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Num sei português

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Por Pedro Fernandes Um professor de Língua Portuguesa que possui um pingo de curiosidade pergunta no primeiro dia de aula aos seus alunos o porquê de se estudar Português. As respostas dificilmente variam; alguns responderão: “Ora, para aprender a falar!” Outros, “Pra ser gente!” Ainda outros, grande minoria: “Pra aprender a escrever corretamente.” Em seguida ele faz outra pergunta, “O que os alunos acham de estudar Língua Portuguesa?” Aqui as respostas serão quase que unânimes em torno de que Português é ruim, chato. Só perde para Matemática. “Ou não, Matemática é bem mil vezes melhor.” Essa historieta é para que possamos refletir acerca das multicaras do ensino de Língua Materna e os mitos que ainda rondam este ensino. Podemos deduzir de imediato que a situação do ensino de Língua Materna anda de mal a pior; tem-se, inclusive, uma nação insatisfeita com a própria fonte de comunicação e, além disso, incapaz de tomar as rédeas dessa língua e “brincar” com ela, ass...

Dois manuscritos com poemas de Machado de Assis

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A CARIDADE Ela tinha no rosto uma expressão tão calma Como o sono inocente e primeiro de uma alma, Donde não se afastou ainda o olhar de Deus; Uma serena graça, uma graça dos céus, Era-lhe o casto, o brando, o delicado andar, E nas asas da brisa iam-lhe a ondear Sobre o gracioso colo as delicadas tranças. Levava pela mão duas gentis crianças. Ia caminho. A um lado ouve magoado pranto. Parou. E na ansiedade ainda o mesmo encanto Descia-lhe às feições. Procurou. Na calçada À chuva, ao ar, ao sol, despida, abandonada, A infância lacrimosa, a infância desvalida, Pedia leito e pão, amparo, amor, guarida. E tu, ó caridade, ó virgem do Senhor, No amoroso seio as crianças tomaste, E entre beijos - só teus - o pranto lhes secaste Dando-lhes pão, guarida, amparo, leito e amor (De Crisálidas ) QUINZE ANOS* Era uma pobre criança... - Pobre criança, se o eras! - Entre as quinze primaveras De sua vida cansada Nem uma flor de esperança Abria a medo. Eram ...

Mídia e sociedade (desconstruindo o sensacionalismo)

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Por Pedro Fernandes  O artigo   "Mídia, BBB e sociedade" despertou uma outra visão, necessária de ser exposta como inversamente proporcional àquela uma vez escrita. Enquanto afirmava que a mídia televisiva cumpre um papel comedido, estrito ou que ela comporta-se em prol do belo, do sensacionalismo e do espetacular, por isso só, fui levado a enxergar minha própria opinião sobre outro ângulo, a título de aventurar-se ainda mais nesse objeto de análise. Naquele artigo, a posição em que me coloquei foi na de sujeito enquanto ausente do objeto-mídia (em posição externa); aqui, pretendo vestir o avesso e analisá-lo como sujeito imbricado no conjunto de engrenagens que o comporta.   Basta que tomemos como afirmativa a necessidade de unir massas em torno de si em busca do elemento número um, a audiência, para percebermos que todas as emissoras sentem a necessidade de exibir as mesmas coisas, só que do ponto mais dramático, do fulcro, do furo de reportagem, d...

Uivo, de Allen Ginsberg

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Por Pedro Fernandes Ilustração de Eric Drooker para uma edição de Uivo  em HQ Devo retomar no início deste texto uma fala do jornalista, poeta e escritor José de Paiva Rebouças para uma palestra na qual compus mesa ao lado da também poeta Nina Rizzi, isso por ocasião da Feira do Livro de Mossoró deste ano. Depois de ler um poema de Castro Alves, Paiva confessou do inquietamento e de até certa desilusão ou o desafio que determinados poetas impõem para quem lida com a palavra: aquela sensação que padecemos de limitação que se guia pelo entendimento “se alguém escreve uma coisa desse tipo como eu poderei superá-lo ou sobreviver depois disso?”. Essa confissão de Paiva dialoga perfeitamente com muitos dos momentos de leitor que tenho vivido ao longo de minha curta trajetória. E repetiu-se quando, recentemente, dei com um poema de um poeta até então desconhecido para mim, Allen Ginsberg. O poema foi traduzido pelo título de “Uivo” e pode ser lido aqui . Indo para as terras d...

Mídia, BBB e sociedade

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Por Pedro Fernandes Falar sobre a mídia na mídia apresenta-se como algo comedido, estrito. No entanto, não farei uso do comedido e estrito espaço dessa mídia para falar dela; como já está subentendido no "BBB" do título deste texto, levarei em consideração a mídia televisiva para falar sobre ela. Esta se apresenta socialmente como um monstro cibernético daqueles à Spielberg, que ameaça as esferas da produção cultural, arte, literatura, filosofia, ciência etc. E vou mais adiante. A mídia televisiva apresenta-se como sujeito fabricador de sujeitos a seu modo de agir, pensar (?). Não há necessidade de compará-la a uma arma no espaço social, afinal de contas, existe poder maior que entrar em nossa casa, livre e espontaneamente, tomar nossa fala e incutir idéias, modos? A mídia televisiva é algo invisível, silencioso e que detém um poder tamanho que no alto dessa silenciosidade e invisibilidade nos cala, nos cega a tal ponto de nós mesmos afogarmos nossas necessidad...

Ray Bradbury: Fahrenheit 451 não é o que dizem ser

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Por Amy E. Boyle Johnson Quando os prêmios Pulitzer foram entregues em maio de 2007, durante um almoço na Universidade de Columbia, duas menções especiais foram feitas. Uma sobre John Coltrane (que morreu em 1967), a quarta vez que um músico de jazz foi homenageado. A outra foi sobre Ray Bradbury, a primeira vez na história da honraria que um escritor de ficção científica e fantasia foi homenageado. Bradbury, um antigo morador de Los Angeles que leva uma vida cívica ativa e até escreve ao Los Angeles Times cartas sobre seus pontos de vistas do que lhe aflige na sua cidade não compareceu ao evento dizendo que estava sob recomendações médicas de evitar fazer certas viagens. Mas, a verdadeira razão, disse ao LA , tinha menos a ver com as limitações da idade (ele havia feito 82 anos em agosto) do que unicamente com o fato de ir a Columbia fazer acenos com Lee C. Bollinger, reitor da Universidade, e sorrir para uma fotografia. Ele queria fazer um discurso, mas não havia permi...