Os segredos do horror no filme O segredo da cabana

Por Michel Goulart da Silva




O filme O segredo da cabana (2011) apresenta de forma bastante didática um conjunto de arquétipos característicos de um determinado tipo de filmes de terror, os slashers. Nesses filmes, é comum que um misterioso assassino persiga e mate um conjunto de pessoas, em grande medida jovens, podendo ser uma força sobrenatural ou não. Os crimes podem ocorrer em diferentes lugares, ainda que sejam frequentes os assassinatos que ocorrem em lugares distantes, como em florestas.
 
Essa cinematografia dominou por décadas o mercado de filmes de horror, se exaurindo em intermináveis e repetitivas franquias, entre as quais Halloween, Sexta-feira 13, A hora do pesadelo e O massacre da serra elétrica. Como resposta ao esgotamento dessa cinematografia, foram realizadas reflexões que se utilizaram da metalinguagem, como a franquia Pânico e o filme O segredo da cabana.

No filme de Drew Goddard um grupo de jovens vai passar alguns dias em uma cabana reclusa, em uma floresta. Logo depois de sua chegada, em uma sequência cheia de ironias aos estereótipos dos filmes slasher, é liberada um tipo de força sobrenatural que, ao longo do filme, vai provocando a morte do grupo. Em paralelo, mostra-se que esses jovens estão em um tipo de reality show, sendo manipulados no caminho da morte por uma espécie de sociedade secreta que controla o programa. O objetivo de tudo isso é fazer um sacrifício cerimonial, que envolve a morte desses jovens.

O filme explora a ideia de arquétipos, atribuindo um significado simbólico a cada um dos personagens, seguindo os passos de estudos acerca de uma certa universalidade nas narrativas escrita ao longo dos séculos. Essas reflexões foram tema de investigação de diversos autores, em grande medida balizando, nas últimas décadas, as produções cinematográficas. 

Em 1949, Joseph Campbell, tendo como objeto de análise o que poderia ser denominado de “mitos ocidentais”, desenvolveu um estudo sobre os arquétipos, desenvolvendo a ideia de “jornada do herói”. Segundo esse escritor, “a aventura do herói costuma seguir o padrão da unidade nuclear”, marcado por “um afastamento do mundo, uma penetração em alguma fonte de poder e um retorno que enriquece a vida” (p. 39-40). 

Campbell partiu de ideias sobre arquétipos e inconsciente coletivo desenvolvidas pelo psicanalista C. G. Jung. Em 1934, Jung afirmava: “O arquétipo representa essencialmente um conteúdo inconsciente, o qual se modifica através de sua conscientização e percepção, assumindo matizes que variam de acordo com a consciência individual na qual se manifesta” (p. 14). Em 1936, o psiquiatra afirmava que o conceito de arquétipo “indica a existência de determinadas formas na psique, que estão presentes em todo tempo e em todo lugar” (p. 51-2).

Décadas depois, Cristopher Vogler traduziu as ideias de Campbell para o cinema, publicando o livro A jornada do escritor, em 1992. Nessa obra, o autor analisa os arquétipos em sua relação com o cinema produzido em Hollywood, afirmando: “Os mesmos tipos de personagens parecem ocorrer em escala pessoal e coletiva. Os arquétipos permanecem incrivelmente constantes com o passar do tempo e das culturas, nos sonhos e personalidades de indivíduos e na imaginação mítica do mundo inteiro” (p. 62).

O cinema de horror produziu, ao longo de sua história, um conjunto de arquétipos, ou seja, figuras que se repetem em diferentes produções, como ocorre nos slashers. No caso do filme O segredo da cabana cinco personagens representam tais funções encontradas nesse gênero cinematográfico: a Prostituta, o Tolo, o Atleta, o Erudito e a Virgem. Esses arquétipos estruturam a narrativa, mostrando características dos personagens que orientam suas escolhas e ações. Em certo momento do filme, eles são assim definidos: “Deve haver pelo menos cinco. A Prostituta. Ela é corrompida. Ela morre primeiro. O Atleta. O Erudito. O Tonto. Todos sofrem e morrem nas mãos do horror que eles escolheram, deixando a última para o destino decidir se vive ou morre. A Virgem”.

Embora talvez os termos utilizados para definir os arquétipos não sejam precisos, afinal uma das garotas não precisa ser exatamente uma prostituta nem a virgem necessariamente uma garota que nunca manteve relações sexuais, a ideia do filme passa justamente por mostrar caricaturas exageradas que encontram referência nas produções slashers. Em Sexta-feira (1980), a protagonista Alice é apresentada como uma garota quase frígida, enquanto Marcie, outra figura, é morta pouco depois de fazer sexo. Em Halloween (1978), uma das cenas de destaque tem a protagonista Laurie ao telefone, ouvindo gritos de sua amiga Lynda do outro lado da linha sendo morta, supondo que na realidade seriam gemidos provocados por uma relação sexual.

Entre esses arquétipos, que expressam os principais elementos de numerosos personagens dos filmes de horror, talvez o mais importante seja o da Virgem, que determina as características da final girl. Esse personagem possui qualidades morais que lhe garantem a sobrevivência, ou seja, a morte dos demais personagens é uma punição por conta de seu comportamento, como uso de drogas ou um certo hedonismo sexual. Ela é a garota que conseguiu se manter afastada do comportamento reprovado socialmente dos amigos e, por isso, merece se manter viva.

Segundo a hipótese apresentada em O segredo da cabana, a Virgem necessariamente precisa ser a última a sobreviver. Um dos produtores do programa afirma que “a morte da virgem é opcional, contanto que ela seja a última. O principal é ela sofrer”. Ela precisa assistir à morte de seus amigos, vivendo uma história em que consegue fugir da maior parte das situações de perigo a que é submetida. Cabe lembrar Campbell, quando afirma que “o percurso padrão da aventura mitológica do herói é uma magnificação da fórmula representada nos rituais de passagem” (p. 36).

No que se refere ao comportamento sexual, a Virgem pode ser considerada como o oposto da Prostituta. Uma é tímida, mantém uma relação de afastamento em relação ao sexo e quase sempre esconde seu corpo. Quanto à Prostituta, expressa uma sexualidade exacerbada, exibindo o corpo e se envolvendo com sexo. Nessa dicotomia simplória, o sexo é punido e o recato é o motivo que pode levar à sobrevivência. Por conseguinte, ao viver a experiência de ver seus amigos serem punidos, a final girl carrega para si a mensagem de que não deve cometer os mesmos erros. Nesses filmes, o sexo casual, apresentado como uma perigosa prática de juventude, leva à condenação das pessoas que o praticam.

Pela regra apresentada no filme de Drew Goddard, a Prostituta deve ser a primeira (ou uma das primeiras) a morrer, criando na narrativa um contraponto com a final girl. Sua morte tem como particularidade o fato de estar diretamente relacionada ao ato sexual, podendo ocorrer inclusive durante o coito. Em O segredo da cabana, Jules, a Prostituta, e Curt, o Atleta, são atacados por um grupo de zumbis, enquanto fazem sexo. Jules é morta cruelmente, mas Curt consegue escapar. Nos filmes clássicos, Lynda e Marcie são mortas pouco depois do enlace sexual.

Os demais arquétipos servem para complementar a narrativa. O Atleta, em uma tentativa estúpida de coragem, se expõe a um perigo extremo e acaba provocando a própria morte. O Idiota é uma pessoa considerada desequilibrada por enxergar coisas que passam despercebidas pelos demais. O Erudito mantém a calma e é racional, em todas as situações. Mas essa calma coloca todos em risco, afinal seu discurso racional faz com que as pessoas sejam convencidas de que não há nada perigoso ou mesmo sobrenatural acontecendo.

Embora apresente todos esses arquétipos, a base da narrativa do filme em destaque passa por subverter essa lógica. Aqui, o Idiota não apenas é o primeiro a perceber os riscos da situação como consegue escapar da morte. O Atleta é uma pessoa inteligente, que entende de temas acadêmicos complexos, não se resumindo a uma montanha de músculos. O Erudito, diante de uma situação de tensão, se mostra alguém não muito inteligente. E a personagem que representa a Virgem é uma jovem que manteve um caso com um professor, enquanto, em comparação, a Prostituta mantém um relacionamento sólido e feliz com o namorado. Inclusive, quando é explicado seu papel na trama, a própria Virgem ironiza sua condição de virgindade.

O filme mostrou, naquele momento, de forma irônica, como estavam exauridos os esquemas que vinham sendo utilizados nos roteiros dos slashers, além de desnudar o conservadorismo que permeia essas histórias. Os slashers filmes têm uma mensagem moralizante, contra o consumo de drogas e o sexo, além de indicar que os jovens não deveriam se afastar de suas famílias. Poucos anos antes, o primeiro filme da franquia Pânico fez um exercício de reflexão parecido, tendo como objetivo construir uma narrativa metafílmica acerca dos problemas do gênero.

No caso de O segredo da cabana, trata-se de um filme que procurou mostrar a necessidade de renovação do horror. Os roteiros, em sua maioria, estavam se exaurindo na repetição e falta de criatividade, e ter um filme que ridicularizava isso certamente foi uma forma de fazer com que se parasse para pensar que era preciso construir novos rumos. O recado foi recebido e, nos anos seguintes, algumas obras deram um novo fôlego ao horror, não apenas superando a falta de criatividade no uso dos arquétipos, como apresentado melhores roteiros e produções.


Referências

Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Tradução de Adail Ubirajara Sobral. São Paulo: Cultrix; Pensamento, 2007.
Jung, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Tradução de Maria Luiza Appy e Dora Mariana R. Ferreira da Silva. 11 ed. Petrópolis: Vozes, 2014.
Vogler, Christopher. A jornada do escritor: estrutura mítica para escritores. Tradução de Petê Rissatti e Isadora Prospero. 3 ed. São Paulo: Aleph, 2015. 

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