Memórias em poesia e prosa

Por Chumbo Pinheiro 





Rizolete Fernandes é uma caraubense, socióloga e escritora que traz nas veias o lápis, parafraseando aqui o que diz Clauder Arcanjo, escritor membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. A cronista e poeta com uma obra significativa para a nossa literatura, como Cotidianas (crônicas) e Tecelãs (poesia), entre outras, trouxe a lume Alguidar de memórias pinceladas

Em História e memória, Jacques Le Goff, ao iniciar sua discussão sobre a memória, apresenta a importância e a significação em diversos campos das ciências deste fenômeno humano. Neste sentido, ao aproximar a memória da escrita refere Pierre Janet, para quem “o ato mnemônico fundamental é o comportamento narrativo” e este “se caracteriza antes de mais nada pela sua função social, pois que é comunicação a outrem de uma informação, na ausência do acontecimento ou do objeto que constitui o seu motivo”, inteira, com Florès. (p. 367). 

O autor de História e memória ainda complementa: “Deste modo, Henri Atlan, estudando os sistemas auto-organizadores, aproxima linguagens e memórias: 'A atualização de uma linguagem falada, depois escrita, é de fato uma extensão fundamental das possibilidades de armazenamento da nossa memória que, graças a isso, pode sair dos limites físicos do nosso corpo para estar interposta quer nos outros quer nas bibliotecas.'” (p. 367).

É esse o exercício que Rizolete Fernandes faz em seu novo livro Alguidar de memórias pinceladas. A autora resgata suas origens desde a terra onde nasceu, Caraúbas, no Rio Grande do Norte, passando pela história do lugar até a sua genealogia. Narra não só as experiências vividas — que são muitas e mereceria ser contada em uma biografia — e traz, além de seus próprios caminhos construídos com a tenacidade de uma nordestina que enfrenta as agruras sociais, memórias de lutas em defesa da democracia e da justiça.

Alguidar de memórias pinceladas também avança sobre as manifestações culturais que na década de oitenta do século XX, revelava um compromisso da arte, da poesia, do teatro com as lutas pela liberdade e igualdade, diante de  uma ditadura que já não se sustentava, precisamente pela força das ações populares, sindicais e novos rumos da política.

De forma poética, registra Anchella Monte, “Rizolete deixou fruir a sua prosa e a sua poesia, entrelaçadas.” A autora de Alguidar relata uma série de ações políticas encampadas principalmente pelas mulheres em defesa da vida e da dignidade. O compromisso com a luta feminista da memorialista é ao mesmo tempo uma luta em favor da humanidade, tendo em vista a sua militância em instituições e órgãos que reuniam mulheres e homens que tinham como objetivo comum construir uma sociedade com mais justiça social e menos desigualdades. Assim se revela no poema: 

Mulher

Não basta ser
A outra metade 
Da humanidade 
É preciso lutar
Conjuntamente 
Plantar a semente 
Da vida liberta
Mulher mãe irmã 
Da flor da manhã. 
(p. 61)

Alguidar não se resume a revelar ações políticas e sociais coletivas que, às vezes, pode transparecer meramente girar em torno de objetivos macrossociológicos, embora seja esta uma marca importante da obra. Nesse sentido, o leitor acompanha as anotações, registros e comentários da autora, que de forma clara e sintética, relata acontecimentos históricos que marcaram os anos entre 1981 a 2002. 

Revela também que, para além das lutas, havia uma convivência solidária e fraterna, no âmbito das relações sociais com as companheiras, e não há como não registrar o impacto causado pela perda precoce de uma companheira de luta. A poeta então faz ecoar uma poesia lírica, certa dá continuidade das lutas, mas ao mesmo tempo, expondo a ausência de uma companheira que já não estará em combate: 

JURA (de amor à vida)

Como é que fica, Juraneide, o movimento sem você?
A reunião de terça-feira, como é que vai ser?
A programação do encontro, quando iremos fazer?
Seu cartaz da passeata está confeccionado! 

A quem entrego, Juraneide, este abraço que guardei para quando você voltasse?” 
(p.79-80).

Rizolete Fernandes registra, assim, uma trajetória de luta no campo social e literário; destaca os processos políticos marcados pelas sucessivas vitórias do campo popular entre os anos de 2002 e 2014, bem como a reação dos conservadores brasileiros que culminou no impeachment da primeira mulher eleita para a presidência da república, na prisão do então ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no retrocesso político e econômico entre 2018 e 2022, e na eleição para novo mandato do ex-presidente. 

Na literatura, seu engajamento e compromisso está registrado além dos livros acima citados; destacamos A história omite, eu conto: mulheres em luta no Rio Grande do Norte – de 1980 a 2000 (EdUFRN), Luas nuas e Canções de abril (Editora Una), além de outras obras e publicações em jornais e revistas de circulação nacional. Assim, pode-se afirmar para os leitores potiguares e alhures, que temos um nome que está entre os grandes da literatura brasileira. É ler, e conferir.


* Chumbo Pinheiro é o pseudônimo de Luis Pereira da Silva. Licenciado e bacharel em História e bacharel em Ciências Sociais pela UFRN; é autor do Alguns Livros Potiguares 1 e 2 (resenhas) e O silêncio que habita (poesias).


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