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Contra a ignorância, ler

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Já tantas vezes alguém terá repetido o entendimento de que um povo sem cultura está com os dois pés atolados na barbárie. Em tempos de ócio, como os que vivemos hoje, para pensar tal qual Domenico Masi, é mais perigoso ainda, porque, vou me repetir agora pela via do popular, mente vazia é oficina do diabo – não exumando, claro está, essa criatura vítima da ambição divina, coisa para se discutir noutra ocasião. O que salvará a humanidades nesse estágio de crise, e volto ainda uma vez mais ao Masi, pode ser que seja a criatividade, uma palavrinha que tem dominado e muito todos os cenários sociais. Parece óbvio que também um povo sem cultura é um povo sem criatividade e vice-versa. Os dois termos têm forte relação de interdependência. Sem os dois estamos condenados à ignorância – um elemento da barbárie ou quem sabe a própria barbárie em seu estado mais alto. Mas, tudo isso que digo aqui é para tratar de alguns mal entendidos que têm tomado forma ao redor do mundo; não faz tanto...

Stefan Zweig: a vertiginosa épica do sentimento

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Por Luis Fernando Moreno Claros Stefan Zweig, Salzburgo, 1931. O dia 22 de fevereiro de 2012 completou setenta anos do suicídio do escritor austríaco de ascendência judia Stefan Zweig (1881-1942); exilado no Brasil, ingeriu uma forte dose de ácido barbitúrico junto com sua segunda companheira, Lotte Altmann. Ela estava enferma e com escassa possibilidade de cura; e ele, aos sessenta anos, padecia de uma crise de depressão e exaustão depois de deambular de um país para outro, sem casa, privado de sua fabulosa biblioteca salzburguesa, e sem sossego para trabalhar. Sofria de pessimismo e angústia pelo destino da Europa que tanto havia amado: em 1942 Hitler parecia invencível. Zweig não queria seguir vivendo com a perspectiva de que seu velho mundo de cultura e liberdade se desmoronara levando consigo o humanismo dos bons europeus, aquelas ideias que defendiam os democratas que eram abatidas pelos nazistas. Stefan Zweig era um escritor Best-Seller cujas obras já estavam tr...

Fernando Namora

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Fernando Namora. Foto da década de 1960. A particularidade de Fernando Namora nas literaturas de língua portuguesa é sua pluralidade de escritas, a vasta obra deixada e a capacidade de trânsito entre o erudito e popular, pelo número de aceitações de seus livros. Teolinda Gersão lembra bem em depoimento a um programa para a TV portuguesa que Namora esteve na lista dos Best-seller em Portugal e com a radical diferença dentre os livros do tipo: é que a literatura do escritor português é ‘sadia’ esteticamente e, por isso mesmo, objeto artístico de grandeza significativa. Toda a vasta obra e os trânsito entre gêneros desenhado pelo escritor talvez seja o resultado de alguém que teve na vida duas tarefas às quais se dedicou com afinco: a medicina e a escrita. Num depoimento de José Saramago, em que o escritor lembra os vários encontros com o autor de Nome para uma casa , livro de poesia, um dos gêneros cultivados por ele, comenta a forma com que se entretinha: “Bater-lhe à porta, in...

O desastre das readaptações dos contos de fadas para as telas

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Salvam-se a beleza dos atores, o bum-bum dos efeitos especiais; perde-se o telespectador com uma historieta sem pé nem cabeça, mas o que fazer se o que Hollywood quer é impressionar? Imagem: cena de João e Maria  - caçadores de Bruxas Não é de hoje que Hollywood tem descoberto o poder cinematográfico dos contos de fadas. Tanto que não será exagero dizer que este se constitui numa das linhas de montagem de filmes. Tem seus altos e baixos, vão e voltam. E, agora voltaram mais renovados e deturpados que nunca; se antes alguém já brigava pela infidelidade da adaptação, ir ao cinema para ver as novas produções é, praticamente, para ter taquicardia. Tão logo quando foram para as telas o grau de suplantação dos contos originais se guiava pelo estilo a Walt Disney, com príncipes moiçolas de olhos azuis e mocinhas indefesas e submissas. Agora, a onda se guia pela sombra gratuita dos filmes baratos de vampiragem a Amanhecer & Cia. Evidente que o cinema mudou e seus propósito...

Django livre, de Quentin Tarantino

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Por Pedro Fernandes Quem já se deparou com Quentin Tarantino em empreitadas como Kill Bill e com Bastardos inglórios – para ficar em duas produções recentes do diretor – verá que, dos três filmes para cá ( Kill Bill foram dois filmes) ele muito tem aperfeiçoado seu estilo e permanece seduzido por alguns exageros. A prova ainda pode ser tirada com a chegada aos cinemas, agora em 2013, de Django livre , que, no meu curto entendimento vai entrando para lista das boas surpresas do ano. Quando comentei por aqui sobre A viagem não lembro ter dito que este filme era um filme para ser revisto; se não tiver dito, aproveito a ocasião para, ao concordar que Django deve ser um filme para ser revisto, dizer; e já vão duas reprises necessárias. Em Django livre , Quentin Tarantino se apropria do fato e um dos mais vergonhosos da história, a escravidão, e num misto de faroeste sem deserto, produz uma narrativa, já no seu tradicional modo de narrar que ocupa três movimentos: a prisão ...

Callado e a “vocação empenhada” do romance brasileiro

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Por Ligia Chiappini Embora se alimente de episódios quase coetâneos, muitos deles tratados em reportagens pelo autor, a ficção de Antonio Callado transcende o fato para sondar a verdade, por uma interpretação ousada, irreverente e atual. E consegue tratar de forma nova um velho problema da literatura brasileira: sua "vocação empenhada", para usar a expressão consagrada de Antonio Candido. Uma ficção que pretende servir ao conhecimento à descoberta do país. Mas o resgate dessa tradição do romance empenhado ou engajado se realiza aqui com um refinamento que não compromete a comunicação e com um caráter documental que não perde de vista a complexidade da vida e da literatura. Busca difícil, que termina dando uma obra desigual, mas, por isso mesmo, interessante e rica.  O jornalismo e suas viagens proporcionam ao escritor experiências das mais cosmopolitas às mais regionais e provincianas. A experiência decisiva do jovem intelectual, adaptado à vida londrina, a quase...