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Antonin Artaud e o “Bluff surrealista”

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Por Ricardo Echávarri Antonin Artaud. Foto: Man Ray. Quando for reescrita a história do Surrealismo — a vanguarda mais ousada e transcendente do século XX —, na sua parábola, deverão ser apontados os seus Hileg ou pontos axiais, de que falava Paracelso: aquelas adesões entusiásticas ou despedidas abruptas ao único ismo (herdeiro do “sol negro” do Romantismo) que se postulou como algo além do mero campo artístico, e levantou a bandeira da poesia, do amor e da liberdade, quase como uma nova concepção de vida.   Antonin Artaud ingressou no Círculo Surrealista em 1924, tendo acabado de publicar seu livro de poemas Tric Trac du Ciel . Dirigiu a Oficina de Pesquisa Surrealista e criou o Teatro Alfred Jarry, em homenagem ao inventor da Patafísica (ou “ciência das soluções imaginárias”) e grande inovador cênico. A passagem de Artaud pelo Círculo, apesar de brilhante, foi suficiente para delinear uma era civilizacional baseada no surrealismo: uma nova ordem passional que recuperaria para o...

Boletim Letras 360º #613

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Thomas Bernhard. Foto: Otto Breicha LANÇAMENTOS   Coletânea apresenta novas expressões da escrita de Thomas Bernhard .   “Tudo nele era revolta”: dessa maneira o poeta francês Rimbaud é definido por Thomas Bernhard no texto que abre a coletânea Na pista da verdade , escrito em 1954, quando o escritor tinha apenas 23 anos. Tais palavras tão categóricas podem muito bem se aplicar à carreira que o autor austríaco desenvolveu nas décadas seguintes. Afeito a polêmicas e controvérsias, ele escreveu uma sequência de peças de teatro que atacavam as cidades austríacas onde eram encenadas, assim como seus habitantes, muitas vezes sem poupar os próprios festivais de dramaturgia que as contratavam. Neste livro organizado por Wolfram Bayer, Raimund Fellinger e Martin Huber, podemos nos divertir com a chegada inesperada do autor à redação do jornal de Augsburgo, onde protestavam contra sua peça, quase como um happening . Mais importante que isso, podemos matizar o estilo de Bernhard atrav...

Ode ao passeio e ao caminhante: Baudelaire, Debord e a cidade

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Por Pilar R. Laguna Gustave Caillebotte. Rua parisiense, dia chuvoso   Existem dois tipos de pessoas, as que passeiam e as que não passeiam. A menos que uma causa importante os impeça, reconheço a minha profunda incompreensão em relação a estes últimos. Vaguear é uma atividade essencialmente humana, ou assim gosto de pensar, e quando não a praticamos é como se estivéssemos negando uma parte substancial da nossa essência. Não estou falando do deslocamento prático, estou falando da deambulação descontraída, aleatória e reflexiva que é quase uma prática mística e transformadora. Uma ferramenta para despertar a atenção, a criatividade e até rebeldia.   O passeio — em oposição ao ato de simplesmente caminhar — tem como premissa uma sede sem a qual é impossível ocorrer em todo o seu esplendor. Deve haver uma intenção transformadora no caminhante: o desejo de voltar um outro. Não tem nenhuma relação com rotinas ou deveres e é principalmente um exercício psicológico e de atenção — esp...

Terra do pecado/ A viúva, de José Saramago

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Por Pedro Fernandes Terra do pecado saiu a público em 1947 e foi o primeiro livro de José Saramago. Que alguns, incluindo o próprio escritor, tenham lido essa estreia como gorada não é novidade, principalmente, quando conhecemos o romancista a partir de Levantado do chão . Mas, isso não é verdade. Mesmo colocando o romance que permanecerá ignorado pelo autor até cinquenta anos adiante ao lado de suas principais obras do gênero não deixamos de encontrar nele um exercício bem-acabado de alguém que antes de reinventar a forma romanesca precisou conhecer minimamente os desenvolvimentos dos modelos tradicionais. É possível que não apenas a insistência do seu editor, mas certa consciência de que esses primeiros exercícios no romance possuem alguma qualidade que não a de servir como mero produto de curiosidade dos leitores, tenha feito com que este e o livro posterior — Claraboia , finalizado em janeiro de 1953 — tenham regressado dos longos desaparecimentos experimentados na sua trajetória ...

Megalópolis: um futuro já ultrapassado

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Por Alonso Díaz de la Vega   As reações desencadeadas por Megalópolis (2024), de Francis Ford Coppola, têm sido tão desiguais que antes de se ver o filme alguém espera uma coisa inédita e até disforme: há mesmo quem zombe comparando-o ao videoclipe de “In the End”, em que os integrantes do Linkin Park cantam sua música diante de um pôr do sol apocalíptico, alheios à hera que brota do solo erodido e se desintegra diante de suas rimas. Do outro lado do espectro, há quem o compare com o trabalho de revolucionários clássicos como Michael Powell, Orson Welles e até mesmo Sergei Eisenstein. Há algo de verdadeiro nos dois extremos, mas Megalópolis não me parece tão kitsch — especialmente considerando que Coppola já usou esse tom antes — nem tão subversivo: ele também fez coisas mais originais.   Há alguns anos, o diretor estadunidense planeja um filme transmitido ao vivo sob o título Distant Vision , que contaria a história da relação de uma família com a televisão ao longo de vá...

O centauro no jardim, de Moacyr Scliar

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Por Sérgio Linard Moacyr Scliar. Foto: Roberto Scliar   A vida sem a ficção seria insuportável; isso caso cogitar uma vida sem resquícios mínimos de elocubração fosse uma atividade possível ao homem. Em sonhos, em devaneios ou em ideações, temos, todos nós, à nossa medida, alguma forma de ficcionalizar a realidade. Uma maneira de viver. Com base nessa necessidade humana, Moacyr Scliar, em O centauro no Jardim , apresenta um romance que é a exata definição sobre como seria intragável a passagem humana na existência sem que essa fabulação em potencial, além do círculo comum repetitivo das coisas e dos meios, fosse não só uma possibilidade, mas uma maneira intrínseca de se ser no mundo . Para atingir esse objetivo, o autor coloca-se como crítico da própria história que escreveu, mostrando que o que a faz ser especial é somente a presença daquilo que pode ser dito como “inútil” ou “dispensável”, dada a não objetividade material esperada para os elementos e os acontecimentos da vida mod...