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Fragmentos completos, de Safo

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Por Pedro Fernandes O título estabelecido para o que se conhece da poesia sáfica aparece preso no centro de uma contradição. Se o fragmento é indiscutivelmente a incompletude, logo a designação de sua completude é uma aporia. Quando muito, a ilusão do alcance de uma totalidade. Agora, nem toda contradição ― é bom que se diga em tempos de falsas certezas e questionáveis absolutismos ― é negativa. E o caso em questão é um exemplo disso.   Restou pouquíssimo da lírica grega. Sabemos do valor imprescindível alcançado pela epopeia e pela tragédia ― e mesmo pela comédia ― das quais chegaram até nós dois vários textos que implicaram a formação de toda a literatura ocidental. Mas da lírica, originalmente feita para o canto acompanhado da lira ou algum instrumento similar, quase nada restou. Entre Alceu de Mitilene, Anacreonte, Álcman, Baquílides, Estesícoro, Íbico e Simônides, dois nomes se fizeram mais conhecidos e não pela vultuosidade dos materiais encontrados: Píndaro e Safo. Do prime...

Nathalie Sarraute: morte e ressurreição do romance

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Por E. J. Rodríguez   O gênio da suspeita apareceu em cena. (Stendhal)   A consciência é uma rede superficial de opiniões convencionais tomadas tal como são do grupo ao qual pertence. (Nathalie Sarraute) Nathalie Sarraute. Foto: Andersen / SIPA   A literatura de Nathalie Sarraute foi avaliada em sua época e ainda é avaliada hoje como “difícil”, “inovadora”, “experimental”, “contrária à convenção”, “destituída de enredo”. Ela, no entanto, via tudo de forma diferente. Quando era questionada sobre seu surpreendente apreço pela simplicidade da oralidade ― uma apreciação que ela desenvolveu em sua juventude enquanto praticava o direito e escrevia palestras em um registro mais acessível do que seus escritos posteriores ― levantava uma amistosa resposta: “Essa facilidade exige uma excepcional quantidade de trabalho, muito tarefa!” Como costuma acontecer com quem escreve, compõe música ou pinta, o que os outros percebem como fácil costuma ser, na realidade, o mais difícil para os...

O fim da verdade em Dostoiévski-trip, de Vladímir Sorókin

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Por Joaquim Serra Vladímir Sorókin. Foto: Anton Zemlyanoy Em Dostoiévski-trip , Vladímir Sorókin não pessoaliza nada. Nomeia personagens por gênero, classificando-os como se fossem números de série. A abertura da peça é realista, dialoga com temas atuais, mas, a todo o tempo, há em suas falas uma abertura para um subtexto, “Os tempos estão mudando para pior” (p. 7), diz um dos personagens. O Homem 2 é responsável por essa abertura; ele sentencia: “acreditar de olhos fechados. Em nosso tempo. Difícil e contraditório” (p. 9). Então a droga entra, e a “viagem” do título tem vida dupla para aqueles que usam. É então que as verdades sagradas de Mýchkin, personagem de Dostoiévski inspirado na vida de Cristo e na inocência de um Dom Quixote, são realçadas de um outro ponto de vista. Há uma ironia a cada vez que um personagem evoca um escritor. A droga, que tem nome de escritores – assim como os apelidos que muitas drogas têm –, ganha dupla potência: quando falam dos escritores, os person...

A amizade interrompida de Simone de Beauvoir

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Por Lourdes Ventura Simone de Beauvoir. Foto: Robert Doisneau A escritora e intelectual Simone de Beauvoir (Paris, 1908 ― 1986) se tornou uma figura paradigmática a partir de  O segundo sexo  (1949), livro se tornou um marco universal no feminismo. Ganhou o Prêmio Goncourt com o romance Os mandarins em 1954, sendo a terceira mulher a obtê-lo, depois de Elsa Triolet e Béatrix Beck. Filósofa, romancista, memorialista, ativista, ela participou dos debates e lutas mais importantes do século XX, ao lado de Jean-Paul Sartre.  Dela, a editora Record publicou  As inseperáveis , romance póstumo que narra a amizade, desde a infância, entre duas jovens que desejam viver a própria vida fora das convenções de seu tempo e de seu entorno burguês.   Os desafios das personagens Sylvie e Andrée Gallard, a sua educação sentimental, os seus desejos intelectuais, as suas crises espirituais coincidirão ponto a ponto com a história da profunda cumplicidade en...

Boletim Letras 360º #420

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    DO EDITOR   1. Saudações! Durante a semana chegaram ao blog três novos colunistas dos selecionados na chamada pública realizada no mês de janeiro. Os textos de André Cupone Gatti, Fábio Roberto Ferreira Barreto e Marcelo Moraes Caetano aguardam a leitura se ainda o caro leitor não o fez.   2. Ano a ano, são disponibilizados, na página do Letras no Facebook, alguns livros para venda. O interesse do bazar é levantar os valores com os custos de pagamento do domínio do blog.  3. A lista de 2021 já começou a ser atualizada. Veja aqui e, se possível ajude ao blog ― lembre que a divulgação sua tem um efeito importante. Caso não disponha de acesso ao Facebook, basta escrever ao nosso e-mail blogletras@yahoo.com.br .   4. Obrigado pela atenção. Abaixo, as notícias da apresentadas na página do Letras no Facebook durante a primeira semana de março que agora termina. Boas leituras! João Cabral de Melo Neto. Um dos registros da fotobiografia que reúne mais de cinco...

Normopatia ou normose: quando ser normal é o problema. Traços da farsa social acusada na literatura

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Por Marcelo Moraes Caetano Ilustração: Andrea Ucini   A normose é a estagnação em práticas e pensamentos que muitas vezes são incentivados e aplaudidos pela maioria da sociedade: aquilo que é “normal”, em muitíssimos casos. “Normal” a partir de que perspectivas? Da perspectiva do caos. “Normal” do ponto de vista dos comportamentos e dos pensamentos que guiam pessoas e sociedades, ainda que ao caos. “Normal” do ponto de vista de algo que pode até ser sido bom e eficaz num momento do passado das sociedades, mas que hoje já não faz sentido – o que ocasiona o caos. “Normal” do ponto de vista de apenas uma parcela (às vezes ínfima) da sociedade, sem estender seus benefícios a camadas mais vastas e diversas dessa mesma sociedade, criando o caldeamento necessário – para o caos. Esses “normais” estagnantes e caóticos, que impedem a instauração e a manutenção da paz, são exatamente a NORMOSE. O sufixo -OSE significa basicamente desgaste, tanto nos conceitos biológicos e fisiológicos, como...