Escutando os mortos no meio da natureza em Música de mortos suaves, de Ricardo Guilherme Dicke
Por Douglas Sacramento
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| Ricardo Guilherme Dicke. Reprodução |
A literatura, como uma das muitas formas de arte, está inserida num campo de batalhas discursivas. Autores e obras disputam espaço dentro de um cenário editorial cada vez mais competitivo e produtivo, no qual determinadas produções literárias ganham destaque num período e podem ser esquecidas em outro. Logo, entender essa dinâmica faz parte do campo da crítica literária e, assim, muitos pesquisadores têm se dedicado a recuperar autores que sofreram processos de apagamento para trazê-los mais uma vez aos holofotes.
É o caso do pesquisador Rodrigo Simon de Moraes. Em sua tese de doutorado, defendida em 2021, ele estudou a obra do escritor mato-grossense Ricardo Guilherme Dicke. O interesse se construiu após a leitura de entrevistas em que Hilda Hilst o apontava como um dos melhores escritores brasileiros. Como os livros do autor estavam esgotados, Moraes entrou em contato com a filha de Dicke e, a partir desse encontro, viajou para Mato Grosso. Lá descobriu um arquivo com textos inéditos do escritor, material que se tornou objeto de sua pesquisa.
Da tese nasceu a organização de Música de mortos suaves, primeiro livro de contos publicado a partir dos materiais encontrados nesse acervo. Como o próprio organizador explica no prefácio, o que outrora foi classificado como conto foi posteriormente desmentido por Dicke em entrevistas. O escritor afirmava se tratar de novelas e pequenos romances, o que não era do seu feitio, já que tinha apreço por calhamaços, como observa Moraes.
Nascido em Mato Grosso, Dicke viveu parte da juventude no Rio de Janeiro, onde se formou em Filosofia, retornando posteriormente para Cuiabá, e permaneceu nessa cidade até o fim da vida. Estreou na literatura em 1968, com o romance Deus de Caim, vencedor do Prêmio Walmap de Literatura, cujo júri era formado por João Guimarães Rosa, Jorge Amado e Antonio Olinto. Sua obra mais conhecida, Madona dos Páramos, foi reeditada em 2024. Após sua morte, em 2008, o autor caiu num longo ostracismo editorial e crítico, situação que começou a mudar justamente a partir da pesquisa de Rodrigo Simon de Moraes.
Música de mortos suaves reúne catorze contos escritos antes mesmo da publicação do primeiro livro de Dicke, ou seja, antes de 1968. Aqui o leitor encontra narrativas que compartilham alguns elementos recorrentes em sua produção literária. Há uma constante diluição entre realidade e sonho; a natureza está sempre presente, ora como local de ambientação, ora como metáfora do que acontece com as personagens, repercutindo no uso de uma linguagem marcada por muitas imagens que, por vezes, parecem descrições de pinturas. Para além disso, a natureza também se relaciona a grandes questões existenciais humanas; a morte e o erotismo atravessam praticamente todos os contos.
Escutando a música dos mortos na clareira
Ricardo Guilherme Dicke faz um empreendimento elaborado da linguagem. Em seus contos, há sempre uma relação direta com a natureza, por vezes amalgamada à composição das personagens, nunca como elemento acessório, mas complementar à narrativa. No conto que dá título ao livro, por exemplo, narra-se o fim da família de Numa Pompílio Espiridião, que, ao deixar a cidade e ir para o interior, perde os filhos aos poucos. Ao enterrar os corpos da prole no quintal, cada um com uma semente de caju, nasce um pomar de cajueiros. Nessa terra, por onde ninguém passa e esquecida por todos, emerge um som, a música dos mortos. Essa música marca o elo entre vivos e antepassados, ligando o pai aos filhos e à esposa, que também morre naquela terra, como se houvesse uma maldição sobre o lugar.
“Uma noite em que espreitava as sepulturas sob o clarão da lua, aproximou-se e colheu o fruto, pesado e denso como uma hóstia sagrada roubada ao mistério, uma pedra mágica numa carne imantada. Ajoelhado sobre a tumba, comeu-o em silêncio. E ouviu a música que escapava da terra. Só um espirar sutil, como um som de flauta em praia natural. E o fruto tinha gosto de carne, como uma posta mal assada em brasas, um teor ácido que lhe ateou fogo no coração e o fez sentir e conhecer o segredo da sabedoria vã dos homens.” (p. 31)
A natureza evocada também apresenta ao leitor questões caras ao autor. Por muitas vezes, a morte se faz presente nos contos. Quando essa temática aparece, sempre surge com um viés existencialista: a iminência do fim e a angústia de ver o corpo morto do outro, como ocorre nos contos “Vigília” e “A mãe”, nos quais o corpo de mulheres idosas representa, para as personagens, o futuro.
No primeiro conto citado, acompanhamos um homem bêbado que fica preso no necrotério de um cemitério. A vida que ainda pulsa nele, representada na bebedeira, faz contraste com o corpo na maca, esperando sua vez de ser enterrado. O cheiro do vômito se mistura ao cheiro da decomposição que começa a exalar do cadáver e, ao final, resta a certeza de que ele também estará naquele mesmo lugar, assim como sua mãe.
No conto “A mãe”, um filho vela o corpo enfermo da matriarca da família durante o período do Carnaval. O que chama atenção é o desconcerto entre a festa do lado de fora e a iminência da morte. Aqui, ela surge evocada pelo imaginário popular, empunhando sua foice, e o falecimento da mãe é acompanhado pelo fim do entrudo e pela escuridão, representando o sentimento de ausência e de perda para a personagem.
“Apalpou a mãe, estava fria como uma pedra, um cadáver, o coração parado, o corpo rígido, imóvel, toda a estranheza da morte. Ela morrera enquanto ele dormia. Procurou vela e fósforos, nada achou naquela treva que parecia de areia, ele um inseto sob a areia, noite de areias negras, o mundo submerso, areias recobrindo tudo.” (p. 95)
O erótico também está associado a imagens da natureza, em que as sensações do orgasmo e do contato com o corpo de uma mulher são costuradas a um dia de verão na praia. As ondas, o calor e outros elementos são usados como metáforas para a relação sexual, culminando no gozo. O conto “Verão” borra as fronteiras entre o real e o onírico, e o uso desses elementos potencializa essa sensação para quem está lendo:
“Essas mulheres de sexos tapados, as imbecis, me fazem pensar tantas coisas, tantas asneiras. Não sei se haveria um dia de total liberdade em que tudo isso se poderia realizar realmente, em todo o caso, olhemos. As aranhas entre as pernas, se saíssem caminhando, boa coisa, o susto que levariam essas belas. [...] Aranhas sem ereção, essas vulvas, sempre vazias, os cérebros delas só pensam, as vulvas é que deviam pensar por si mesmas, ter seus plebiscitos, suas decisões, gozos aleatórios, por enquanto.” (p. 52)
Se o erótico tem espaço entre os catorze contos reunidos no livro de Dicke, outras experiências transgressoras estão costuradas à narrativa, como as de teor religioso. No conto “Causa e efeito”, acompanhamos a queda física e moral de uma mulher após abortar o filho. Um conto em vertigem que culmina na dilaceração do corpo, podendo ser interpretado como uma forma de representar como a moral cristã e seus discursos de castigo divino recaem sobre o corpo de quem peca. Por outro lado, em “Tríptico de frei Dámaso”, dividido em três partes, o leitor acompanha o embate entre dois freis por uma mulher, num relacionamento vivido às escondidas e que culmina numa batalha sanguinolenta, tendo como troféu a relação amorosa mantida às sombras. Ou seja, são contos que caminham na corda bamba entre moralidade e transgressão, nos quais Deus é acionado para condenar ou para aceitar os erros humanos, tensionando toda uma lógica moderna e cristã.
“Frei Dámaso apertou a carne das ancas, a mão em volta dela, àquela hora não necessitava de camuflagens, todos como que se haviam morrido na cidade, mesmo que aparecesse subitamente alguém, ele não temia nada, a mão aberta deslizou sobre a maciez umedecida dos quadris volumados, tinha a boca seca e o fogo do desejo a consumir e a cegar como uma necessidade após a vitória, percebeu sob o tecido molhado o ritmo secreto que vibrava e estremeceu subitamente sabendo o que era o corpo duma mulher.” (p. 127)
Ricardo Guilherme Dicke escreve de forma soturna e com um lirismo característico, marcado por muitos volteios da linguagem, ergue imagens caleidoscópicas e, por vezes, com uma escrita vertiginosa costura temas tão caros ao literário, conjugando-os ao trabalho cuidadoso com a linguagem literária. A tarefa de organização desses contos por Rodrigo Simon de Moraes salienta a importância da pesquisa no campo da literatura no Brasil, e uma de suas contribuições é dar voz a um autor que estava escondido e apagado do cenário editorial nacional.
Música de mortos suaves é uma grata surpresa. Adentrei uma floresta densa e repleta de ruídos; portanto, leitor, apure os ouvidos para escutar as músicas, os gritos e os gemidos que brotam de todos os lados.
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Música de mortos suaves
Ricardo Guilherme Dicke
Record, 2026
144 p.


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