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Louise Glück, poeta crepuscular

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Por John Freeman Louise Glück. Foto: Katherine Wolkoff   Na poesia estadunidense não crescem muitas plantas noturnas. Para cada Emily Dickinson, com seus interiores brocados e sintaxe peculiar, há dez mil poetas ensolarados. Numa nação de extremos, por que existem tão poucas estrelas obscuras? Talvez seja a desconfiança que temos em relação ao pensamento do que não se exterioriza. Ou a hostilidade nos Estados Unidos em relação aos estados mandarins de ser. Seja qual for a razão, por mais de um século, Dickinson ficou sozinho em sua obscuridade laqueada, em sua estranheza, em sua capacidade de virar o mito de cabeça para baixo e nele costurar uma nova linguagem. Até Louise Glück aparecer.   Descarnada, brilhante e intimamente mítica, Glück parece ter despencado para a Terra vindo de um planeta de gelo distante. Algum em que “há uma fissura na alma humana / que não foi construída para pertencer / inteiramente à vida” 1 . Se Dickinson chegou perto da morte, Glück escreve como sua...

Dois ensaios de Louise Glück e um comentário

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Por João Arthur Macieira  William Scott. Sem título , 1970. A persistência da poesia estadunidense   Como coloca Gilles Deleuze, há uma espécie de sonho traído na literatura estadunidense. Sua definição é de uma “sociedade dos camaradas” e seu sentido é a produção de uma linha de fuga para fora dos horizontes europeus constituídos até o século XIX. Quando pensamos numa poesia como a de Walt Whitman, principalmente na construção do narrador de Folhas de Relva , isso é bastante evidente. Também a literatura e o cinema do século XX — os romances de Jack Kerouac ou os filmes de Jim Jamusch — revisitam os temas que essencialmente já estavam lá em Whitman.   Mas o que dizer do século XXI ou mesmo das últimas décadas do século XX? Ainda é possível, depois da tomada de consciência dos Estados Unidos como um império capitalista em franco declínio diante do presente, ler aquelas ideias a sério? Não só as “massas” — se é que ainda pode-se usar esse termo pouco razoável sociologicam...

Louise Glück. Quatro poemas de “Uma vida de aldeia” (2009)

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  Por Pedro Belo Clara     Louise Glück. Foto: arquivo Williams College.       FADIGA   Dorme todo o Inverno. Então, levanta-se, faz a barba – é preciso muito tempo até ficar um homem outra vez, o seu rosto ao espelho surge todo eriçado de cabelos negros.   A terra é agora como uma mulher, aguardando-o. Um grande sentido de esperança – é isso que os une, a ele e a esta mulher.   Agora ele terá de trabalhar todo o dia para provar que merece o que tem. Meio-dia: está cansado, está sedento. Mas, se desistir agora, perderá tudo.   A transpiração que lhe cobre costas e braços é como a própria vida a esvair-se dele, sem nada que a substitua.   Trabalha como um animal, depois como uma máquina, sem a menor réstia de sentimento. Mas a união jamais será quebrada, por muito que agora a terra dê luta, bravia ao calor do Verão –   Ele agacha-se, deixando que a terra lhe escorra entre os dedos.   O Sol põe-se, chega a escuridão. Agor...

Louise Glück, a poesia de um mundo em declínio

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Por Federico Díaz-Granados Louise Glück. Foto: Don Usner    A poesia está em festa. Não é apenas um motivo recorrente para celebrar, mas nestes dias está em festa porque uma das mais destacadas expoentes ganhou o Prêmio Nobel de Literatura. Louise Glück, poeta novaiorquina e herdeira da mais genuína tradição da poesia estadunidense, abandonou a discrição e sobriedade de seus dias para se converter no centro das atenções mundo afora.   Uma vez mais a poesia é protagonista dos primeiros planos dos jornais e é o tema principal de muitas das conversas entre leitores. A Academia Sueca disse que Louise Glück recebe o galardão “por sua inconfundível voz poética que, com beleza austera, torna universal a existência individual”. Uma frase objetiva que define com exatidão uma vocação e uma carreira literária.   Não aparecia nas listas das casas de apostas que todo ano prognosticam os ganhadores, nem no favoritismo das possibilidades vendidas pela mídia, tampouco surpreendeu os...