Postagens

Mar de leite

Imagem
Por Pedro Fernandes Um dia normal numa cidade. Numa esquina o sinal fecha. Os carros parados esperam o sinal mudar. O sinal verde acende-se. Um dos carros, no entanto, não se move. Buzinas enfurecidas. Gente enfurecida. Batem furiosamente nos vidros fechados do carro ali parado. Lá dentro um homem vira a cabeça para eles. Percebe-se pelo movimento da boca do motorista duas palavras – “Estou cego”. O sentimento de angústia com que segue a trama é o mesmo que aqui se instala. O sentimento de angústia que segue nessa cena é o mesmo que senti na cadeira do cinema ao assistir Blindness , filme baseado na obra Ensaio sobre a cegueira , de José Saramago – romance que ao lado dos outros anteriores a esse lhe rendeu o Nobel, há dez anos. Romance que rende uma incontável dúzia de discussões. O sentimento de angústia que senti na cadeira do cinema é o mesmo que senti nas cadeiras por onde estive a ler o romance. Um mar de leite que vai inundando pouco a pouco os indivíduos de uma soc...

O africano, de J. M. G. Le Clézio

Imagem
Por Javier Aparicio Maydeu “Quem sou eu?” é a frase com que André Breton começa seu romance Nadja (1928), cujas audácias formais, a collage fotográfica e seu manejo autorreferencial da linguagem influenciaram na obra inteira desse piccolo genio chamado Jean-Marie Gustave Le Clézio (Niza, 1940), que em 1963 publica Le procès-verbal ; com 23 anos o escritor demonstra ter aprendido bem a lição das vanguardas e a fama da náusea de Sartre e do absurdo de Camus, além da diatribe contra os modos de vida do mundo contemporâneo, pois o também desenraizado Adam Pollo, seu reflexo e herói anônimo, alienado e sem rumo, busca a si mesmo num meio hostil. A aparência formal de Le procès-verbal ou Le déluge (1966) induzia a pensar que seguia os ditames do nouveau roman de Robbe-Grillet e Butor seja pela dimensão de seu trabalho verbal e sua obsessão pelos objetos e a perscrutador olhar descritivo; mas a pequena precisão asséptica de sua prosa escondeu sempre o lirismo, os caminho...

"A Viagem do Elefante", o aniversário de 86 anos de José Saramago e outras novidades saramaguianas

Imagem
Em Portugal, pela mão da Editora  Caminho  e no Brasil, pela da Companhia das Letras , começou a viagem de Salomão, que já está nas livrarias. Em breve também arrancará a viagem em Espanha pelas edições da Alfaguara e a catalã da Edicions 62 ; estes últimos sairão em novembro. Salomão voltará a percorrer a Europa e irá até à América, desta vez com Saramago como cornaca, já que no Brasil se fará o lançamento mundial deste livro, que não romance, que não conto, que Saramago queria escrever desde há alguns anos e que, finalmente, concluiu com mão sábia e ligeira. Um livro que apaixona e que foi considerado pela crítica portuguesa uma obra-prima, comparável às maiores de Saramago. Um livro que prenderá o leitor e alargará o universo dos saramaguianos.   Uma discreta celebração Saramago já tem 86 anos. Completou-os ontem em Lisboa, com amigos. De todo o mundo chegaram felicitações, por e-mail receberam-se apresentações magníficas e muitos bons votos, telefonemas de vári...

O Martírio de Joana D'Arc, de Carl Theodor Dreyer

Imagem
A atuação de Maria Falconetti, como mártir, é considerada uma das melhores do cinema O cinema do dinamarquês Carl Theodor Dreyer é um dos mais singulares, inimitável e de difícil definição em razão dos vários procedimentos que ele toma para cada filme, planejando para cada trabalho um desenho de cena, um enquadramento e uma abordagem específicos, em obras menos ou mais narrativas. Ele tinha, também, um processo criativo que desprezava as regras da produção cinematográfica, fazendo o seu próprio tempo de planejamento e preparação para um longa, uma dor de cabeça para os produtores - o que muito explica as várias interrupções em sua filmografia. Apesar de ele enxergar os artistas como iluminados, até sagrados, os atores sofriam o diabo em suas mãos, numa espécie de lavagem cerebral que os fazia assumir completamente a persona do personagem. Para a atriz Maria Falconetti, que encarna a santa guerreira de O Martírio de Joana D'Arc , esse foi um divisou de águas. Perturbada com ...

Ferreira Gullar

Imagem
Traduzir-se Uma parte de mim é todo mundo: outra parte é ninguém: fundo sem fundo. Uma parte de mim é multidão: outra parte estranheza e solidão. Uma parte de mim pesa, pondera: outra parte delira. Uma parte de mim almoça e janta: outra parte se espanta. Uma parte de mim é permanente: outra parte se sabe de repente. Nascido em São Luís, Maranhão, em 10 de setembro de 1930 e registrado  como  José Ribamar Ferreira, Ferreira Gullar fez sua estreia na poesia em 1949 com um livro publicado com seus próprios recursos e apoio do Centro Cultural Gonçalves Dias:  Um Pouco Acima do Chão . Note: o nascente poeta contava então com dezenove anos. Mais tarde, já formado poeta, escolheria deixar de fora este título da sua obra completa. É notável a recusa. A poesia era profundamente marcada pelas influências do simbolismo, algo dissonante da poética praticada mais tarde. Assim, os feitos de Gullar no Maranhão foram breves, mesmo que toda sua formação te...

José Saramago escreve sobre Chico Buarque

Imagem
José Saramago e Chico Buarque, amigos desde sempre. Foto: Arquivo Pessoal de Chico Buarque. O texto a seguir é a transcrição de um datiloscrito de José Saramago dedicado ao romance  Budapeste (Companhia das Letras, 2003), de Chico Buarque. Vale ressaltar que a amizade entre os dois é de longa data. Nos anos 1990, por exemplo, eles e Sebastião Salgado se uniram num projeto (comentei aqui ) que combina fotografia, literatura e música em torno de uma causa social: em favor dos brasileiros sem-terra. Do romance de Saramago,  Levantado do chão , e das fotografias de Sebastião Salgado, Chico compôs canções para um CD que acompanha o livro  Terra , prefaciado pelo escritor português .  Bom, mas vamos ao texto de Saramago?  Arquivo Pessoal de Chico Buarque. Haverá universos paralelos? Perante as variadas “provas” apresentadas ao tribunal da opinião pública pelos autores que se dedicam à ficção científica, não é difícil acreditar que sim, ou, pelo menos,...