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Um copo de cólera, de Aluízio Abranches

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Por Pedro Fernandes Em cena Julia Lemmertz e Alexandre Borges os grandes protagonistas de Um copo de cólera Este é o primeiro trabalho de Aluízio Abranches para o cinema. O filme é uma transposição – até certo ponto fiel – do livro homônimo de Raduan Nassar, uma novela escrita no calor de 15 dias seguidos em 1978. O autor só publicaria este trabalho e o romance Lavoura arcaica e largaria a carreira literária. Como neste romance, o enredo de Um copo de cólera não chega a ter elevado grau de complexidade: em cena, um ex-ativista que constrói um mundo à parte numa chácara nos arredores de São Paulo vive um caso de amor com uma jornalista politizada. Depois de uma intensa noite num dos encontros entre os dois, ele descobre na cerca viva de seu terreno um buraco feito por formigas saúvas. Isso é o suficiente para um desentendimento e uma briga entre os dois. Tudo extrapola os limites do romantismo e do sensualismo da noite anterior. Aluízio Abranches consegue demarcar a...

Dalton Trevisan

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Dalton Trevisan. A foto é uma das últimas feitas do escritor que escolheu a reclusão como lugar estético. Em 2012, o Prêmio Camões, o maior reconhecimento para um escritor de língua portuguesa, alcançou novamente alguém da literatura brasileira  —  deste lado, um quase desconhecido do grande público não fosse certo interesse despertado pelo ambiente acadêmico desde a abertura febril para com as produções contemporâneas ou aquelas, de alguma maneira, continuadoras das aberturas propiciadas pelas literaturas de início do século XX.  Até a 24ª edição, o Camões, que foi instituído por Portugal e Brasil, distinguiu escritores como Miguel Torga, o primeiro a receber o prêmio, José Craveirinha, Vergílio Ferreira, José Saramago, Pepetela, Sophia de Mello Breyner Andresen, Eugénio de Andrade, Agustina Bessa-Luís, António Lobo Antunes, Arménio Ferreira. Dos brasileiros, ganharam o poeta João Cabral de Melo Neto, Rachel de Queiroz, Jorge Amado, Antonio Candido, Rubem Fonseca, Ly...

O Leopardo, Luchino Visconti

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Decadência da aristocracia e ascensão da burguesia na visão de nobre comunista marcam refinado épico Nascido em uma das famílias mais ricas da Itália, Luchino Visconti começou a carreira virando as costas para o berço aristocrático e abraçando sua grande paixão, a causa comunista. Seus primeiros títulos, primeiros dentro do movimento neo-realista italiano, possuem muitos dos ideais marxistas e exploram as dificuldades e os sonhos das classes baixas e operárias, caso de Obsessão (de 1942, adaptação não-creditada de O Destino Bate à sua Porta , livro policial de James M. Cain), Belíssima (1951) e, notadamente, A Terra Treme (1948). Com Sedução da Carne (1954), o cineasta começa a voltar seu olhar para a nobreza. Após Rocco e seus Irmãos (1960), um retorno tardio à influência neo-realista, parte de vez para o estudo da aristocracia com O Leopardo , baseado num romance do siciliano Giuseppe Tomasi Lampedusa. Na metade do século 19, o príncipe Don Fabrizio Salina (o american...

Era uma vez em Tóquio, de Yasujiro Ozu

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Na invasão da cultura oriental pela ocidental, sai ganhando a câmera fixa e contemplativa deste filme familiar Yasujiro Ozu é considerado um dos maiores nomes da história do cinema japonês. Começou a carreira de mais de 50 filmes em 1929, rodando comédias muito semelhantes às feitas em Hollywood naquele momento, A segunda fase de sua obra é a que mais tem destaque, quando, no pós-Segunda Guerra Mundial, o cineasta radicaliza sua estética e afunila o tema que será, a partir de então, tratado em sua obra. Grosso modo, as histórias partem do cotidiano de famílias japonesas para falar de assuntos como juventude e velhice, vida e morte e, sobretudo, a tensão entre tradição e modernidade (a pauta do Japão invadido pela cultura ocidental dos vencedores da guerra, no caso, os Estados Unidos). Esses assuntos serão mostrados com a câmera rigorosamente fixa e baixa, e os diálogos filmados com os atores de frente para a câmera, alterando-se entre um e outro com cortes secos. Uma gramática...

Uma lista de autobiografias indispensáveis (Parte 2)

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Motivados pela aparição da trilogia autobiográfica de Máksim Górki, modelamos uma lista, extensa por sinal, de alguns livros do gênero que consideramos indispensáveis ao leitor interessado. Na primeira parte, escrevemos livros de Gabriel García Márquez, Doris Lessing, J. M. Coetzee, Philip Roth e Simone de Beauvoir, além, é claro do escritor russo, nosso ponto de partida. Hoje acrescentamos a este rol outros importantes textos de importantes escritores e com destaque para alguns nomes da literatura brasileira, afinal se a França teve um Marcel Proust, por aqui tivemos um Pedro Nava, não raras vezes lido como um Proust dos trópicos. Vamos aos títulos. E nunca é demais lembrar que este não é um ranking e não é uma lista definitiva. As sinopses, grande parte, foram copiadas a partir dos resumos oferecidos nos sites das editoras responsáveis pela edição das obras no Brasil. Gertrude Stein e Alice B. Toklas 1. Autobiografia de Alice B. Toklas , de Gertrude Stein: publicada...

Emily Dickinson por Ana Cristina Cesar

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2 de junho assinala a passagem do aniversário da poeta brasileira Ana Cristina Cesar . Abaixo, por essa ocasião, relembramos um texto crítico seu sobre a obra da poeta estadunidense Emily Dickinson mais um conjunto de poemas traduzidos pela própria Ana C. Este texto é uma cópia do que foi publicado no caderno Folhetim , de 06 de novembro de 1983. Ao lado de Walt Whitman, Emily Dickinson é o grande nome da poesia norte-americana do século 19. Seus nomes sugerem um contraponto que raia a simetria dos opostos. A exuberância, o excesso, a retórica desmedida da voz de Whitman, cujo imenso épico Leaves of Grass canta o desejo eufórico de mapear a terra americana e jogar-se nos braços do leitor - em oposição à tensão crítica e à secura dos poemas lacônicos de Emily, sua voz baixa que fala da morte sem drama e da renúncia sem lamento. O contraponto pode ser desdobrado quando se pensa nos dois personagens que a imaginação desejaria biografar: Whitman todo exterioridade, peregrino e ...