Boletim Letras 360º #700
DO EDITOR
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| Marília Garcia. Foto: Renato Parada. |
LANÇAMENTOS
A poesia de Marília Garcia em diálogo com as artes plásticas de Mira Schendel.
Neste livro-poema, Marília Garcia encara dois tipos de trabalho: de um lado, o trabalho de luto por sua mãe, Lia, e por uma amiga querida, Maria. De outro lado, monotipias de Mira Schendel: trabalhos gravados um a um pelas mãos da artista na fragilidade do papel de arroz. No corpo a corpo com os objetos, imagens e histórias deixados por essas três mulheres, a poeta faz do luto um trabalho concreto, olhando e rondando os vários mistérios que vida (morte) e arte compartilham. Lia, Mira, Maria, de Marília Garcia sai pela Martins Fontes. Você pode comprar o livro aqui.
Romance de Vinícius Portella examina entre o desejo e a desorientação os desrumos da humanidade entre o Norte e o Sul Global.
Um terço da humanidade passa a ouvir um zumbido ― e ninguém sabe explicar por quê. Mark, estadunidense, e Rosana, brasileira, são pesquisadores em comitês de investigação na cidade de Ressaquinha, Minas Gerais, onde o fenômeno é percebido com mais intensidade. Num cenário improvável e absorvidos pelo vórtex do delírio ― eles também ouvem o zumbido ―, os dois cedem a uma paixão, no mínimo, imprópria, já que pertencem a comitês rivais: ele, ao do Norte Global; ela, ao do Sul. Entre desejo e desorientação, Zumbido coloca em choque uma multiplicidade de discursos e teorias que tentam dar conta do mundo e, quem sabe, daquele fenômeno. Mineração, geoengenharia, crise climática, abismos sociais e um casal apaixonado com senso de ridículo. Sem heróis nem respostas definitivas, Vinícius Portella escreve um romance no limite do ensurdecedor. Publicação da editora DBA. Você pode comprar o livro aqui.
Contos inéditos de Adriana Armony, com histórias bem-humoradas sobre a beleza e os desastres dos relacionamentos amorosos, marcam o novo livro da escritora.
Nos contos inéditos deste Inventário de amores vencidos, Adriana Armony compõe uma espécie de manifesto movido por reflexões e aprendizados das relações passadas ao longo da vida. Com uma escrita precisa e ciente das ambiguidades da experiência amorosa, elabora questões como os fracassos afetivos, a imaturidade dos homens e as dores e as delícias de desejá-los. Os contos atravessam diferentes fases da vida – as marcas deixadas pela infância, as angústias do primeiro amor, o velório do ex-namorado da adolescência, as transformações da maturidade, o sexo e o prazer, a maternidade e a chegada da menopausa. Seguindo a ideia de que “amores quando morrem viram personagens”, a obra apresenta cada uma dessas fases sob uma perspectiva feminina, movida por sarcasmo, sagacidade e o poder, também um talento, de rir das próprias mazelas. Com olhar perspicaz, os desafios dos relacionamentos modernos são outro tema central: como os homens tratam as mulheres no sexo e até que ponto elas devem se sujeitar a relações vazias, a parceiros com visões e objetivos rasos, à percepção objetificada de seus corpos e até mesmo à violência velada. Encarando as decepções com muita ironia e humor, Armony também faz o leitor pensar sobre as frustrações ao fim de um relacionamento. Neste inventário, o amor não aparece como promessa de felicidade, mas como uma jornada sincera de entrega na relação com o outro e com o próprio tempo. É, acima de tudo, um convite a fazermos as pazes com nós mesmos diante dos dissabores da vida. Publicação da editora Record. Você pode comprar o livro aqui.
A Coleção Georges Simenon da Editora Unesp ganha dois novos títulos: os terceiros volumes da série Comissário Maigret e Romances e outros escritos.
1. No primeiro livro estão reunidas mais quatro icônicas histórias em que a verdade fica quase perdida em meio à dança sinistra de suspeitos e culpados. Em A dançarina do cabaré, dois jovens tentam roubar o clube Gai-Moulin e encontram um cadáver. O corpo some e eles se tornam suspeitos, junto a um francês misterioso. A trama ainda envolve a caçada a um criminoso internacional. N'A taberna dos dois tostões", seguindo a pista de um condenado, Maigret investiga um crime antigo em uma taberna no Sena. Entre segredos ocultos pela boemia local, o comissário mergulha em uma trama sombria, marcada por chantagem e pela miséria humana. No terceiro livro, A noite da encruzilhada, um joalheiro holandês é encontrado assassinado no carro do agente de seguros Michonnet. O carro estava escondido na garagem de seus vizinhos. Maigret investiga os moradores, em uma trama em que ninguém é exatamente quem aparenta ser. E, por fim, em Maigret e os flamengos, o investigador se encontra em Givet e investiga o sumiço de uma jovem ligada aos Peeters. Em meio a tensões sociais e preconceitos, o comissário busca a verdade escondida sob a fachada de respeitabilidade dessa rígida família flamenga. As traduções são de André Telles, Celina Portocarrero, Eduardo Brandão e Julia da Rosa Simões. Você pode comprar o livro aqui.
2. O segundo reúne quatro histórias sobre o peso das escolhas e da fatalidade. São retratos de personagens levados ao limite por suas próprias contradições, pelo isolamento ou pelo simples destino. Em A casa do canal uma jovem órfã de 16 anos troca Bruxelas pelo campo flamengo. Sem falar a língua local, ela supera o choque cultural ao exercer um domínio perturbador sobre a vida dos primos na isolada e misteriosa casa do canal. No segundo livro, O inquilino, em fuga, Élie Nagéar esconde-se na pensão da família de sua amante. Sob a rotina pacata, desenrola-se um drama psicológico sobre a ambiguidade moral de quem, por piedade ou fascínio, silencia diante de um criminoso. Já em Os suicidas, Émile e Juliette ocultam-se em Paris em busca de liberdade para seu amor proibido. Contudo, a miséria e o fracasso corroem o romance, transformando o sonho em uma descida ao desespero, onde o cerco se fecha de forma inevitável. Por fim, em Os clientes de Avrenos, Bernard de Jonsac e Nouchi vivem uma união ambígua na Istambul dos anos 1930. Às margens do Bósforo, em uma atmosfera de ócio, vício e melancolia, a presença da melancólica Lélia tensiona ainda mais as relações. Tradução de Mariana Echalar. Você pode comprar o livro aqui.
Da autora da aclamada trilogia Esboço, um romance surpreendente e instigante que, mais uma vez, expande a noção do que a ficção pode ser e fazer.
Neste romance de prosa límpida, os personagens são identificados apenas pela inicial G. São artistas se confrontando com dilemas próprios de seu ofício e com questões comuns a todos nós: a busca pela aprovação dos pais, e também a morte deles, a maternidade e suas consequências na vida das mulheres, relacionamentos permeados por violência, sentimentos pouco confessáveis. Entre reflexões provocativas e surpreendentes, Desfile reafirma o lugar de destaque que Rachel Cusk conquistou na literatura contemporânea com a trilogia Esboço e o romance Segunda casa, também publicados no Brasil pela Todavia. Tradução de Mariana Delfini. Você pode comprar o livro aqui.
Anna Starobínets imagina um luto inimaginado.
Em uma consulta pré-natal de rotina, Anna descobre que seu bebê tem uma malformação incompatível com a vida: é recomendada a interrupção da gravidez. Segue-se então uma história insólita, em que as esperanças são insensatas, no lugar de acolhimento há um sistema envelhecido e protocolar e a humanidade da mãe e a do bebê precisam ser reafirmadas com frequência. Nesse luto inimaginado, Anna busca a vida a cada momento e resiste como forma de existência. O que fazer para que a dor não destrua a si e sua família? Ela acaba por transformar sua experiência pessoal em uma reflexão sobre sistemas de saúde, em especial o da Rússia, e o tratamento social dado a mães e bebês em situações semelhantes. Segundo a própria autora, trata-se de um romance autobiográfico de não ficção sobre a perda de um bebê não nascido na Rússia. Olhe para ele, de Anna Starobínets sai pela editora Mundaréu; tradução de Letícia Mei. Você pode comprar o livro aqui.
O relato de um homem que atravessa a fome, o medo e a segregação racial para descobrir, na leitura e na escrita, a chave de sua própria formação e o impulso para se tornar um dos maiores escritores americanos de todos os tempos.
Em Menino negro, Richard Wright reconstrói sua infância e juventude no sul segregado dos Estados Unidos no início do século XX. A narrativa tem dois temas principais: a fome e o desejo de escrever.
A fome é primeiro a fisiológica. A mais pura e plana falta do que comer. Dessa falta derivam outras: de dignidade, de reconhecimento, de um lugar no mundo. E a escrita é uma forma de criar um espaço seguro para o ser, sendo negro. O regime de segregação sulista era eficiente em manter a população negra despossuída, empobrecida e brutalizada. Miséria, abuso, violência e humilhações eram pão de cada dia. Cumpria então, cotidianamente, trabalhar com e contra essas condições talhadas para nulificar a vida de pessoas negras e pobres. Qualquer semelhança com nossas favelas não é mera coincidência. Se um dos encantos da literatura é desvendar estruturas de sentimentos coletivos e, assim, criar “comunidades imaginadas”, ler Menino negro — à luz da realidade brasileira — nos permite transcender fronteiras nacionais e entender como se constrói um olhar e uma dicção da experiência negra atlântica. Publicação da Companhia das Letras; tradução de Thaís Britto. Você pode comprar o livro aqui.
A fome é primeiro a fisiológica. A mais pura e plana falta do que comer. Dessa falta derivam outras: de dignidade, de reconhecimento, de um lugar no mundo. E a escrita é uma forma de criar um espaço seguro para o ser, sendo negro. O regime de segregação sulista era eficiente em manter a população negra despossuída, empobrecida e brutalizada. Miséria, abuso, violência e humilhações eram pão de cada dia. Cumpria então, cotidianamente, trabalhar com e contra essas condições talhadas para nulificar a vida de pessoas negras e pobres. Qualquer semelhança com nossas favelas não é mera coincidência. Se um dos encantos da literatura é desvendar estruturas de sentimentos coletivos e, assim, criar “comunidades imaginadas”, ler Menino negro — à luz da realidade brasileira — nos permite transcender fronteiras nacionais e entender como se constrói um olhar e uma dicção da experiência negra atlântica. Publicação da Companhia das Letras; tradução de Thaís Britto. Você pode comprar o livro aqui.
Dos impasses da crise deste século por Hakan Günday.
Neste exato momento, em algum lugar do mundo, há pessoas se preparando para escapar da guerra, da fome e da miséria. Esta não é apenas a história delas, mas também a de Gaza, filho de um traficante de pessoas que, aos nove anos, é lançado ao submundo do contrabando de migrantes na Turquia. Entre espaços sufocantes, caminhões abarrotados e travessias clandestinas, o garoto cresce em meio a condições desumanas, tornando-se peça de um jogo brutal em que é, ao mesmo tempo, cúmplice e vítima. Quando uma das operações de seu pai termina em desastre, o menino passa a carregar no corpo e na mente as marcas irreversíveis de tudo aquilo que ajudou a sustentar. Cruel e perturbador, Mais revela com precisão a crise migratória contemporânea e os mecanismos ocultos que a alimentam, expondo de forma impiedosa um sistema que reduz vidas humanas à condição de mercadoria. Publicação da Rua do Sabão; tradução de Isabela Figueira. Você pode comprar o livro aqui.
Livro nos conduz ao vibrante e desafiador início da vida adulta de Maya Angelou ― uma fase marcada por descobertas, contradições e coragem.
Neste segundo volume de sua série autobiográfica, Maya Angelou narra os anos em que, ainda adolescente, precisou criar sozinha seu filho recém-nascido enquanto enfrentava empregos precários e relações instáveis. Entre erros, quedas e momentos de descoberta, ela tenta encontrar um lugar no mundo como mulher, mãe e artista em formação. Com uma escrita que mistura lirismo e franqueza, Maya nos convida a revisitar os anos 1940 pelos olhos de uma jovem negra que busca afirmar sua voz em um mundo repleto de limites impostos. Venham e juntem-se a mim é publicado pela editora Nova Fronteira; tradução de Regira Lyra. Você pode comprar o livro aqui.
Ler uma parte essencial da obra desafiadora de Samuel Beckett.
Em suas peças e narrativas, Samuel Beckett (1906-1989) cifrou como ninguém os impasses da arte após a fase heroica do modernismo. Chamava os próprios escritos ― marcados pelo cataclismo da Segunda Guerra Mundial ―, de work in regress, pois elaborados “a partir de farrapos de linguagem e restos de erudição”, como nota Fábio de Souza Andrade. “Tentar de novo. Falhar de novo. Falhar melhor”, dito de Pra frente o pior (1983), poderia resumir toda a obra beckettiana. Neste livro, o crítico enfrenta o paradoxo com agudeza e erudição. Na primeira parte, “O silêncio possível”, adota a trilogia do pós-guerra Malone morre, Molloy, e O inominável, como lugar privilegiado para analisar a trajetória pregressa e a futura de Beckett. A segunda parte, “(S)obras (in)completas: beckettiana brasileira”, reúne ensaios sobre diferentes aclimatações da obra do escritor irlandês em nosso país, quer por meio de montagens teatrais, quer por recepções críticas ou traduções. Sem nem: ensaios beckettianos sai pela Editora 34. Você pode comprar o livro aqui.
Um personagem shakespeariano permite decifrar a Esfinge da extrema direita, que, mesmo quando derrotada, segue devorando seus adversários.
No papel inédito do vilão que não oculta seus propósitos, antes ostenta seu repertório de vilanias com orgulho e destemor, Ricardo III anuncia sem pudor: “Estou decidido a mostrar-me um vilão”. Em seu caminho ao centro do poder, ele anuncia as desfaçatezes e as torpezas de que será capaz e, ainda assim, triunfa. Estamos no universo da forma-Ricardo III, que se regozija com as maldades que planeja, goza com a perspectiva da anarquia que precisa instaurar para sentar-se no trono. Vilania-ostentação, autorretrato involuntário de Donald Trump, Jair Bolsonaro, Javier Milei, Nayib Bukele e tutti quanti. Problema maior: a extrema direita chega ao poder por meio da decisão do eleitorado em eleições livres e democráticas. Para enfrentar essa equação paradoxal, Fiódor Dostoiévski complementa William Shakespeare. O narrador da novela Memórias do subsolo fornece uma chave nova de leitura: o ressentimento é uma força poderosa que muitas vezes nos leva a tomar decisões que nos prejudicam. O avanço da extrema direita também é a manifestação de ressentidos em escala planetária. Diante da perplexidade que os dilemas contemporâneos provocam em todos, este ensaio arrisca uma hipótese: a imaginação literária oferece uma alternativa única para inteligirmos o que de outra forma nos escapa. No fundo, estamos todos convocados ao papel de pequenos Édipos do cotidiano que desentendemos — de Corinto a Tebas a travessia é perigosa, porém promissora: abraça o mundo todo. A Era de Ricardo III: guerra cultural como método, de João Cezar de Castro Rocha é publicado pela editora Autêntica. Você pode comprar o livro aqui.
REEDIÇÕES
Reedita-se conjunto de ensaios de Roberto Schwarz há muito fora de catálogo.
Considerado por muitos um dos maiores críticos de nossa época, Roberto Schwarz publicou em 1965 esta seleta de ensaios de vasto escopo, que se tornou uma peça preciosa que merece ser redescoberta. O autor de obras como Ao vencedor as batatas e Um mestre na periferia do capitalismo se voltou a diferentes obras e autores importantes neste livro, começando pelo ousado texto sobre psicologismo em Mário de Andrade, no qual aborda com lucidez as facetas mais problemáticas da teoria estética do poeta paulistano. Os objetos estudados podem variar, de nacionais como Perto do coração selvagem, de Clarice Lispector, a autores estrangeiros como Kafka e Malraux, e até ao cinema de Fellini. O que persiste, aqui, é o olhar crítico único de Schwarz, preocupado com o fato de que “a maneira de significar significa”, isto é, articulando a forma literária sempre em termos dialéticos. Assim como os romances abordados permaneceram no cânone, A sereia e o desconfiado persiste como uma das grandes obras da crítica literária brasileira. Reedição da Companhia das Letras. Você pode comprar o livro aqui.
A segunda edição de Pré-história, romance de Paloma Vidal.
Mesmo na pré-história já existe uma narrativa: gravada em pedra, eterna, oculta em alguma caverna prestes a ser descoberta. Assim também o tempo nos ilude, elusivo, tornando infinitas certas cenas que se repetem na lembrança e de certa forma nos moldam. Este romance de Paloma Vidal é uma pequena e vigorosa obra-prima, que une com delicadeza os laços das eras mais remotas aos de agora, costurando no tempo uma escrita que vai além da memória, numa espécie de investigação arqueológica que toma a forma de uma carta de amor urgente e retroativa. Com habilidade, a narradora nos enreda em sua trama de tom altamente pessoal, apresentando cada elemento que compõe o mosaico de uma história de amor única — a estrelinha vermelha, o esconderijo do barco — e cada um dos polos opostos que irão inevitavelmente se atrair, apertando os laços em nós cada vez mais difíceis de romper. Esta segunda edição conta também com um posfácio de Tatiana Salem Levy, atualizando o contexto e a leitura de uma obra que retrata fielmente os tempos em que vivemos. Publicação da 7Letras. Você pode comprar o livro aqui.
RAPIDINHAS
Julio Cortázar por ele mesmo. Cassiano Viana publica pela editora 7Letras um livro que reúne quatro entrevistas do cronópio concedidas a duas televisões públicas, da Espanha e da Argentina, entre 1977 e 1983.
De Émile Zola. A editora Estação Liberdade roda a 4ª edição de um dos romances centrais do naturalismo, Germinal, na tradução de Mauro Pinheiro.
Lorca pelos olhos do seu último amor. Sai em Espanha Recuerdos. Organizado por Christopher Maurer e Víctor Fernández, o livro apresenta os escritos até agora inéditos que Juan Ramírez de Lucas escreveu acerca da sua relação com o poeta.
Completamente sexta. É o título do primeiro livro do poeta espanhol Luis García Montero a sair no Brasil. Feito esperado para setembro pelas Edições Jabuticaba.
Record de bolso. A casa abre uma nova coleção em formato pequeno. Os títulos já em catálogo são: Não contem com o fim do livro, de Umberto Eco e Jean-Claude Carrière; A peste, de Albert Camus; e A família Medeiros, de Júlia Lopes de Almeida.
OBITUÁRIO
Morreu Luis Goytisolo.
Luis Goytisolo nasceu em Barcelona, em 17 de março de 1935. Filho de uma família de importantes nomes da literatura espanhola — os irmãos José Agustín e Juan Goytisolo —, abandonou os estudos em Direito para se dedicar à vida política e literária. “Minha obra está marcada pela dor de minha própria infância”, escreveu certa vez. Uma dessas dores foi a perda da mãe, Julia Gay, em um bombardeio durante a Guerra Civil Espanhola. Escreveu para jornais como El País, ABC e Diario 16, além de roteiros para séries e documentários de televisão. Estreou na literatura no final da década de 1950, mas o reconhecimento só veio na década seguinte, com a tetralogia Antagonía, composta por Recuento (1973), Los verdes de mayo hasta el mar (1976), La cólera de Aquiles (1979) e Teoría del conocimiento (1981). Deixou uma vasta obra marcada pelo experimentalismo e pela renovação das formas literárias tradicionais. Além da ficção, escreveu também ensaios, entre os quais se destacam El porvenir de la palabra (2002) e Naturaleza de la novela (2013). Entre os poucos livros seus traduzidos e publicados no Brasil estão Rastro do fogo que se afasta e As semanas do jardim. Entre os prêmios recebidos estão o Prêmio Biblioteca Breve (1958), o Prêmio Cidade de Barcelona (1976), o Prêmio Juan Rulfo (2004), o Prêmio Nacional das Letras Espanholas (2013), reconhecimento pelo conjunto da obra e da trajetória profissional, e o Prêmio Carlos Fuentes (2018), também pelo conjunto da obra. Luis Goytisolo morreu em Vimbodí, em 12 de julho de 2026.
DICAS DE LEITURA
1. D. Quixote: Cervantes, Portinari, Drummond, de Carlos Drummond de Andrade (Record, 128p.) Um conjunto de 21 desenhos que Candido Portinari fez para a obra fundadora do romance moderno e que depois ganhou a companhia da poesia do poeta mineiro numa edição, pela primeira vez, acessível ao público. Você pode comprar o livro aqui.
2. Pau Brasil 100 anos: o manifesto e o livro no calor da hora, de Gênese Andrade (Org.) (Editora Unesp, 552p.) Dois marcos de uma das vertentes do modernismo na literatura brasileira, o manifesto e o livro de Oswald de Andrade em edição facsimilar da primeira e com vasto material da recepção desses dois trabalhos entre os primeiros anos de sua publicação. Você pode comprar o livro aqui.
3. Cartas a um jovem escritor, de Mario Vargas Llosa (Trad. Ari Roitman, Alfaguara, 176p.) Um dos nomes mais importantes para a literatura do século XX discorre, entre a experiência pessoal e análise de grandes obras, a técnica da narrativa em modo de reflexão e recomendação. Você pode comprar o livro aqui.
BAÚ DE LETRAS
No dia 22 de julho celebramos o centenário de José Paulo Paes, figura marcante na cena literária como poeta, tradutor e crítico. Em julho de 2008, ainda quase nos primórdios, dedicamos um perfil que agora recordamos. O texto reúne depoimentos acerca da sua obra e vários poemas.
O recomendado, na seção anterior, Cartas a um jovem escritor, de Mario Vargas Llosa, encontra-se no centro deste texto que traduzimos para o Letras em dezembro de 2022.
E, se for por aqui, encontrará uma pequena matéria com um pouco da história da edição que reuniu Cervantes, Portinari e Drummond em um único projeto.
DUAS PALAVRINHAS
A poesia não é trabalho, é vocação.
— José Paulo Paes
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