Foto no privado, de Simon Chevrier

Por Pedro Fernandes

Simon Chevrier. Foto: Dorian Prost/ Reproduzido de Perluete.



O nosso tempo é o do vazio marcado pelo excesso. Escravos do presente ou das artimanhas do contemporâneo, estamos submetidos à procura incessante pelo excepcional, capaz de nos retirar, ainda que por um instante, do regime do frugal e encontrar qualquer coisa talvez perdida em alguma curva de suas fímbrias. Isso padecemos os que ainda tiveram contato com o mundo perdido; as novas gerações já encontraram o meio de viver a falta do que não viveram macaqueando usos, hábitos, objetos e cultura, fabricando com esses restos o seu próprio tempo.

Os perdidos no excesso de presente, saudosistas ou tapeceiros de uma era até agora de inovações duvidosas estão numa mesma barca. Passada a experiência, caímos todos outra vez no mesmo ciclo de vazio, espera e nova frugalidade. É da natureza do simulacro e a interminável lista de afecções psicológicas demonstra como nunca estivemos tão sós, tão tristes, tão espezinhados, tão ignorados como no império do efêmero. O modelo dominante, mesmo os mais céticos ignorando ou apostando numa tomada de consciência capaz de devolver a humanidade àquele suposto eixo linear que pareceu existir até o advento da vida virtual apostem o contrário, ganhou. 

E o pior também tomou de assalto a literatura, engalfinhada nas mesmas toleimas deste tempo. Não há um dia que apareça um clássico contemporâneo, seja o que significar essa invencionice, o escritor maior e excepcional do século. O leitor consumidor repete o bodejo e quer livros com historietas frugais para engrossar os limites das suas metas de leitura cada vez mais ambiciosas e guiadas por critérios de competitividade estimulados por figuras que agora dirigem os interesses de leitura dos seus seguidores; procuram enredos, no caso da prosa de ficção, nada provocadores, mesmo repetidores da sua própria condição, querem-se reconhecidos e não confrontados com a sua imagem. Nos casos mais extremos querem na literatura o conforto que não encontram em parte alguma.
 
Esse apanhado um tanto pessimista serve diversamente para Foto no privado, de Simon Chevrier, reconhecido pelo Prêmio Goncourt de Primeiro Romance em 2025. Numa era em que é cada vez mais difícil depositar valor nas premiações, exceto o que cai no bolso do premiado, porque essas se encontram muitas vezes à serviço de interesses escusos das grandes cadeias editoriais e de outras variáveis de mercado, o reconhecimento pouco importaria se não fosse justamente por isso que Chevrier tenha sido logo arrebatado, em corpo imberbe, ao panteão ou pelo menos à promessa dos mais promissores escritores do seu tempo. Em matéria de criação, para qualquer excepcionalidade — é assim desde a virada modernista —, é fundamental cautela e nesse caso convém admitir que todo o incenso queimado à volta desse livro é exclusivamente deriva de nossa condição de manada que encontra na unanimidade uma maneira de sorver nosso vazio. A França continua na sede pelo aparecimento do novo gênio desde Rimbaud mas este jamais virá.

Situado no rol da autoficção — depois de Annie Ernaux abrir esse lugar no hall do Academia Sueca, todos e em toda parte do ocidente querem o mesmo sumo — Foto no privado é, a princípio, apenas o registro despretensioso de um jovem da geração de 1990 engalfinhado nas teias desse tempo até agora descrito. Também por isso, e não apenas pelo reconhecimento da Academia Goncourt, é que tem recebido tamanha projeção; Narciso é um inteiramente encantado com a sua própria imagem. Não é um mau livro — o leitor sossegue. Mas, nada mais. A sua maneira irrisória de capturar o irrisório é um mérito, porque não produz um estilo artificial ou afetado em relação ao assunto, tampouco circunscreve os dilemas do narrador/ autor numa centralidade que o faça especial entre os da comunidade humana, como é recorrente na literatura em voga. 

As bases estruturais do romance encontram-se na anotação diarística; dela se converte um plano narrativo feito das atividades comuns de um sujeito trivial. Mesmo o recurso do fragmento, disposto em modo de continuidade cronológica, denuncia a sua arquitetura. O narrador se situa em um presente contínuo, iniciado não propriamente por um acontecimento desencadeador — este só se revela na passagem da primeira para a segunda das quatro partes do romance — e terminado quando ele próprio compreende que qualquer coisa se rompeu e permitirá o estabelecimento de um tempo outro em relação ao vivido até então. Nesse caso, quando um desses ciclos de busca do sujeito no mundo de esvaziamentos se contrai, ou entra em estágio de nova abertura uma vez alcançada certa impressão de controle dos múltiplos fios que enredam a existência. 

O despretensiosismo de Simon Chevrier não ignora certa tessitura da significação. O nó narrativo é uma fotografia encontrada pelo narrador/ autor na casa de um dos seus casos amorosos; é ela que desencadeia uma obsessão por descobrir quem seria a figura que o seu Thibaut tem como o amante ideal e enovela o agora obcecado em registrar não só a procura mas a sua própria existência, talvez como uma maneira de não sobreviver ao esquecimento do modelo de Peter Hujar, sobre o qual descobrirá pouquíssima coisa e muita imaginação acerca do seu destino. O entrevisto desaparecimento de Daniel Schook/ Schock entre as vagas da AIDS no mesmo ano em que foi fotografado, confunde-se, com outras duas circunstâncias: o medo do narrador/ autor por se infectar com o HIV, devido a agitada vida na apoteose do Grindr e nas atividades de trabalhador do sexo, e o estopim da pandemia de covid-19, embora o primeiro elemento prevaleça, e o segundo figure como certo pano de fundo esmaecido. 

Outra matriz do diário na feitura do romance é encontrada na prevalência do relato, reavivando a imensa pobreza para o diálogo da literatura de confissão. Enquanto cataloga os enlaces amorosos do Grindr/ Giton e refere suas buscas pela figura retratada por Peter Hujar, o estudante descreve seus passos numa quadrilha drummondiana gay constituída pelo próprio Thibaut e pelo amante deste, Louis, e o amante deste outro, Victor; sabemos da morte do pai em decorrência de um câncer em fase terminal, da procura do narrador/ autor por trabalho, por moradia e por alguma perspectiva de vida. Nada disso aparece envolto das secreções melodramáticas, embora o destino sempre se abra em um complexo crescendo capaz de eliminar o sujeito ou transformá-lo definitivamente numa figura marginal, afinal, esse mesmo mundo autocentrado no presente é o do feroz individualismo e das criaturas mobilizadas por e para o dinheiro.

O agravamento da condição do narrador/ autor em Foto no privado coincide com a natureza do próprio autor do retrato que tanto o obceca. A fotografia de Hujar é parte do período em que se recupera de uma depressão debilitante na década anterior; o contorcionismo do modelo na pose em destaque — e noutras desse período — é parte, conforme John Douglas Millar, do estado mental necessário para executá-las; nesse registro, o corpo precisa se encontrar fora das suas poses costumeiras. Ora, isso não significa que o narrador/ autor do romance seja alguém de mente contorcida, entretanto, a vida que narra, a vida que vivemos neste tempo de virtualidades, é ela própria esquizofrênica, distorcida, incapaz de oferecer aos indivíduos uma coincidência com suas próprias naturezas, porque a qualidade que os destaca é exatamente o inusual. 




É importante referir ainda os vínculos entre o retrato de Daniel Schook/ Schock e o protagonista do romance de Chevrier. Existe um elo entre essas duas personagens distanciadas temporal e culturalmente; o narrador/ autor identifica-o como um artista de rua que atuou em Nova York e que Hujar pode tê-lo encontrado no Hotel Chelsea, que entre as décadas de 1970 e 1980 se tornou um marco da efervescência pós-punk do East Village. Se o artista de Manhattan vendeu sua imagem para o fotógrafo que eterniza na contorcida pose de quem chupa o dedão do pé não se sabe ao certo, mas o nosso narrador/ autor vende a sua imagem, construída à base de poses contorcidas propositadamente para que luz valorize seus atributos físicos no mercado do sexo. A frieza das relações, o rápido esgotamento dos vínculos, que mesmo nas circunstâncias não monetizadas não querem durar mais que a sustentação do próprio prazer, é talvez o ponto nevrálgico do romance de Chevrier.

Ao longo dos fragmentos que marcam as quatro partes do romance, é imperativo o esvaziamento dos afetos. Não significa dizer a ausência deles, mas a dificuldade de exercê-los plenamente porque os indivíduos encontram-se tomados de uma perspectiva que eles próprios não conseguem lograr. Ainda na primeira parte, uma anotação do narrador/ autor pontua de maneira precisa, sem querer oferecer diagnósticos desse tempo. O leitor permita-me uma tradução livre da passagem seguinte: “No meu caderno, anoto a frequência em que consiste os meus relacionamentos depois de um desengano amoroso. Quando a ruptura com um homem se concretiza, pouco importa o grau do relacionamento, entro no Grindr e encontro alguém em meia hora. Assim que o encontro termina, geralmente fico sozinho, aliviado, saciado de dopamina pelo resto da noite. Depois do contato com outro corpo, penso menos na ruptura. O encontro anterior desparece por algum tempo. E, assim que a sensação de vazio reaparece, abro o Grindr outra vez e procuro o próximo com quem possa me esfregar.” ¹

A precariedade das relações não é produto de uma escolha consciente dos indivíduos, ainda que a observação arrazoada queira apostar na ideia de um homem inteiramente livre e não afetado nos trânsitos amorosos. Ela é parte de uma série de outras instabilidades fabricadas pelo sistema em que os sujeitos se encontram enredados: é singular, nesse sentido, que a própria noção de autonomia experimentada como verdade pelo narrador/ autor seja dependente de uma série de outras variáveis não asseguradas, entre elas, o trabalho e as perspectivas financeiras capazes de ordenar e suster a vida, empurrando os indivíduos como escape à sujeição para a vida virtual nas plataformas Grindr e Giton, esferas que cooptaram a última gota de nossa essência, o desejo e o prazer. 

O caso se complexifica dada a natureza do sujeito; falamos de um homem gay entre um pai para o qual não se assumiu, tampouco resolveu essa ou as pendências afetivas sempre adiadas, e uma mãe que não deixa de carregar certo zelo pelo medo das garras da sociedade, isto é, as circunstâncias mais ou menos universais para todo aquele que não nasceu entre as fronteiras da sabida normatividade sustentada pela sociedade dominante. Este mesmo tipo encontra-se refém das artimanhas forjadas pelos da sua própria comunidade, que transformou o corpo em entidade destituída de sentimentos, máquina contínua desejante e de desejo.

Cabe ainda voltar ao nome da plataforma para encontros sexuais pagos onde o narrador/ autor mantém um dos seus perfis virtuais. No Satiricon, de Petrônio, Giton é o nome de um jovem escravo e efebo inconstante objeto de desejo e de disputas entre Encólpio e Ascilto, frequentemente disputado por outros homens por causa da sua beleza. Essa condição não o faz uma vítima nas diatribes amorosas, porque ele é também o infiel, manipulador, interesseiro, sempre mudando a favor das próprias conveniências. Ora, pelo que observamos, Simon Chevrier não apenas pratica autoconfissão uma vez articular a narrativa aos limites de outras estruturas ficcionais. Ao narrar as aventuras pela vida, Foto no privado reitera algumas das feições do livro de Petrônio, incluindo sua natureza fragmentária. O nosso protagonista encontra-se encalacrado não apenas pela plataforma que age tal qual a personagem clássica, visto oferecer aos usuários uma dinâmica de escravização às suas conveniências; ele também é igualmente escravo dos modelos dominantes — a família, a sociedade e a própria comunidade a que pertence —, objeto de desejo frequentemente disputado pelo capital que corrompe a todos de uma maneira ou de outra. E não é apenas a vítima ou uma vítima, visto que, explora e tira vantagem desse sistema.

Entre a inocência e a provocação, as mesmas qualidades igualmente distinguidas no retratado por Peter Hujar, este romance satisfaz os que querem literatura fácil, o consumo pelo consumo, e provoca aqueles para quem a literatura não serve para ser mero retrato de uma sociedade perdida, seduzida por expressões simplistas ou pelo barateamento das nossas faculdades interrogativas. Finge servir aos maniqueísmos do nosso tempo, enquanto os inquire e antes que esse mesmo mundo o trague de vez prepara uma alternativa radical a ele como se nos dissesse que a consciência está entregue às nossas mãos e cabe usá-la enquanto é tempo e tarde já não é mais tempo.



______
Foto no privado
Simon Chevrier
Alexandre Rabelo (Trad.)
Ercolano, 2026
128 p.


Notas:
1 O romance de Simone Chevrier é traduzido no Brasil por Alexandre Rabelo, como registrado na ficha técnica acima. No entanto, meu contato com o livro, em janeiro de 2026, se deu através do original. 

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