Boletim Letras 360º #702
DO EDITOR
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LANÇAMENTOS
Livro da escritora mexicana, Elena Poniatowska, Prêmio Cervantes e uma das vozes mais importantes da literatura em língua espanhola, ganha edição no Brasil.
Enquanto não te vejo, meu Jesus é um romance extraordinário inspirado na história real de Josefina Bórquez. Jesusa Palancares nunca teve uma vida fácil. Da infância marcada pela pobreza à participação na Revolução Mexicana, passando por décadas de trabalho, violência, perdas e resistência, ela narra sua trajetória com uma voz única: irreverente, mordaz, comovente e profundamente humana. Misturando literatura, memória e reportagem, Poniatowska rompe as fronteiras entre ficção e realidade para dar protagonismo àqueles que costumam permanecer à margem da História. O resultado é um romance intenso e inovador, considerado uma obra-prima da literatura mexicana e um dos livros mais importantes do século XX na América Latina. Leitura indispensável para quem aprecia grandes narrativas literárias, histórias de mulheres, romances históricos e os grandes clássicos latino-americanos; um livro que revela a força de uma personagem inesquecível e o talento de uma autora que transformou a escuta em arte. Publicação da Pinard com tradução de Silvia Massimini Felix. Você pode comprar o livro aqui.
Pela primeira vez para o o público brasileiro a autobiografia de Joyce Lussu.
Lussu foi poeta, tradutora e militante da Resistência italiana. Com ironia e liberdade, a autora revisita em Retrato de uma mulher antifascista uma vida marcada pelo exílio, pelo antifascismo, pelo feminismo e pelo compromisso com a justiça. Mais do que um relato autobiográfico, o livro é o retrato de uma mulher que fez da independência intelectual e da ação política uma forma de existência, transformando sua em um poderoso testemunho de coragem e insubordinação. Com tradução de Cristiane Nascimento e posfácio de Luisa Serroni e Gilda Traini, o livro sai pelo selo Quimera/ 7Letras. Você pode comprar o livro aqui.
Baseado nas experiências do próprio autor, livro retrata, pelo olhar de uma criança, a lenta desintegração de uma família no interior da Jutlândia, na Dinamarca.
Tue vive com os pais e os irmãos numa fazenda nos arredores de Skive. Enquanto o pai afunda em dívidas e negócios desesperados, a mãe passa os dias fumando diante do computador e apostando em cassinos online. Relegados à própria sorte, como os cães que circulam livremente pela propriedade, os filhos crescem entre a pobreza, o desamparo e a negligência. Com um humor sombrio e uma honestidade mordaz, Thomas Korsgaard constrói um romance cáustico e espirituoso sobre ser criança em um lar que não oferece abrigo e sobre a necessidade de inventar formas de amadurecer e encontrar o seu caminho, sem jamais perder de vista as próprias origens e os fugazes momentos de beleza e ternura. Se alguém passar por aqui é editado pela Rua do Sabão; tradução de Leonardo Pinto Silva. Você pode comprar o livro aqui.
Ganhador do Prémio Xerais, um dos mais prestigiosos da literatura galega, este breve romance trata da maternidade através de um filtro menos usual: o da recusa.
A protagonista, mãe de uma criança de cinco anos, engravida pela segunda vez e, ainda presa às más lembranças de sua primeira gestação, decide interromper o processo. Dona de uma prosa límpida e de uma voz bastante original, a autora, Berta Dávila, cria uma narrativa inteligente em que trauma e reflexão se entrelaçam para debater memória e intimidade, além de temas tão díspares quanto depressão pós-parto e criação literária. Com tradução de Sérgio Karam, Os seres queridos sai pela Arquipélago Editorial. Você pode comprar o livro aqui.
A poesia completa de um dos maiores poetas latinos em edição bilíngue inédita no Brasil.
Apoiando-se no lirismo e em irônicas provocações, Horácio revela sua potência em versos que formaram a literatura ocidental e atravessaram os séculos. Com tradução e comentários de Frederico Lourenço. Um dos maiores poetas da literatura latina, Horácio (65-8 a.C.) é um autor de múltiplas vozes: das contribuições ao debate sobre poesia e teatro em Arte poética e diferentes coletâneas de profundidade filosófica excepcional à ironia e ambivalência de suas sátiras. Seja na sexualidade franca — censurada ao longo dos séculos em outras edições — ou no lirismo requintado, esse poeta lúcido e complexo fascina e seduz em todos os registros. Publicada pela primeira vez no Brasil em um único volume bilíngue, esta edição de Poesia completa inclui os textos originais em latim, traduzidos por Frederico Lourenço, que por meio de notas e comentários investiga nuances, intertextos e sutilezas da poética horaciana e estabelece aproximações com grandes autores da língua portuguesa, como Camões e Fernando Pessoa. Publicação da Companhia das Letras. Você pode comprar o livro aqui.
Entre São Paulo e Londres, o preço de um caso amoroso.
Uma jornalista brasileira abandona São Paulo e se muda para Londres, onde passa a trabalhar como cuidadora em um asilo de luxo, a Rosehill House. Ali, a narradora confronta-se com a decadência física, a solidão e os conflitos familiares, ainda bastante vívidos. Entre os residentes, contudo, destaca-se Felicity, uma senhora de 97 anos que compartilha memórias de um amor extraconjugal vivido nos ainda bastante conservadores anos 1950. O caso amoroso torna-se para ela uma forma de rebelião contra o destino doméstico e as convenções sociais da Inglaterra do pós-guerra. O preço, contudo, pode ter sido alto demais. No asilo, a narradora também observa a hipocrisia (esta, sem idade para se manifestar), a disputa por heranças e o abandono afetivo dos idosos. E é essa convivência com os extremos ― físicos, emocionais e familiares ― da velhice que desperta na narradora reflexões obsessivas sobre o corpo, a memória, o tempo e os ciclos da natureza. Isso ganha contornos ainda mais pessoais quando recebe a notícia dos últimos momentos do seu pai, no Brasil. Passando um tempo de volta ao país para lidar com o luto e desembaraçar a burocracia em torno do finado pai, ela passa a perceber o influxo de uma vida próxima da natureza, onde sente que enfim é possível observar melhor a passagem do tempo. Árvore velha sai pela editora Todavia. Você pode comprar o livro aqui.
B. Kucinski enredado com o período da história do Brasil.
Uma das perguntas, no início de O ateliê, faz pensar: seria esta uma narrativa factual? Mas é o próprio autor, B. Kucinski, quem responde: “Não, não é bem assim.” Kucinski faz uma condensação literária de um período da história brasileira com enorme densidade de fatos reais. Um certo clima de mistério envolve situações e personagens, descritas por um narrador jovem, estudante de Letras, ansioso por aprender um pouco da história recente do país, para o livro que quer escrever, ouvindo e anotando o que atores bem mais velhos, reunidos semanalmente, contam de si e de outros, misturando passado e presente. Há muitos personagens reais, mas outros são inventados, para que coubessem na trama com verossimilhança. No grupo que se encontra no ateliê há majoritariamente jornalistas, que trabalharam, antes da ditadura militar, em diversos setores da imprensa, sendo que o jovem narrador os descreve realisticamente, a fim de que, apesar dos pseudônimos, talvez possam ser reconhecidos por leitores que viveram histórias semelhantes. Nos diálogos às vezes acalorados, com anuências e destemperos, elucidam-se temas e situações daquela época, cheia de marchas e contramarchas, de atos de coragem e traições abjetas na vida política do país. Jorge Arízio, o dono do ateliê, no primeiro parágrafo, clama pelo “ex-presidente de origem operária”, em vias de ser preso. Os leitores, tanto velhos quanto jovens, como o narrador, hão de reconhecer imediatamente de que tempo se trata: o presente da narração, que escorre nas inquietações dos personagens sobre a política brasileira do momento. O impeachement da presidenta Dilma, seu vice Temer, a Lava-Jato e, em seguida, o presidente Bolsonaro. Um livro atualíssimo sobre a funesta ditadura militar e suas graves consequências até hoje, revisitadas pela literatura. Você pode comprar o livro aqui.
Livro de autora fundamental para o pensamento insurgente e surrealista.
Escritora, pintora, desenhista e ensaísta. Penelope Rosemont transita pelo movimento surrealista internacional desde a década de 1960, quando vai a Paris e encontra-se com Breton e outros membros do movimento. Fundadora, com seu companheiro Franklin Rosemont, do grupo surrealista de Chicago, editou o fundamental Surrealist Women: An International Anthology (Austin: University of Texas Press, 1998), livro em que destacou mais de uma centena de mulheres que participaram ativamente do surrealismo. Em Por dentro dos campos magnéticos: surrealismo, situacionismo, contracultura Rosemont convida o leitor a atravessar as fronteiras da imaginação e da liberdade criativa em Por dentro dos campos magnéticos — surrealismo, situacionismo, contracultura. A obra reúne reflexões, ensaios e perspectivas que iluminam o surrealismo como uma atitude radical diante da vida. Com olhar atento à história do movimento surrealista e às suas reverberações no presente, a autora examina temas como imaginação, revolta, desejo, linguagem e transformação social, explorando os “campos magnéticos” que conectam arte, poesia, insurgência política e sonho. A poeta e artista visual, por meio de ensaios e memórias, reflete sobre sua relação com os surrealistas André Breton, Robert Benayoun, Toyen, Leonora Carrington, Mimi Parent, Man Ray, Ted Joans, os situacionistas, principalmente na figura de Guy Debord, e figuras da contracultura e do pensamento insurgente. Com tradução de Elvio Fernandes, o livro é publicado pela editora 100 Cabeças. Você pode comprar o livro aqui.
REEDIÇÕES
Robert Louis Stevenson entre a aventura, suspense e fatos históricos.
Após deixar a casa onde cresceu para encontrar o único parente vivo, David Balfour descobre uma conspiração para roubar sua herança. Sequestrado e lançado ao mar, inicia uma perigosa jornada pelas Terras Altas da Escócia ao lado do destemido rebelde Alan Breck Stewart. Publicado em 1886, O sequestrado, de Robert Louis Stevenson, combina aventura, suspense e fatos históricos em um clássico romance de formação sobre coragem, amizade e amadurecimento. Publicação da Nova Alexandria. Você pode comprar o livro aqui.
Obra emblemática publicada originalmente em 1990 e último romance de Caio Fernando Abreu em reedição.
Onde andará Dulce Veiga? se passa em uma São Paulo notívaga e decadente, assombrada pelos fantasmas da ditadura e pelas utopias que não se realizaram. Nesse cenário que mistura cinema, música e a ambição de se tornar alguém célebre, o protagonista — um jornalista desalentado — parte em busca de uma cantora que fez sucesso nos anos 1960, mas cujo paradeiro é desconhecido. O livro, que foi adaptado para o cinema, combina investigação policial e mergulho psicológico, ao explorar a solidão, o desejo e os sonhos abandonados pelo caminho. Para o escritor Paulo Scott, autor do posfácio desta edição, o romance trata não apenas da busca existencial do protagonista, mas também dos vínculos entre as pessoas deslocadas de suas casas, em locais que permitem “novas chances de (desconstrução e) reconstrução de si mesmas”. Reedição da Companhia das Letras. Você pode comprar o livro aqui.
RAPIDINHAS
Beatriz Sarlo e a formação da cultura argentina 1. A editora Coragem publica A máquina cultural, livro da intelectual argentina que reúne três histórias que discutem a identidade nacional e as tensões entre arte, política e instituições culturais.
Beatriz Sarlo e a formação da cultura argentina 2. O livro foi traduzido por Karina Castilhos Lucena e inclui posfácio de Júlio Pimentel Pinto. É um trabalho que, segundo Rosa Freire d'Aguiar, “com rigor e perspicácia, a irrequieta Beatriz Sarlo desmonta, esmiuçando as engrenagens da cultura contemporânea, das histórias pessoais, dos sonhos e das rupturas.”
Anne Carson e Antígona. A Bazar do Tempo publica com tradução de Julia Raiz Antigonick em que a escritora canadense traduz Antígona de Sofócles sob a aparição original da personagem Nick.
É o fim 1. O braço português da Assírio & Alvim, parte do Grupo Porto Editora, chegou ao Brasil em março de 2022 prometendo ser uma casa da poesia também por aqui. O percurso foi interrompido pouco depois de quatro anos e com incursões também pela prosa e apostando em nomes pouco conhecidos no meio literário.
É o fim 2. Outra editora — e essa com os pés firmes na publicação de poesia mas também de projetos artesanais — que deixou de existir foi a Garupa Edições. A casa tinha no catálogo livros de nomes como Manoel Ricardo de Lima e Ricardo Domeneck.
De volta. É o título do livro que reúne a poesia mais recente do poeta e ensaísta Horácio Costa; a edição é da editora Cavalo Azul.
De volta. Não é o título de um livro, mas o regresso de uma adaptação da obra de Marcelo Rubens Paiva. Na vez, Feliz ano velho, que acompanha a vida do autor após o acidente que o deixou tetraplégico. O livro será adaptado para uma série da Netflix.
DICAS DE LEITURA
1. Mar, de Ana Miranda (Editora Armazém da Cultura, 96p.) Um romance com a voz de uma africana, Adana, filha de um soba angolano, presa aos treze anos e trazida para o Brasil como escrava. Você pode comprar o livro aqui.
2. Zama, de Antonio Di Benedetto (Trad. Byron Vélez Escallón, Editora UFSC, 248p.) A existência solitária e suspensa de Dom Diego de Zama, um funcionário da coroa espanhola em Assunção, que, vítima de uma espera interminável, aguarda sua transferência para Buenos Aires no final do século XVIII, escrita em uma linguagem atemporal e arcaica, por vezes, reminiscente do Século de Ouro. Você pode comprar o livro aqui.
3. Almas mortas, de Nikolai Gógol (Trad. Rubens Figueiredo, Editora 34, 432p.) Um especulador de São Petersburgo viaja ao interior da Rússia para adquirir dos nobres documentos de posse de servos que já morreram, papéis sem valor na província mas que poderiam render e muito na capital. Você pode comprar o livro aqui.
VÍDEOS, VERSOS E OUTRAS PROSAS
Mario Quintana nasceu no dia 30 de julho de 1906, em Alegrete, no Rio Grande do Sul. Leitor contumaz como deve ser todo escritor, o poeta manteve um diário diferenciado: nele anotava especificamente coisas do dia-a-dia, mas versos. Fez isso entre as décadas de 1980 e 1990. Essa história e mais detalhes do material foi contada por Elvia Bezerra na seção “Por dentro do acervo” do portal do Instituto Moreira Salles.
BAÚ DE LETRAS
E, por falar em datas de nascimento, quem celebrou 90 anos no último dia 31 de julho foi o escritor Ignácio de Loyola Brandão. Aproveitamos para recordar a resenha do seu romance Desta terra nada vai sobrar, a não ser o vento que sopra sobre ela.
DUAS PALAVRINHAS
A insanidade humana costuma ser uma coisa astuta e felina. Quando se pensa que fugiu, talvez tenha apenas se transfigurado de uma forma silenciosa e mais sutil.
— Herman Melville, em Moby Dick
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