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Morte em pleno verão, de Yukio Mishima

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Por Eduardo Galeno Mishima por Kishin Shinoyama em A morte de um homem .   Mishima se forma dentro de mim como um autor que, quando leio, sinto um mecanismo sem limites de prazer textual. O seu repertório em descrever e narrar situações humanas é encontrado vastamente nas miúças. Minha introdução na prosa dele, me lembro, foi Vida à venda , algo de insultuoso em relação à vivência do cotidiano, praticado por um jovem, dormente, determinado a se matar por um preço. O livro é quase do fim da existência de Hiraoka — Kimitake Hiraoka é o nome verdadeiro — e excedeu, para mim, justamente nesse apanhado de histórias em que alguns tipos são desenvolvidos. Muitas espécies de jogo narrativo — rítmico, inclusive —, personagens e ideias estão remexendo no que ele escreveu. É um quadrado de exposições, possivelmente vindo através da fusão conceitual da totalidade poética de Mishima, que vai ganhando corpo durante a leitura.   Morte em pleno verão confere uma severidade tremenda, que as...

Confissões de uma máscara, de Yukio Mishima

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Por Sérgio Linard Recentemente a Companhia das Letras anunciou em suas redes sociais que este livro estava retornando para as prateleiras depois de um bom tempo indisponível. Não há uma justificativa por parte da editora para essa decisão agora, nem mesmo uma explicação sobre o porquê de um dia o material ter parado de ser vendido. De todo modo, ganhamos com a oportunidade de conhecermos um dos textos mais elogiados da literatura japonesa, que é repleto de bastante vigor e pujança ainda que possua momentos monotônicos, mas que são muito bem-vindos exatamente por ajudarem a perceber a constância do sentimento de opressão enfrentado. Aquilo que poderia ser uma grande falha ou motivo para abandono da leitura, por exemplo, torna-se fôlego pertinente para a história.   Inicialmente, importa que eu faça aqui o destaque de que não considero a monotonia algo necessariamente ruim. Por muito tempo em nossas vidas é um ritmo único e constante que procuramos, é a estabilidade que almejamos. Ót...

Mishima ou a queda do herói (parte 2)

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Por Julio Tovar Yukio Mishima. Foto: The Asahi Shimbun.   エロース Eros   Este empréstimo aos japoneses da palavra grega ἔρως, pronuncia-se “erosu”, é em Mishima o caminho desfeito que o desejo sexual percorre até atingir o absoluto. Barthes lembra que o corpo, inclusive, é no Japão um sistema de significados às vezes incompreensível para o ocidental e “existe, atua, se mostra, se doa, sem histeria, sem narcisismo, e de acordo com um projeto puramente erótico, embora sutilmente descontínuo…”   Em Mishima, a ideia de perfeição física está melhor relacionada à ideia de tabu e violação dos mais belos personagens: suas figuras desejadas são transcrições de projeções infinitas no físico. Ele até associa “a personalidade robusta” com “músculos fortes, barriga definida e pele dura” em seu ensaio. O escritor e mais tarde político Shintarō Ishihara chegou a recebee um telefonema de Mishima rindo de sua “barriga” em uma foto de férias e oferecendo-lhe “um bom personal trainer”. E...

Mishima ou a queda do herói (parte 1)

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Por Julio Tovar   Viva a morte! Morte aos intelectuais!   (Legionários no ato de Miguel de Unamuno [12 de outubro de 1936] citado em Manuel Aznar Soler, República literária y revolución [1920-1939] , Sevilha, Editorial Renacimiento, 2010, p. 417-418). Yukio Mishima, Tóquio, 1961. Foto: Burt Glinn.   É o ano de 1944. O Japão vive desde 1942 contínuos bombardeios que devastam a ilha de norte a sul. Com cinco milhões de soldados distribuídos entre os territórios conquistados e a metrópole, o país do sol nascente perde uma guerra impossível diante de um colosso de cento e trinta milhões de habitantes. Morte, ruínas e miséria; tríade fatal que revela o pesadelo que foi na realidade o imperialismo dos sonhos do generalato. O recrutamento neste império arruinado do ano 44 acaba de chegar aos nobres adolescentes.   Um deles, chamado Kimitake Hiraoka ( 平 岡 公 威 ), já está na estação de Hoden para fazer seu exame médico. Ele é uma criança magricela, doente, com maçãs do ro...

O suicídio de Yukio Mishima

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Por Xavier Velasco  Violentamente vivo: ainda depois de morto – seu cadáver decapitado e as câmeras sobre como abutres – assim costumava dizer Yukio Mishima. “A maioria dos escritores”, confessou a algum editor, “são apenas normais que se comportam como perturbados, e eu, que me comporto como uma pessoa normal, estou doente da alma”. Raras vezes passou dos 49 quilos. Foi, desde pequeno, motivo de chacota entre os seus: débil, torpe, covarde, pequeno, complexado. E certamente nunca, nem antes nem depois, ameaçou sequer ser semelhante a uma pessoa normal. Mimado pela avó possessiva e doente, perseguido mais tarde por um pai decidido em combater sua devoção crescente pela escrita, o menino Kimitake Hiraoka chegou à adolescência – para, segundo seus detratores, não sair nunca mais daí – para esconder-se por trás do pseudônimo que lhe permitiria converter-se, rápido e impressionantemente, na estrela da literatura: Mishima, Yukio. Se Hitler foi o primeiro rock star da história, ...