Você, vosso criado

Por Rafael Bonavina 

Ilia Repin. Prisão de um propagandista (com intervenção)



As traduções são criaturas geniosas e irritadiças, pois, embora tenham uma cara harmônica, de produto bem-acabado, às vezes elas escondem discussões antigas, quando não verdadeiras polêmicas. Muitas delas são verdadeiramente fundamentais, outras acabam chegando à estranha conclusão de que traduzir é impossível. E digo estranha por sabermos que os tradutores estão por aí, vivendo de fazer o impossível todos os dias.

Desta vez, gostaria de discutir uma das questões que sempre me pareceu incômoda e que, como de costume aqui, está ligada à língua russa: a tradução do pronome de terceira pessoa do plural “Вы” (Vy). Houve um tempo em que muitos tradutores — e é possível que o leitor tenha encontrado alguns deles em seu trajeto pela literatura russa — preferiam traduzir de maneira mais direta, por assim dizer, usando o desconfortável vós da língua portuguesa. Isso era mais comum nos textos do século XIX, e dizia-se que era bastante condizente o uso, dado que a linguagem deveria ter um quê de arcaico mesmo. 

Quando eu estava no começo dos meus estudos do idioma, ficava com uma pulga atrás da orelha com esse tal vós. Achava-o esquisito, sentia muita dificuldade — e ainda sinto — para conjugar certos verbos nessa forma e, enfim, sentia que o pronome pesava como um elefante branco. Com o passar do tempo a resposta definitiva foi me parecendo cada vez mais distante, menos clara, e dizem que isso é sinal de maior reflexão. Eu digo que é sinal de que preciso trocar de óculos.

No frigir dos ovos, a tradução está correta, afinal vós e вы são ambas palavras da mesma categoria gramatical e desempenham função razoavelmente parecida. No entanto, o seu papel cultural é muito diferente no Brasil e na Rússia, pois lá ele é usado cotidianamente, no tratamento entre vizinhos, nas filas de supermercado e nos consultórios médicos. Aqui, se alguém nos trata por vós, todos imediatamente se reviram nas cadeiras. Mesmo assim, a língua portuguesa ainda conta com algumas daquelas formalidades horrendas, que têm cheiro de tumba, como Vossa Excelência e Vossa Senhoria.

Ora, mas e a ideia de que essa opção escalafobética se justificaria levando-se em consideração um português mais antigo? Pois é justamente sobre isso que gostaria de discutir aqui: será que essa percepção se confirma diante dos grandes escritores brasileiros? Digo brasileiros, e não lusófonos, pois vivemos um contexto pós-Modernismo, em que já não está mais em discussão a necessidade de usarmos a nossa forma de expressão, mesmo que não agrade aos ouvidos portugueses. E, a meu ver, a tradução deveria seguir esse mesmo princípio, buscando adequar a linguagem do texto traduzido à tradição de escrita daqui, sem incorrer em lusitanismos injustificados.

Faremos apenas uma busca quantitativa com a ajuda das ferramentas automáticas de busca, afinal uma análise qualitativa precisaria de uma tese de doutorado para chegar a considerações interessantes, e infelizmente não dispomos desse espaço aqui. E, para isso, como não poderia deixar de ser, usaremos a obra do nosso Machado de Assis. Comecemos, então, com Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), em que o pronome você aparece algo como três vezes mais do que o vós. Em Dom Casmurro (1889), a questão se repete: temos pouquíssimas as ocorrências do vós ao longo de todo o romance, algo como uma dezena. Já o nosso querido você aparece mais de uma centena de vezes. O mesmo vale para Quincas Borba (1891), em que o vós é aproximadamente quatro vezes menos frequente que o você. Em Esaú e Jacó (1904), a diferença é mais discrepante: temos quatro vós e setenta você.

“Ora essa!”, dirá um leitor mais arguto. “Isso só nos diz que Machado de Assis preferia o uso de você e mais nada”. De fato, concordo machadianamente com esse meu leitor. Peguemos, pois outra obra, e quem melhor para se contrapor a esse autor do que José de Alencar? Em O guarani (1857), o incômodo vós aparece centenas de vezes, e o nosso querido você simplesmente não existe. Aqui, talvez, pudéssemos pensar que houve alguma mudança linguística entre o romance de Alencar e os de Machado que apontei acima, mas não é bem esse o caso. Em Ubirajara (1874), não encontramos nenhum você mas alguns vós despontam, estranhamente, na fala dos indígenas; e, no mesmo ano, é publicado o romance Senhora (1874), em que o vós praticamente deixa de existir e dá lugar ao familiar você.

Se a hipótese de uma natural transição da língua não encontra respaldo – e vale ressaltar que uma mudança dessa natureza demoraria muito mais que os trinta anos que separam Memórias póstumas de O guarani —, faz-se necessário pensar em outra forma de se explicar essa questão. Uma possível explicação talvez seja encontrada no princípio estético das obras, ou seja, conforme Alencar deixa de lado o modelo romântico e se aproxima do Realismo, ainda que timidamente, a linguagem dos seus romances também parece sacudir os idealismos linguísticos e reencontra-se com a materialidade do português falado no Brasil. 

A partir disso, o uso de vós para traduzir o russo vy nos parece merecer um olhar mais atento, já que esse pronome não é apenas uma palavra guardada num dicionário, mas parte de uma cultura linguística e traz consigo um traço estilístico. Não digo apenas da pouquíssima presença do vós na fala brasileira, o que por si só já deveria ser motivo suficiente para a suspeita, mas principalmente desses indícios que vimos em relação às escolas literárias. Para formular a questão em termos mais concretos, vejamos o caso de Fiódor Dostoiévski, autor que escolho por ter traduzido uma de suas obras há pouco, mas acredito que as reflexões sirvam para muitos outros.

Todos sabemos que o autor de Crime e castigo é geralmente colocado como um autor realista — por mais que se possa adjetivá-lo desta ou daquela maneira —, o que fica mais claro em textos como Gente pobre, O jogador ou Crime e castigo. Digamos que se use vós para traduzir os vys de Noites brancas ou mesmo Gente pobre; isso faria com que os personagens de linguagem simples, causada pela sua baixa instrução, de repente estariam falando como os  grandiloquentes indígenas de O guarani. Surgem, a meu ver, dois problemas. Em primeiro lugar, o tradutor introduz uma contradição estética que não existia no russo, afinal o uso de vy é feito por todas as camadas da população por lá ao contrário do vós no português brasileiro. E, além disso, no caso de obras como Notas do subsolo, o uso de vós prejudica o tom ao mesmo tempo reflexivo e intimista do texto original, que certamente estaria mais próximo de Dom Casmurro que de Ubirajara

A meu ver, portanto, o vós faz com que a tradução acabe estilisticamente mais distante do seu original que o mais simples você ou o senhor, se levarmos em conta seu alinhamento com a nossa tradição literária. A conclusão pode parecer estranha, e de fato vai na contramão do que se poderia imaginar a princípio, mas encontra respaldo na nossa literatura. Talvez seja um daqueles casos de hipercorreção que acabam se perpetuando por tradição, mas que poderiam ser deixadas de lado sem prejuízo real. Para mim, confesso que isso seria um alívio, pois me daria motivo para não voltar às terríveis tabelas de conjugação verbal do português.


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