Boletim Letras 360º #703

DO EDITOR

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Selma Lagerlöf



LANÇAMENTOS
 
Há muito sem uma obra inédita entre os leitores brasileiros, chegou a vez de conhecer algo a mais de Selma Lagerlöf, a primeira escritora reconhecida com o Prêmio Nobel de Literatura.

Publicado em 1899, A lenda de uma casa senhorial é um livro sensível e inusitado. A narrativa acompanha a trajetória de Gunnar Hede, um estudante de Uppsala que ama acima de tudo a música. Jovem herdeiro e violinista talentoso, Gunnar é acometido por uma sequência de infortúnios que acaba por conduzi-lo à loucura. Após perder a fortuna da família e se dissociar da realidade, o estudante passa a viver como um mercador ambulante. É quando Gunnar conhece Ingrid, personagem que atravessa uma experiência limítrofe entre a vida e a morte, tornando-se figura central numa narrativa de encontros improváveis, sonhos e visões. A partir daí, desenvolve-se uma história de recuperação, memória e transformação pessoal. Mais do que um romance sobre redenção, o livro de Lagerlöf investiga a delicada fronteira entre a razão e a loucura. Aqui, o sobrenatural nunca rompe completamente com o mundo concreto; ao contrário, nasce da própria experiência humana. Cenas oníricas se misturam à vida cotidiana, em uma atmosfera marcada pela natureza, pela música e pelas antigas tradições escandinavas, onde o maravilhoso e o real se entrelaçam. Com sua prosa lírica e profundamente sensível, Selma Lagerlöf constrói uma obra simples e complexa ao mesmo tempo. Romance psicológico, narrativa folclórica e conto moral coexistem em equilíbrio; uma leitura que atravessa épocas e fronteiras. Ao transformar a fragilidade humana em matéria de beleza e encantamento, Lagerlöf reafirma o poder da literatura de iluminar aquilo que há de mais misterioso — e de mais profundamente humano — na experiência de viver. O livro sai pela editora Zain; tradução de Leonardo Pinto Silva e posfácio de Isabdel Machado. Você pode comprar o livro aqui.

Ian McEwan oferece um aguda reflexão do que pode a literatura e as artes diante do apocalipse iminente.

Em 2119, no que restou do mundo após uma catástrofe climática, um professor de literatura parte em busca de um poema perdido de 2014. Sua obsessão não é compreendida pelos jovens: qual é a importância da literatura numa terra devastada? É um questionamento que o mestre britânico Ian McEwan nos provoca em um romance de ideias ousadas. Como a história da literatura é escrita? Em 2014, em um jantar de intelectuais, um poema supostamente brilhante é lido por Francis Blundy em homenagem à sua esposa. No entanto, nenhuma cópia do texto é encontrada, apesar de tudo no século XXI ser registrado digitalmente, de e-mails a mensagens instantâneas privadas — um vasto material que apenas cem anos depois poderá ser acessado. Em 2119, em um mundo alagado e em vias de reconstrução sob um novo modelo, o professor Thomas Metcalfe segue obcecado por encontrar o poema. A jornada de Metcalfe nos leva a reconstruir a vida antes da tragédia global até a descoberta de segredos inconfessáveis. O deslocamento temporal de ficção científica encenado por McEwan, mesclado ao seu estilo realista, perturba pela coragem e o arrojo de suas ideias. Afinal, o que pode a literatura e as artes diante do apocalipse iminente? O que podemos saber sai pela Companhia das Letras; tradução de Jorio Dauster. Você pode comprar o livro aqui.

Anne Carson oferece uma tradução singular da tragédia clássica de Sófocles.

Sem abrir mão da força do original, a escritora canadense assume a liberdade para reinventar ritmos, imagens e vozes, aproximando um dos textos fundadores da literatura ocidental da sensibilidade contemporânea e preservando toda a intensidade do confronto entre a lei do Estado e a consciência individual. A singularidade de Antigonick também está no humor e na ousadia dos comentários intercalados ao longo do texto. Nessa leitura, o luto e a responsabilidade moral de honrar a memória do irmão morto ocupam o centro da tragédia. Creonte, homem da ação e da palavra, é retratado como um tirano brutal e sanguinário, até uma reviravolta final. Há ainda a aparição original do personagem Nick, presente já no título. Figura silenciosa, ele mede as coisas sem jamais deixar o palco. Seu nome evoca tanto o corte, a incisão, quanto o instante decisivo. Assim, com Anne Carson, a tragédia milenar ressurge com radicalidade política e surpreendente invenção poética. Publicação da editora Bazar do Tempo; tradução Julia Raiz. Você pode comprar o livro aqui.

Um dos romances latino-americanos mais marcantes dos últimos anos. Uma história de amor, revolução e redenção que atravessa cinco décadas da história da Venezuela

Quando Stanislavo Atanas abandona uma vida de privilégios para se juntar à guerrilha venezuelana nos anos 1960, acredita estar sacrificando tudo em nome da justiça social. Nas montanhas, conhece Emiliana, uma enfermeira indígena igualmente comprometida com a revolução. Mas uma única decisão mudará para sempre o destino dos dois ― e de gerações que ainda estão por vir. Décadas depois, enquanto a Venezuela mergulha em sucessivas crises políticas e sociais, vidas separadas pelo tempo e pelas circunstâncias voltam a se cruzar. Entre guerrilhas, golpes de Estado, bairros populares de Caracas e os dilemas do exílio, Alejandro Puyana constrói uma narrativa poderosa sobre os custos do idealismo, as consequências de nossas escolhas e a possibilidade de redenção mesmo após os erros mais profundos. Com fôlego épico e personagens inesquecíveis, O gosto da liberdade combina a intensidade dos grandes romances históricos com a intimidade de uma saga familiar. Um retrato comovente da Venezuela contemporânea e uma reflexão universal sobre amor, culpa, esperança e liberdade. Aclamado pela crítica internacional, Alejandro Puyana estreia com um romance ambicioso e profundamente humano, que confirma o surgimento de uma das vozes mais promissoras da literatura latino-americana contemporânea. Com tradução de Lígia Azevedo e prefácio de Keila Vall de la Ville, o livro sai pela Pinard. Você pode comprar o livro aqui.

Com uma arquitetura narrativa rigorosa e profundamente evocativa, livro conduz o leitor por geografias afetivas e físicas que se esfarelam

De uma meia-água em Duque de Caxias prestes a desabar à solidão gelada de uma rodoviária em Curitiba; dos recortes fotográficos da orla carioca nos anos 1980 aos grafites inscritos como cicatrizes nos muros da cidade ― cada conto é um inventário sobre a ausência, o silêncio e as ruínas da memória. Nesta estreia engenhosa, Otavio Leonidio trança o amor, a violência cotidiana e o abandono com uma precisão cirúrgica, mostrando que aquilo que desaparece continua a habitar, de forma obsessiva, o espaço entre as palavras. Os desaparecidos é uma publicação da editora Arte & Letra. Você pode comprar o livro aqui.

Em 1974, quase cinquenta anos antes de ser laureada com o prêmio Nobel de literatura, Annie Ernaux publicava seu primeiro romance, uma incursão visceral pela ficção e espécie de gérmen literário de uma escrita que ficaria cada vez mais contida, se transformando no novo gênero que a consagrou

Em Os armários vazios, uma jovem de vinte anos, Denise Lesur, acaba de realizar um aborto e rememora a trajetória de sua ascensão de classe, escrevendo cada detalhe com as tintas da bile. Filha de donos de um café-mercearia, Ninise, como é chamada pelos pais, se vê dividida entre dois mundos e teme que a gravidez indesejada tenha posto tudo a perder. Para além da crise pessoal, o aborto representa uma mancha no mundo burguês, limpo, ordenado e elegante, no qual Denise conseguira ingressar depois de muitos anos de escolarização e controle de suas maneiras; é um resquício do meio onde cresceu, um cenário repleto de desejo e vulgaridade. Acreditando ter chegado longe, a protagonista disseca o ambiente popular, as palavras, os modos, as diferenças de uma classe e outra, além da vergonha que sente de seus pais. E se os temas podem parecer semelhantes aos de obras posteriores como O acontecimento, O lugar, A vergonha, o que impressiona em Os armários vazios é a linguagem rápida, entrecortada e pulsante, livre de autocensura e que urge em captar todo o vivido para que não seja esquecido, para que a verdade não seja postergada. Nele, tem-se a possibilidade de conhecer Ernaux sem as arestas aparadas. Trata-se da obra que revelou para o mundo o trabalho da autora, o qual, desde então, segue impressionando com todas as suas facetas. Publicação da editora Fósforo; tradução de Mariana Delfini. Você pode comprar o livro aqui.

REEDIÇÕES

A nova casa de Mayombe, romance-chave da obra de Pepetela que ganha nova edição no Brasil.

Na floresta densa do Mayombe, no norte da Angola, um grupo de guerrilheiros combate o colonialismo português. Unidos por um mesmo ideal, eles carregam, porém, diferenças profundas: são homens de origens étnicas, sociais e culturas distintas, marcados por ambições, dúvidas, ressentimentos e sonhos próprios. Ao acompanhar uma missão militar e a vida numa base da guerrilha, Pepetela constrói um retrato sólido da luta de libertação angolana, revelando as contradições humanas que permeiam qualquer projeto revolucionário. A guerra aparece nestas páginas não só como um confronto armado, mas como um contexto de disputas políticas, conflitos de identidade e questionamentos morais. A floresta é transformada em personagem viva, enquanto a revolução emerge como matéria literária de primeira grandeza. Mais de quatro décadas após sua primeira publicação, Mayombe ganha nova edição pela Rua do Sabão e estende o debate sobre uma das obras fundamentais da literatura africana em língua portuguesa. Você pode comprar o livro aqui.

RAPIDINHAS 

Luis Fernando Verissimo inédito. A obra do cronista que passará a ser reeditada pela Alfaguara ganha um novo título em outubro: Crônicas de domingo. O livro reúne uma seleção dos textos que saíram  A nos jornais Estadão e O Globo entre 2016 e 2020.

A flor inversa. É o título do novo romance de Adriana Lisboa anunciado pela escritora para meados de 2027. Sairá também pela editora Alfaguara.

Uma coletânea de Natalia Ginzburg. Contos, poemas e ensaios formam um conjunto de 37 textos reunidos em Uma ausência. O livro é publicado em novembro pela Âyiné com tradução de Julia Scamparini. 

De volta. A 7Letras publica o novo livro do poeta Salgado Maranhão. Em A arte de matar, os versos se voltam para um vasto arco temporal e percorrem o poder, a guerra, a ambição e a morte.

De Murilo Mendes pra Alceu Amoroso Lima. A Edusp publica a correspondência assinada entre o poeta e o crítico. O livro foi organizado por Leandro Garcia Rodrigues.

OBITUÁRIO

Morreu Ieda Lebensztayn 

Crítica literária, pesquisadora e ensaísta, preparadora e revisora de livros Ieda Lebensztayn era Mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada e Doutora em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo. Fez dois pós-doutorados: no Instituto de Estudos Brasileiros, IEB-USP, sobre a correspondência de Graciliano Ramos; e na Biblioteca Brasiliana Mindlin / Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, BBM/FFLCH-USP, a respeito da recepção literária de Machado de Assis. Entre os livros publicados, deixou Graciliano Ramos e a Novidade: o astrônomo do inferno e os meninos impossíveis e Léo Vaz: sorte do estilo na terra dos professores rifados. Organizou, com Thiago Mio Salla, os livros Cangaços, Conversas, O antimodernista, com materiais inéditos de Graciliano Ramos; com Hélio Guimarães, os dois volumes de Escritor por escritor: Machado de Assis segundo seus pares: 1908-1939; 1939-2008; com Fernando Paixão, os dois volumes com a crítica literária de José Paulo Paes voltada para a literatura brasileira; e, com Augusto Massi, Conversas: escritos e entrevistas de Orides Fontela. Trabalhou na preparação e fixação da obra de Graciliano Ramos (Penguin/ Companhia das Letras) e de Orides Fontela (Hedra). Coeditou a Coleção Metabiblioteca com obras de Pero de Magalhães Gandavo, Fernão Cardim, Gabriel Soares de Sousa, José de Alencar, Machado de Assis, Silva Alvarenga, Artur Azevedo, Rui Barbosa, Raul Pompeia e Fernando Pessoa.

DICAS DE LEITURA

1. Apneia, de Esther Faingold (Edições Cosac, 144p.) Uma mulher suspensa entre tempos e lugares diversos, dentro e fora da sanidade, recompõe-se das cinzas enquanto repassa uma série de circunstâncias radicais de sua vida. Você pode comprar o livro aqui

2. A banda na garagem, de Moacyr Scliar (Edelbra, 72p.) Para quem se interessa pela crônica e quer conhecer um pouco das feições do romancista gaúcho nesse gênero. O livro reúne uma seleta de textos do que Scliar publicou entre 2008 e 2010 na Folha de São Paulo. A partir de acontecimentos factuais, ele aponta o seu lado fantástico. Você pode comprar o livro aqui

3. O palácio das duas colinas, de Karim Kattan (Trad. Gabriel Semerene, Ercolano, 224p.) Vozes e imagens que atravessam as paredes de uma casa em decomposição e a vida de Faiçal, um jovem que regressa à Palestina depois da separação do marido e da morte da tia. Você pode comprar o livro aqui

VÍDEOS, VERSOS E OUTRAS PROSAS

Ainda Mario Quintana. O Instituto Moreira Salles aproveitou a passagem do 120º ano do nascimento do poeta e amplia a publicação digital dos seus Cadernos de Literatura Brasileira. A edição dedicada ao gaúcho e que saiu em agosto de 2009 está agora online. O número inclui textos de nomes como Luis Fernando Verissimo, Moacyr Scliar, Carlos Nejar e Fábio Lucas. 

BAÚ DE LETRAS

E, por destacar a escassez dos livros de Selma Lagerlöf publicados no Brasil, relembramos deste texto em que Pedro Fernandes comenta O anel do general. Saiu no Letras em 2018. 

DUAS PALAVRINHAS

Escrever uma história decente é uma conquista tão grandiosa e improvável que não deveríamos nos preocupar com quanto tempo é necessário para isso.

— George Saunders


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