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Querido Diário

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Por Rafael Kafka Não sei ao certo por onde começar esse texto. Eu quero falar de liberdade hoje. Não sei se escrevo de uma forma mais poética ou de uma forma mais presa a algum contexto político que tem me incomodado demais. Mas algumas cenas me vêm à mente e dizem que devem ser comunicadas hoje na forma dessa crônica que, provavelmente, irá descambar consideravelmente para a prosa poética. Uma cena que me vem à mente na verdade é uma frase que ouvi de Chico Anysio em um vídeo gravado com entrevista dele. Nessa entrevista, ele dizia não ter medo de morrer. E sim pena. Quando ouvi aquilo, eu estava provavelmente afundado no tédio existencial que me acometia com frequência pelos tempos em que ele faleceu, porém tal frase mexeu comigo e desde então penso sempre em uma outra cena a qual não me deixa um dia sem sua visita. Algumas vezes, tal visita demora mais, outras vezes ela é rápida, mas sempre impactante. Em tal cena, eu me imagino em meu leito de morte, lúcido, cons...

O jogo da imitação, de Morten Tyldum

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Fabuloso. Termo utilizado aqui não com o sentido de fantasioso, mas de grandioso e belo. Termo que abrevia uma opinião sobre um título que integra outras produções do gênero: seja A teoria de tudo , Uma mente brilhante , Capote , Milk, Piaf – um hino ao amor, O discurso do rei ... É evidente que, o grande pecado cometido na elaboração da narrativa é a obviedade com que é construída: um jogo previsível, como já admitiu outras figuras da crítica. Entretanto isso é fato muito aceite, se pensarmos quem são os produtores e para qual público o filme é destinado. A obviedade que rouba a cena é também a responsável pela construção bem acabada da obra. E, claro, fantasiar demais quando se lida com cinebiografias seria um problema um tanto grave. Mais ainda quando o filme aposta na ideia do fato real  como se dissesse com isso um maior realismo  da obra. A narrativa de O jogo da imitação  se beneficia de uma série de outros elementos que levam o telespectador ao gos...

A traição ao anonimato papeleiro: os cem anos da primeira edição de “Triste fim de Policarpo Quaresma”

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Por Alfredo Monte Cena da adaptação de  O triste fim de Policarpo Quaresma para o cinema "Meu senhor, exclamou ele no tom mais cortante, onde acredita estar? Desconhece a tal ponto os procedimentos adequados? O senhor deveria antes de mais nada apresentar sua demanda ao encarregado de serviço. Este deveria encaminhá-la na boa e devida forma ao chefe da repartição, o chefe da repartição ao chefe da divisão, o chefe da divisão ao meu secretário, o qual afinal a submeteria à minha apreciação" (trecho de O capote , de Nikolai Gógol) Um dos textos mais brilhantes e lúcidos da nossa ficção, Triste fim de Policarpo Quaresma teve sua primeira edição em livro há cem anos, embora escrito nos primeiros meses de 1911 (a partir de agosto até outubro, saiu em folhetins na edição da tarde do Jornal do Commercio ). Foi a segunda obra que Lima Barreto (1881-1922) conseguiu publicar em sua tumultuada carreira, seis anos após Recordações do escrivão Isaías Caminha . Mu...

“Renuncio à toda responsabilidade, exceto quando opino sobre Literatura” – Michel Houellebecq

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No centro dos atentados a Charlie Hebdo , o escritor Michel Houellebecq foi responsável por uma celeuma: seu novo romance Soumission ( Submissão ) volta a um tema caro para o seu país, tanto quanto o que ensaiou em Partículas elementares (obra que chegou a ser adaptada para o cinema). O livro de 2015, o sexto da sua carreira literária, aborda o futuro da França e o papel do islã. Ambientado em 2022, a narrativa traz um país agitado por problemas que correm misteriosamente: a mídia, por exemplo, é a grande responsável por espalhar o caos ao fazer-se de desentendida quanto a seu exercício de manipulação. Nesse cenário, em poucos meses, um líder de um partido muçulmano de criação recente é eleito presidente. Na noite de 5 de junho, na segunda rodada das eleições gerais – a primeira fora anulada por fraude eleitoral – Mohammed Ben Abbes vence oportunamente Marine Le Pen com o apoio tanto dos socialistas como da direita. Numa entrevista exclusiva para The Paris Review , o e...

O concerto interior – evocações de um poeta, de António Osório (Parte II)

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Por Pedro Belo Clara Muito naturalmente, a infância extrapola-se e a adolescência, primeiro, e a idade adulta, depois, aguardam a sua justa vez. Tais capítulos existenciais seriam para o nosso autor etapas que não se veriam desfloradas das maiores virtudes de carácter aprendidas junto de seus pais, dos quais a compaixão e a prestabilidade diante de terceiros se sobressaem como exemplo. Os tempos de liceu também merecem destaque, pois revelaram-se o berço do encontro com os (ainda) jovens Cristovam Pavia (celebrado em poema por Ruy Belo) e Pedro Tamen, dois nomes de vulto da poesia contemporânea portuguesa. Sobre a época, em prosa escreveu (“Vozes Íntimas”, 2008): «Na pequena roda de amigos, eu seria talvez um dos mais próximos (…). Estes encontros, que buscavam o prazer, o encanto da amizade e a beleza, (…) com a presença de Cristovam, discretamente irradiante, estes encontros constituem uma das mais gratas recordações da minha adolescência». De igual modo, s...