Caetano Veloso hoje: nos palcos, nos bastidores (parte 1)

Por Lucas Paolillo

Muitos artistas, músicos, cineastas e pensadores compreenderam que estavam em uma situação na qual ideólogos reacionários infamavam — por meio de livros, sites e artigos de jornal — qualquer tentativa de superar a desigualdade, associando políticas socialmente progressistas a um tipo de pesadelo venezuelano, gerando o medo de que os direitos das minorias corroessem princípios religiosos e morais ou simplesmente doutrinando as pessoas na brutalidade através do uso sistemático de linguagens depreciativas. A ascensão do Sr. Bolsonaro como uma figura mítica corresponde às expectativas criadas por esse tipo de ataque intelectual. Não se trata de uma troca de argumentos: aqueles que não acreditam na democracia agem de maneiras insidiosas

— Caetano Veloso. em “Dark times are coming for my country” (2018), tradução livre.


En la lucha de clases
todas las armas son buenas 
piedras 
noches
poemas

— Paulo Leminski, Polonaises (1980).


Considerando os ecos do meu próprio coco, que não é o mundo, suponho razoável assumir que os leitores desta coluna conhecem, de algum modo, Caetano Veloso. A questão que se coloca, no entanto, é outra: como? Considerando o nosso tempo, a que nos referimos familiarizados ao seu nome? À escuta de fonogramas, ao consumo de shows, à leitura de livros e textos, à silhueta nas telas, à presença de um opinador, ao objeto dos comentadores? Quais mediações nos levam aos mosaicos que, sob a risada de Andy Warhol, montamos com a sua imagem? Caetano, como agente cultural ativo, se pôs para jogo com o seu bazar de formas há mais de meio século e ainda hoje se coloca como correspondente ao nosso íntimo de maneiras diversas. Assim, não é novidade que Caetano é, brasileiramente, muitos. Contudo, ele nunca foi tantos como agora — e ele sabe muito bem disso: “Agora a minha história é um denso algoritmo/ Que vende venda a vendedores reais,/ Neurônios meus ganharam novo outro ritmo/ E mais e mais e mais e mais e mais”. 

Nos dias que correm, os versos constatam, praticamente toda a produção cultural de Caetano foi temporalizada de uma só vez ao presente. Reproduções espectrais da sua carreira inteira se encontram disponíveis como parte da economia de atenção no capitalismo de vigilância que rifa nossos dados e subjetividades a troco de vouchers comissionados de biopoder. Enquanto isso, o Caetano de carne e osso, com seus mais de oitenta anos, toca em frente seus compromissos. Mas, nesse contexto, o que chama mesmo a atenção é o papel ativo que ele tem desempenhado, ao lado de Paula Lavigne, como organizador da cultura, aproximando setores transversais do mundo das artes e do entretenimento para agirem em conjunto, através de blocos. Caetano tem se inclinado como nunca a organizar o movimento. Ou, ao menos, uma parte dele. 

Nesses mais de cinquenta anos, foi ocupando espaços na indústria fonográfica, a qual esteve no centro das transformações das últimas décadas, que Caetano se notabilizou como músico: nela, se fez cantor, intérprete e compositor; letrista, melodista, harmonista e sugestor de ritmos; gravou em estúdios, apresentou-se em palcos e produziu álbuns de terceiros aqui e ali. Com ela, pensou e tomou decisões a respeito das canções e suas linhas evolutivas. Para além disso mas também por isso, se afirmou como escritor: consagrado como letrista, foi autor de livros, colunista, blogueiro e, devido à visão de mundo desenvolvida nesses marcos, muitos o consideram um intérprete do Brasil. Com um pé cá e outro lá, fez o que pôde para não arredar do cinema: sonhou filmes, chegou a ser diretor de um, foi assunto de documentários, ator, apresentador, escreveu sobre o que assistiu. 

Sartre, uma das suas referências, costumava dizer que ser intelectual é meter o bedelho onde não é chamado. Caetano, ao seu modo, caminhou na fenda entre a música popular e a opinião pública: discerniu, promoveu e organizou, como artista, cultura, política, posições. Tudo somado, ele se consolidou aos poucos como uma das principais personalidades da música popular brasileira, adquirindo trânsito no mundo. Ocorre que as transformações neste mesmo mundo, tateáveis no interior do mundo da cultura, nas canções, no métier da indústria fonográfica e na vida política incidiram em Caetano, colocando-o no caminho da eclosão dos tempos sombrios. O que manteve as suas peças no tabuleiro mas mudou as regras das suas escalas. 

Diante de tais desafios, nem todas as ações presentes de Caetano foram imediatamente assimiladas. Em partes porque o espetáculo em operação compõe o seu jogo. Porém, nesse inventário de práticas, há aquelas que se dão na exposição pública, mas há outras que agem junto aos bastidores. É importante não perder isso de vista. Porém, guardemos essa pulga atrás da orelha. Pois, nessa situação, perde mesmo quem deixa de compreender Caetano junto às camadas próprias à sua matéria principal: a canção no Brasil. Forma paradoxal e multiangular, ela convoca um sistema com historicidade própria e que funciona agregando mananciais de linguagens variadas. 

Para além da ourivesaria própria às letras — a mais acessível das fontes —, temos a estruturação das formas musicais. Um passo além e temos as assinaturas de estilo das interpretações dos envolvidos com gravação e execução. Mais à frente, temos a lógica própria à miríade de cacarecos que abrange, como mediações, instrumentos, equipamentos, objetos de mercado etc. — e nem falamos em staff de produção, assessoria e serviços prestados, cujas tarefas e agendas são coordenadas pela empresa Uns Produções. Quando tomada na lida de Caetano com os tempos sombrios, a canção, um morto-vivo repleto de sentimento e imanência, se desloca a um território cuja gravidade mudou, onde suas linguagens consteladas sofrem com o ritmo, o volume e as artimanhas da aceleração do tempo e da imediatez que servem à produção virtual de valor das big techs

Por tudo isso, não parece mal notar que pensar o universo de Caetano supõe alguma prudência mediante decolagens interpretativas. Propor, como vacina, alguma paciência na caracterização dessa multiplicidade de referentes, é evidente, não supõe resultados mais ou menos simpáticos, mas acentua, no emaranhado de variáveis, modos e formas menos colados aos atalhos de juízo e mais próximos aos contornos de caracterização apropriados a um artista que intervém, frequenta e se move por muitas sendas ao mesmo tempo. Dimensões que pedem por calibramento sobretudo aos versados em constatar a agitação turbilhonar do personagem, volúvel e versátil. Propriedades que, no geral, não são de todo incomuns às relações excêntricas dos artistas com a política, ainda mais quando encharcados de poesia. “Brizola dizia que artista não dá voto, mas tira”, disse Caetano certa vez, circunscrevendo parte do sentido dessa relação idiossincrática. Sobre isso, um amigo costumava dizer que “os artistas têm o direito de serem incoerentes”¹. Direito ao qual, é notório, Caetano não apenas abraçou, mas fez dele parte constituinte de suas forças e fraquezas. 

No momento, não me interessa discutir tais entranhas. Esmiuçá-las me enredaria a interpretações de um território sólido, o qual, para além dos mal-entendidos de parte a parte, acentua o histórico ao pouco identificado. Resvalando tais entranhas, muito de interessante já foi dito sobre a coerência e as incoerências de Caetano e da fortuna crítica que o acompanhou por mais ou menos trinta anos, cujo pontapé partiu de Roberto Schwarz — leitura complexa a quem, no caso, tendo a concordar no atacado mas a discordar no varejo. Inclusive, João Camillo Penna inventariou, ao seu modo, os cartuchos do chumbo trocado e fez deles um livro: O tropo tropicalista (2017), o qual, honrando o imbróglio, ajuda a explicá-lo mas também a confundi-lo. Mas deixemos de lado, por enquanto, a vertigem desse carrossel. Talvez baste mencionar que a discussão carrega suas datas. Ou que assimilo Caetano como parte de uma linhagem da contracultura das esquerdas no Brasil e, aberto a ele, acompanho seus passos com o maior interesse, embora compreenda que corresponda a um percurso do nosso tempo — o que, com maior ou menor coerência, vale para Caetano, para o próprio Schwarz e para todos nós que não escapamos da condição ideológica autodestrutiva na qual afundamos. 




Com os impactos continuados da crise de 2008, os quais, no Brasil, resultaram na crise da Nova República e na eclosão da extrema-direita, o percurso do nosso tempo não foi estancado e ganhou novos capítulos. Nessas novas páginas, duras páginas, o Caetano presente em Verdade tropical (1997) ficou nos anos noventa e, passados mais de vinte anos, nos vemos diante de outro Caetano que, aos oitenta anos, “nunca foi tão de esquerda”, na expressão de Claudio Leal. Aliás, nesse contexto de crispação ascendente, é sintomático que “Carmem Miranda não sabia sambar” (2017), o prefácio escrito por Caetano para a edição de vinte anos do Verdade tropical, tenha exposto um processo reflexivo mais abrangente do que a súbita versão oficial dessa passagem, na qual Caetano diz mudar de posição ao ler um prefácio escrito por Jones Manoel (conforme notado por Acauam Oliveira). Ali, Caetano afirma: “Roberto Schwarz tinha razão em ser contra minha perspectiva: minha obra tinha identificação com a globalização. Mas mesmo então essa identificação era problemática para mim. Imagina se eu ia apoiar a ideia de um governo mundial, supranacional, nascido do domínio anglo-americano!”. Mesmo a capa do livro guarda evidências de que as peças se mexeram. Enquanto a primeira edição apresentava um aspecto sóbrio, solene, de uma forma abstrata simples junto às grafias, a segunda edição, mais atraente aos jovens, mostra um Caetano de cabelos cacheados e envolto a um parangolé de Hélio Oiticica, como se fosse um super-herói de quadrinhos, afirmando seu passado de vanguarda pop.

Porém, mais do que discutir supostos interlocutores ou sugestionar efeitos tácitos dessa ordem, importa salientar que Caetano, com uma intensidade sem par entre os artistas da sua geração, se dispôs a transformar, no presente, o prestígio acumulado por décadas em petróleo a ser queimado como apito de cão contra o descalabro em instalação. Numa reportagem do The new yorker dedicada a decifrá-lo, Petra Costa sintetiza o sentido dessa disposição com um depoimento afinado aos sinais do tempo: “[Caetano Veloso e Paula Lavigne] investiram todos os seus recursos artísticos e sociais numa guerra de guerrilha cultural contra a ascensão do autoritarismo”. No ciclo de resenhas sobre “Meu coco” (2021), por exemplo, não há um tratamento condizente à importância dessa esfera de atividades, na qual o trabalho do artista convive com um nível acelerado de tensão social, friccionado por atos, campanhas, pautas, articulações políticas e disputas judiciais. O que diz e não diz das canções que Caetano fez na virada à década de vinte.

Para pensarmos esse desencontro, vale retomarmos alguns episódios-limite que, apesar da diferença de momentos e escalas, sugerem não ser exatamente uma novidade para Caetano o trato com eles. A questão é que, hoje, talvez tenham invertido de polaridade. Mas, de qualquer modo, passado e presente ganham em claridade quando percorridos em contraste: o morde e assopra entre choques e sensibilidade minuciosa timbra com a vocação à radicalidade que repararem nele quando jovem. Ao menos, é como nos conta conforme diálogo lembrado com um capitão supostamente treinado nos Estados Unidos: “‘Mas você é ingênuo ou acha que pode nos fazer de bobos?’, continuou, e, mostrando uma discreta vaidade intelectual ao citar os nomes e as ideias de Freud e Marcuse (os nomes de Marx e Lênin eram pronunciados banalmente, sem a mesma excitação), expôs toda a sofisticada interpretação que fazia do tropicalismo. Referiu-se a algumas declarações minhas à imprensa em que a palavra desestruturar aparecia, e usando-a como palavra-chave, ele denunciava o insidioso poder subversivo do nosso trabalho”. Antes disso, um general demonstrou suspeita semelhante, embora através de outro léxico, de acordo com o Termo de Perguntas ao Indiciado: “perguntado se já havia pensado alguma vez em manifestar seu protesto e sua estranheza a arte de terrorismo cultural ou ainda atitudes arbitrárias de autoridades e mesmo difamá-las [Caetano] respondeu que nem sei nem o que é terrorismo cultural e nunca ouviu falar nisso e portanto nunca pensei em manifestar nada a não ser a minha música que é do conhecimento público e é o meu trabalho ao qual me dedico exclusivamente, jamais pensei em difamar alguém seja quem for, jamais”. Ao mesmo tempo em a suspeita no seu trato com a cultura o levou à prisão, Caetano compôs apenas uma canção atrás das grades: “Irene”, cujos versos aludiam apenas à saudade da risada da irmã. 

(continua...)

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