Rosebush Pruning, de Karim Aïnouz
Por Pedro Fernandes
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A obra cinematográfica de Karim Aïnouz é vasta e multifacetada. Inclui títulos como Abril despedaçado (2001), Madame Satã (2002), Cidade baixa (2005), Cinema, aspirinas e urubus (2005), O céu de Suely (2006) e Praia do futuro (2014), para referir os filmes mais conhecidos. É óbvio que existe um estilo próprio, como o interesse por personagens descentradas ou dilemas que as mobilizam individual ou mesmo coletivamente. Em alguns dos casos recorrentes é o horizonte de uma existência plena o que elas procuram entre os seus próprios escombros.
Encontramos certa parte desse interesse em Rosebush Pruning (2026), que se beneficia do uso livre das várias expressões possíveis no cinema para construir um ensaio descarnado do hedonismo em tempos de alto capital. Diríamos que é a aposta mais ousada de um cineasta mobilizado por alguns interesses caros a cineastas como o Ruben Östlund de Força maior (2014), ou o de Triângulo da tristeza (2022) ou o Yorgos Lanthimos de O sacrifício do cervo sagrado (2017), ou ainda algo da Emerald Fennell de Saltburn (2023). Aïnouz, no entanto, está um passo adiante.
Não é do seu interesse fixar embate de classes, uma vez que o mundo articulado neste filme se encontra, como é certamente, fora das fronteiras do que conhecemos. As únicas frestas nesse sentido são o enlace amoroso de um dos quatro irmãos com uma mulher propriamente fora do nível social da família e o aparecimento de uma mãe dada como morta mas que se mantém à custa de certa extorsão desse próprio filho diferente.
Mas, por que Jack (Jamie Bell) é assim definido pelo irmão Ed? É Ed quem narra a história de sua família e aqui reside a primeira complexidade do enredo, visto sabermos do destino da personagem vivida por Callum Turner. Mas, não estamos diante de um narrador à maneira de Brás Cubas, porque Ed, além de ser um interessado pelo registro dos meandros do seu meio disfuncional, é uma espécie de cérebro desestruturante. Aïnouz parece brincar um pouco com esse duplo proveito a fim de deixar essa personagem no espaço dos interditos. O cineasta, aliás, entrega todo o trabalho de explicar esses intervalos e as articulações da narrativa ao espectador, sugerindo-nos que somos um pouco do narrador.
E uma parte disso se explica pela nossa tendência simplista de reduzir o mundo entre dualidades e eleger uma delas como o nosso modelo mais coerente, por vezes, ignorando os interesses particulares (em casos até desconhecidos para nós) como definidores dessa escolha. Um exemplo é quando alguém divide politicamente o mundo entre direita e esquerda; aqueles que constituem a casta de privilégios, independente dos horrores defendidos pela direita, continuarão coerentemente mobilizados para esse espectro porque está em jogo seus próprios proveitos e os que são tratados sempre como agregados e mesmo assim agem de igual maneira ignoram que a sua condição entre os desse segmento encontra-se motivada por algum impasse que apenas pode resolver individualmente. Mas, mesmo a direita sendo o espectro do pior não significa que os situados no plano da esquerda são o bem nesse jogo de dualidades, afinal todos se encontram na intersecção dos interesses particulares. Nos nossos dias, diríamos que a submissão aos chamados valores morais.
Quando Jack se revela o dissidente do fechado núcleo familiar, Ed integra o irmão ao rol dos plenamente bons capazes não apenas de romper com os limites impostos de casta mas de servir aos seus próprios interesses construídos à base de uma expressão rasa do mundo. Para Ed, as famílias como a sua, carecem de alguém capaz de, como um jardineiro radical, podar as rosas antes do seu tempo, independente da sua beleza. Ao descobrir quais os interditos dos irmãos, ele coloca em ação o trabalho que permita a concretização dos planos de Jack.
Nesse caso a definição de diferente empregada por Ed é, por conseguinte, uma autodefinição. Como o homem liberto das sombras da caverna e sabedor de que qualquer intervenção sua por meio da palavra, mesmo ele confiando tanto na oralidade e em nada na escrita, não levaria a luz aos demais. Assim, sua solução é a do jardineiro radical. A tese tornada prática — assinalando a passagem do filme do drama e do humor para um suspense labiríntico construído pela manipulação — é possível porque também Ed experimentou a possibilidade de escapar do jugo familiar. O filme inicia com esse viajante profundamente envolvido com um médico de meia-idade que parece despertá-lo para uma vida fora dos muros em que foi criado. E o que mais faz essa personagem é, aliás, saltar muros.
Até deixar o Éden. A solução radical de Ed para o mundo repleto de criaturas enredadas nos seus fetichismos — em amplo sentido — não funciona. Karim Aïnouz, ao contrário do seu protagonista, não mede esforços para mostrar ao resto do mundo enredado nas sombras da caverna criada pelos super-ricos todas as expressões vazias do hedonismo na Era do Alto Capital, como essa gente acumula e isolada do mundo comum não guardam qualquer consciência das opressões praticadas, no entanto, é ciente de que mesmo uma revolta pelo lado de dentro não é suficiente para uma transformação das coisas. Por mais destrutiva que seja a atitude do jardineiro, um passo adiante e as roseiras outra vez crescem viçosas, como sugere a imagem de Jack e Martha (Elle Fanning) finalmente juntos depois da grande ceifa por que passa a família. É possível interpretar a saída de um mundo tóxico pelo amor verdadeiro, uma redenção, mas será mesmo? O entorno luxuoso e o que testemunhamos abrem a janela para outra saída a mesma que acabamos de ver.
Mas o assunto não é apenas a decadência de uma família hedonista. Rosebush Pruning avança sobre diversos pilares sustentadores do mundo geral tal como conhecemos. E vale referir o patriarcado. Enquanto todas as personagens são nomeadas, o pai (Tracy Letts) e mãe (Pamela Anderson) aparecem designadas pelo substantivo comum. O sentido disso é, pelo menos, duplo: a universalidade dos tipos e certa irrelevância para um mundo cuja única lei é o dinheiro. Ed, Anna, Robert e Jack funcionam à imagem e semelhança dos pais e se esses não ofereceram as bases humanas essenciais não podem significar qualquer valor para eles.
As feições do patriarcalismo não se resumem à centralidade do pai, o primeiro a entrar no rol da ceifa de Ed; este pai, mesmo cego e dependente dos filhos — mais um elemento importante na ruína do pilar desse modelo social —, se impõe para todos, exerce inclusive o direito ao abuso em escala variada. Anna (Riley Keough), a única mulher da casa, é uma faz-tudo, serve a todos como se fosse a mãe, esta sim, a primeira dissidente nesse Éden e a mentora dessa consciência em Jack, tratado por ela como o filho favorito. É com Anna e Jack que descobrimos melhor as raízes do poder exercido pelo pai; ainda que todos tenham uma dívida para com ele — Robert (Lukas Gage), quem nutre o desejo proibido por Jack, por exemplo, é dele a tarefa de levar o pai para cavalgar — a parte mais cara envolve essas duas personagens.
Ao passo que reprimidas e oprimidas, as mulheres de Rosebush Pruning apontam duplamente nesse universo aparentemente sem saídas. A mãe e a atual namorada — e mesmo Anna — não apenas usufruem, como parasitas, dos seus privilégios e exercem, sim, em pequena ou grande extensão suas dissidências. Mas, a suspeita Martha, se a considerarmos uma baliza ou uma não-afetada pela ambição do modelo de riqueza da família de Jack, pode ser lida como aquela capaz de erigir uma alternativa fora dos limites castradores. Ela pode ser a força colaboradora do desabamento do modelo familiar opressor, como observa o próprio na Ed na sua breve tese do bom destino para uma família/ roseiral radicalmente bem podada.
É um filme ousado. Situado numa encruzilhada: a de cineasta que se renova como herdeiro de uma linhagem do cinema que remonta a De punhos bem cerrados, de Marco Bellocchio, ou mesmo ao Teorema (1968), de Pier Paolo Pasolini — se notarmos o tópico do hospedeiro, que uma vez instalado no interior do espaço para o qual é levado introduz o desfazimento da ordem vigente — e articulado com uma vertente das mais inventivas do cinema neste tempo, sem se descuidar dos seus próprios interesses marcados numa carreira que inclui mais de uma dezena de longas.
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