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Um novo olhar

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por Renato Janine Ribeiro * A miséria é um tema novo, no século XIX. Como realidade, é bem antiga, mas a novidade é ela se tornar tema, isto é, aparecer como algo que causa escândalo e que, dizem cada vez mais romancistas e cientistas sociais, pode - e deve - ser superado. Luís XIV, conforme alguns historiadores, estava consciente da miséria que grassava em seu reino, na segunda metade do século XVII; isso não o impedia de prodigar luxo, a si mesmo e a seus próximos; simplesmente, não acreditava que pudesse fazer o que quer que fosse contra a pobreza. Mas o tempos mudaram. A principal causa da mudança está talvez nas enormes migrações do campo para a cidade, que marcaram esse período de guerras e de industrialização, que foi o começo do século XIX, deslocando gigantescos contingentes de homens e mulheres. Estes deixavam o campo, no qual tinham um certo endereço, onde, embora vivessem em condições modestas, dificilmente lhes faltava moradia (ainda que o mesmo nem sempre se pudesse d...

Victor Hugo

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Com a chegada aos cinemas de Os miseráveis reencenação musical do clássico romance de Victor Hugo e com a chegada às livrarias de uma nova reimpressão da obra pela Cosac Naify é natural que se desperte entre os leitores e não-leitores o interesse por saber quem foi o escritor e se afinal de contas o livro tem um ‘acesso’ fácil. Antecipamos, logo, que não. Se por ‘acesso’ estiver se levando em consideração a leitura da obra, não tem um acesso fácil. A edição compacta (mas integral) que citamos, por exemplo, tem mais 1900 páginas. Pertence, portanto, ao que podemos chamar de era de ouro do romance. Trabalho até para os viciados em leitura. Não vamos fazer um especial sobre o escritor francês e seu grande romance, mas até que chegue quinta-feira, quando iremos postar notas sobre o filme dirigido por Tom Hooper, vamos percorrer em dois textos, alguns elementos fundamentais para a compreensão d’ Os miseráveis . Para hoje, recortamos um texto da professora Maria Cecília de Moraes Pinto, e...

Os desenhos de Federico García Lorca

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Foi ao acaso, num nesses passeios despretensiosos pela web , que achamos um verdadeiro inventário gráfico e poético de Federico García Lorca: um conjunto de desenhos descritos pela Corinna Archer (o lugar de origem dessa descoberta) como atestado da face artística do poeta. Quem já leu parte da obra de Lorca entenderá como não seria difícil para o autor saltar da matéria verbal para a laboração visual. Sua obra é, como já lembrou a crítica, visceralmente imagética. Sabe-se que García Lorca começou a traçar os primeiros rabiscos de caricaturas ainda na escola em Granada; era em geral aqueles desenhos mal formados que damos a criar nos intervalos de ócio das aulas ou durante a falta de apetência para determinada matéria. Eram caricaturas de professores e amigos da escola.  A partir do passatempo, talvez seduzido pela ideia de materializar o visto e o imaginado através da imagem, Lorca se dedicou ao desenho como se um ofício por toda a vida; explorou diversas possibilidades ...

Contra a ignorância, ler

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Já tantas vezes alguém terá repetido o entendimento de que um povo sem cultura está com os dois pés atolados na barbárie. Em tempos de ócio, como os que vivemos hoje, para pensar tal qual Domenico Masi, é mais perigoso ainda, porque, vou me repetir agora pela via do popular, mente vazia é oficina do diabo – não exumando, claro está, essa criatura vítima da ambição divina, coisa para se discutir noutra ocasião. O que salvará a humanidades nesse estágio de crise, e volto ainda uma vez mais ao Masi, pode ser que seja a criatividade, uma palavrinha que tem dominado e muito todos os cenários sociais. Parece óbvio que também um povo sem cultura é um povo sem criatividade e vice-versa. Os dois termos têm forte relação de interdependência. Sem os dois estamos condenados à ignorância – um elemento da barbárie ou quem sabe a própria barbárie em seu estado mais alto. Mas, tudo isso que digo aqui é para tratar de alguns mal entendidos que têm tomado forma ao redor do mundo; não faz tanto...

Stefan Zweig: a vertiginosa épica do sentimento

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Por Luis Fernando Moreno Claros Stefan Zweig, Salzburgo, 1931. O dia 22 de fevereiro de 2012 completou setenta anos do suicídio do escritor austríaco de ascendência judia Stefan Zweig (1881-1942); exilado no Brasil, ingeriu uma forte dose de ácido barbitúrico junto com sua segunda companheira, Lotte Altmann. Ela estava enferma e com escassa possibilidade de cura; e ele, aos sessenta anos, padecia de uma crise de depressão e exaustão depois de deambular de um país para outro, sem casa, privado de sua fabulosa biblioteca salzburguesa, e sem sossego para trabalhar. Sofria de pessimismo e angústia pelo destino da Europa que tanto havia amado: em 1942 Hitler parecia invencível. Zweig não queria seguir vivendo com a perspectiva de que seu velho mundo de cultura e liberdade se desmoronara levando consigo o humanismo dos bons europeus, aquelas ideias que defendiam os democratas que eram abatidas pelos nazistas. Stefan Zweig era um escritor Best-Seller cujas obras já estavam tr...

Fernando Namora

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Fernando Namora. Foto da década de 1960. A particularidade de Fernando Namora nas literaturas de língua portuguesa é sua pluralidade de escritas, a vasta obra deixada e a capacidade de trânsito entre o erudito e popular, pelo número de aceitações de seus livros. Teolinda Gersão lembra bem em depoimento a um programa para a TV portuguesa que Namora esteve na lista dos Best-seller em Portugal e com a radical diferença dentre os livros do tipo: é que a literatura do escritor português é ‘sadia’ esteticamente e, por isso mesmo, objeto artístico de grandeza significativa. Toda a vasta obra e os trânsito entre gêneros desenhado pelo escritor talvez seja o resultado de alguém que teve na vida duas tarefas às quais se dedicou com afinco: a medicina e a escrita. Num depoimento de José Saramago, em que o escritor lembra os vários encontros com o autor de Nome para uma casa , livro de poesia, um dos gêneros cultivados por ele, comenta a forma com que se entretinha: “Bater-lhe à porta, in...