Odisseu e o amor que tudo suporta

Por Juliano Pedro Siqueira 

Marc Chagall, Odisseu e Penélope 



A Odisseia, o grande épico de Homero, nunca esteve tão em evidência quanto nos últimos dias. Isso se deve à extravagante divulgação da adaptação da epopeia para o cinema pelo renomado diretor britânico Christopher Nolan. O longa-metragem tem dividido a opinião do público e da crítica em geral. Muitos o acusam de ter sido desleal ao texto homérico, pois teria fugido em demasia da sua proposta original, da seleção das personagens e até na construção dos cenários.

Independentemente das controvérsias — proposital ou não — que cercam o trabalho do diretor, trata-se apenas de uma adaptação e não de uma tradução fidedigna. Distanciando-me das polêmicas de momento — deixo essa enfadonha tarefa aos críticos de cinema e aos formuladores de opinião —, o épico em voga despertou-me à memória um dos cantos mais brilhantes da Odisseia; quando Odisseu defende sua fidelidade à Penélope diante de Calipso.

O Canto V apresenta Odisseu numa condição de vulnerabilidade diante dos desafios que o distanciavam de Ítaca. Quando o herói naufraga, é resgatado até a Ilha de Ogígia por Calipso. A benevolência da ninfa não é gratuita. Logo ela exige algo precioso do herói, o qual não está disposto a negociar. Detentora de uma beleza estonteante, Calipso usa seus encantos sensuais e dóceis para dissuadir o viajante da sua missão, aprisionando-o, por sete anos, ao seu irresistível amor.

Não apenas Calipso, mas toda a ilha possui uma beleza fulgurante. A exuberância que cinge tanto a ninfa quanto as terras paradisíacas coloca à prova até mesmo as memórias de Odisseu. Ele precisa se posicionar diante das tentadoras ofertas, que incluem juventude, imortalidade e prazeres incontidos. O herói grego vê-se, mais uma vez, desafiado a persistir no seu caminho de regresso ou render-se à ilusão que o envolve. O que parece ser um Éden, cercado de delícias eternas, na verdade oculta a prisão dos sonhos de Odisseu. Sua chegada e permanência na Ilha de Ogígia representam uma espécie de metanoia negativa, cujo caminho é o oposto de seu destino final: Penélope e Ítaca.

Odisseu tem um objetivo para regressar à sua terra natal. Mas não é somente por um trono, pelo prestígio dos seus súditos ou pela glória dos seus feitos em Tróia. Não! O que impele seu coração à luta e à persistência é seu amor por Penélope. Não haveria motivação maior para ter enfrentado o ciclope, as sereias, a fúria dos deuses e até a porção da imortalidade, se não a aliança construída com a sua amada. Ítaca seria apenas mais uma cidade qualquer sem a existência da sua esposa. O palácio seria um sepulcro vazio se nele chegasse e não a encontrasse; ou se já estivesse entregue a outro pretendente. A urgência de retornar à sua terra e assumir o trono é evitar a humilhação de perder Penélope para um indigno e devasso conterrâneo.

O amor, no contexto dos mitos, consegue estabelecer uma linha tênue entre o trágico e a glória. Assim como Odisseu, Eneias resistiu aos encantos de Dido após a morte de Creusa. Ele não se deixou distrair (como as dez virgens imprudentes que, distraídas, perderam a vez quando o noivo as chamou — Mt 25.1-13) pelos atributos da beleza e as promessas de abundante amor. Sansão já não teve a mesma sorte. Caiu ao fio da navalha ao revelar seu segredo mágico a Dalila e terminou como Édipo: exilado, cego e humilhado por filisteus impiedosos. O sagrado e o profano transitam no coração dos mortais — e por que não das divindades —, quando o assunto é amor e desejo, fantasia e realidade. Ora o amor aprisiona com o amargo destino trágico, ora ele liberta, resgatando nas criaturas o senso de realidade que por um momento perderam.

Odisseu carrega em suas reminiscências uma Penélope mortal, que carrega sobre o corpo as marcas do tempo. Lembra-se de sua beleza comum, sem traços divinos. Da mãe que amamentava Telêmaco e que à noite estava pronta para descansar sobre o seu corpo másculo. Seu amor não oferece imortalidade, e tão pouco ilusões, que o amor terreno não consegue sustentar. Com Penélope, não existe fantasia que cegue, mas um amor leve, respeitoso e libertador. Calipso se apoia na beleza angelical, na juventude que exala prazer e na imortalidade que proporciona amor infinito. Mas, ao mesmo tempo, é um amor que aprisiona; que está cingido às regras da infinitude. O mortal que ama precisa vacilar neste amor, pois somente assim vai controlando suas desmedidas. O amor mortal é ambíguo! Já o das ninfas é rígido e inflexível! Não há efeitos do tempo, mas apenas uma entediante contemplação da beleza que nunca se desfaz. Por fim, não há morte; está condenado a existir eternamente.

Penélope só ludibria os pretendentes, porque não lhe restam dúvidas do amor de Odisseu. Cada fio lentamente desfeito nas noites que se rompem faz seu coração bater num compasso contrário; esperançosa de que o veria adentrar pelas portas do palácio para protegê-la de qualquer ameaça. Odisseu tem uma ilha aos seus pés e uma ninfa apaixonada. Prazeres cobiçados pela maioria dos humanos. Mas qual a ilusão que não parece doce aos olhos mortais? Quanto mais tempo se fica exposto às tentações, maiores as distrações e menor o vigor para resisti-las. Essa é a vulnerabilidade a que Odisseu se encontra submetido com Calipso. Os sete anos que perambulou às margens do rio, faz do local o sagrado e onde se conecta mentalmente com Penélope e, por ela, derrama abundante lágrima. 

A pior escravidão é quando envolve o prazer. Pois este fere e arrefece. É como uma chaga que se abre sob o sol do meio-dia e à noite se fecha ao frio sopro da brisa. As delícias do amor são armadilhas em que os mortais voluntariamente se lançam, arruinando tudo em sua volta. O amor por Penélope transcende os louros da guerra. Não importa quantas vidas foram ceifadas através do fio da espada; tudo isso se tornaria vão se não existisse Penélope para testemunhar suas façanhas.

Toda essa admiração recíproca é duramente ameaçada quando a ninfa, incansavelmente, luta pelo coração de Odisseu. Coração que nunca teve dúvidas a quem pertenceu. Após o mensageiro entregar o recado por parte de Zeus, não resta a Calipso outra opção a não ser libertar o amante. A peleja do herói extrapola a capacidade humana. Nada do que fizesse mudaria sua sorte. Seu amor por Penélope o mantinha vivo, mas a sua vida estava ancorada em uma ilha cingida de encantos perigosos. Sem homens e sozinho diante dos encantos da donzela de belas tranças, o guerreiro é apenas mais um mortal fragilizado e sem rumo. Odisseu representou a força do amor na rapsódia V. Muito mais forte que o manejo de uma espada ou da sabedoria divina, o amor o faz suportar todos os infortúnios. Da guerra à promessa da imortalidade; nenhuma das irresistíveis ofertas que o rondou conseguiu abalar o amor por Penélope.  

Inconformada, mas obediente, Calipso ainda tenta lançar a última seta no coração de Odisseu e questiona se era mesmo essa a decisão: voltar para Penélope. Por fim, sua resposta é uma espécie de sacramento do amor, tamanha a beleza poética e o propósito moral, saindo o herói em defesa do seu amor incondicional: 

“Deusa venerada, não fiques irritada contra mim. Sei muito bem que a sensata Penélope, comparada contigo, te é inferior em corpo e beleza; ela é mortal, e tu imortal e não sujeita a envelhecer. Sem embargo, quero e anseio, todos os dias, voltar a casa e ver o dia do regresso. Se um deus deseja ainda que eu naufrague no vinoso mar, a isso me resignarei: pulsa-me no peito um coração paciente. São tantos os males que já tenho suportado, tantos os trabalhos, no mar e na guerra! Venha mais este a juntar-se àqueles!”  

Objetivamente, Odisseu deixa claro que, apesar de não haver comparação entre Penélope e Calipso, seu coração deve fidelidade à sua verdadeira musa, repleta de mortalidade. Este amor que, ao mesmo tempo, pertence a Penélope, mas que se estende tanto por sua casa quanto por sua pátria. O herói também deixa claro que, uma vez forjado pelo árduo trabalho e pelas guerras, está apto a enfrentar mais alguma punição ou contratempo, que porventura os imprevisíveis deuses resolvessem lhe enviar. Odisseu já não teme mais o sofrimento, a dor física, as convulsões marítimas. O que lhe é insuportável é a ideia de nunca mais ver Penélope e sua pátria. 

Aproveitando os holofotes lançados sobre a Odisseia devido à sua recente adaptação para o cinema — mesmo que sua grandeza nunca tenha dependido disso —, é uma oportunidade de ouro para ler, não apenas o Canto V, mas o poema na sua íntegra. Se, por um lado, o amor desmedido provocou a desgraça de Tróia com Helena e Páris; Odisseu e Penélope reconciliam a esperança naquele mundo habituado ao vício de prazeres fáceis e promessas vazias.


Referências

HOMERO. Odisseia. Tradução de Antônio Pinto de Carvalho. São Paulo: Abril Cultural, 1980.

Comentários

AS MAIS LIDAS DA SEMANA

11 Livros que são quase pornografia

Dez poemas e fragmentos de Safo

Com licença poética, a poeta (e a poesia de) Adélia Prado

Boletim Letras 360º #678

A arte de ilustrar Jorge Amado (Parte II)

J. D. Salinger, o escritor ausente

Aquiles e Odisseu: a fórmula memorável e seus ecos futuros