse processo, cada uma com sua respectiva história.
Maria Assunção foi levada para os cuidados de Dom Matias Lana, responsável na Amazônia por catequizar e impor um modelo de educação às crianças indígenas da região. A menina e mais quatro crianças foram levadas para Manaus. Como nunca aceitou imposições, acaba fugindo e construindo uma vida com outros amores e rumos. Concomitantemente, o romance narra a história de Rosa Maria, que, afastada da sua comunidade, adoece do psicológico, passando a vagar nas ruas em surto até aceitar um casamento arranjado.
II
Associei a construção do romance a algumas falas da autora durante a Bienal do Livro da Bahia de 2026. Em uma delas, Verenilde destacou como sua experiência no jornalismo serviu de insumo para a escrita da obra. Com base em notícias de jornal e documentos sobre uma prática recorrente em comunidades indígenas e ribeirinhas até meados do século XX, Verenilde mostrou que sua política literária está costurada à denúncia social. Em prol da comunidade indígena brasileira e de outras possibilidades de narrar o país, sua escrita desloca o olhar dos grandes centros hegemônicos, como o eixo Sul-Sudeste, e ilumina histórias que não possuem o devido espaço na mídia dominante.
Por isso, no decorrer do romance, a narradora, em busca das histórias dessas meninas, indaga missionários, freiras, mulheres indígenas e católicas, buscando entender como se deu a trajetória de Maria Assunção, Rosa Maria e das demais levadas para Manaus. À medida que recolhe e transcreve esses relatos, a narradora constrói uma crítica ao silenciamento que atravessa essas memórias e mostra como as marcas vigentes da colonização no Brasil.
“Aviões passavam por sobre sua cabeça carregando mercadorias e remédios para a missão. Solas de sapato dos contrabandistas de ouro e cocaína preenchiam o ar. Voavam as botas dos soldados que ali chegavam para reforçar a soberania do país, com suas fronteiras delimitadas por decretos e bandeiras que julgavam poder espalhar sobre as pedras, nas cercanias das cachoeiras e pousar na última árvore de tronco ressequido de uma fileira de seringueiras. Marcos assim fizeram os indígenas emaranharem-se na linha imaginária do Equador.” (p. 16)

Ao reunir documentos, relatos e vestígios dessas existências, a narradora fabula a partir do arquivo. O romance transforma esse trabalho de investigação em literatura e reconstrói as trajetórias dessas meninas, identificadas por seus nomes de batismo católicos e pelas idades registradas na narrativa: “Maria Rita, seis anos talvez. Rosa Maria, sete ou oito anos, pelo que as freiras disseram e pelo que parecia. Maria Índia, sete. Maria Assunção, pelo que ela mesma diz, sete anos, mas parece mais” (p. 71).
O romance destaca mesmo como a colonização ainda está presente na história recente do Brasil. As missões religiosas, a imposição da língua, da cultura e da educação às comunidades indígenas da região Norte reiteram um projeto civilizacional que busca apagar modos de vida considerados primitivos. Um rio sem fim denuncia essas mortes simbólicas e físicas que afetam ainda hoje inúmeras comunidades indígenas brasileiras, constantemente ameaçadas pela perda de suas terras e pela ação de projetos evangelizadores.
O percurso dessas personagens também aponta diferentes formas de resistência. Maria Assunção recusa as imposições dos missionários, foge diversas vezes e, já adulta, acaba presa. Rosa Maria resiste de outra maneira, recusando-se a realizar os afazeres domésticos. No entanto, as mazelas dessa luta constante causam efeitos irremediáveis. Assunção sofre sucessivos maus-tratos, enquanto Rosa termina em surto, numa praça, sendo odiada pelos moradores da cidade — um ódio aparentemente gratuito, mas que possui profundas raízes na ojeriza da nação em relação aos povos indígenas.
Essas nuances fazem com que o leitor reflita acerca das imagens construídas pelo romance. O uso de construções metafóricas é um dos pontos positivos da obra, pois descortina os efeitos da colonização e revela como determinadas versões da história do Brasil são silenciadas ou ignoradas. Logo nas primeiras páginas, por exemplo, os livros do mosteiro são queimados numa pira pela comunidade indígena liderada por Lauriano Navarro. Em outro momento, a narradora apresenta ao leitor o sumiço das meninas, cuja ausência permanece sem resposta para suas famílias e comunidades. O que fica é o questionamento: para onde foram? Quais arquivos dão conta de nomear essas mulheres desaparecidas? A literatura de Verenilde S. Pereira tem esse trato com a história que está nos escombros.
“Quando embarcou, Maria Assunção adormeceu no colo de uma cabocla que sonhou ser Laura Dimas, que ainda não havia descido daquele barranco para onde voltaria todas as semanas junto com índios, índias, avós, primas, irmãos, padrinhos, que avançavam perguntando aos que chegavam se haviam visto Maria de Nazaré, que nunca mais mandara notícia; onde estava Maria de Lourdes, se havia acabado os estudos; onde estava Maria Inês, que tinha ido embora havia oito anos com duas pulseiras de plástico, uma amarela e outra azul; onde estava Maria Etelvina, se era verdade que tinha morrido; se haviam visto Maria do Rosário, que tinha ido tão bonita e agora, com o rosto retalhado, sentia vergonha de voltar; se Maria Bernadete havia casado com um comerciante e se outras Marias envergonhavam-se deles.” (p. 61)
O fogo que queima os livros e se torna meio para concretização de justiça é também um modo de compreender como os museus e a história oficial engessam representações sobre as comunidades indígenas, criando estereótipos como o da falta de resistência contra os colonizadores. Portanto, lidar com o discurso de nação é se inserir num campo que está sempre em mudança, em dúvida.
A ansiedade provocada quando essas histórias emergem, apontada por Homi K. Bhabha no início deste texto, encontra em Verenilde S. Pereira uma poderosa resposta literária. A autora percorre paragens outras da nação, que estão ausentes dos livros da história do Brasil. Em Um rio sem fim, acompanhamos outro Rio Negro, com outros afluentes que conduzem a margens outras. Uma escrita arguta, urgente, acusatória e pungente. O retorno desse romance às livrarias e ao mercado editorial representa um ganho enorme para a literatura brasileira contemporânea.
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Um rio sem fim
Verenilde S. Pereira
Alfaguara, 2025
Alfaguara, 2025
184 p.

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