Por que há cada vez menos sexo nos romances?

Por Javier Pérez

Ilustração de A Book of Roxburghe Ballads
 

Alguns artigos precisam começar com uma fórmula ritualística, como se estivéssemos prestes a invocar nada menos que o próprio diabo. Assim vamos: há um pouco de tudo. Em quase todas as épocas, romances são escritos com mais ou menos sexo, com mais ou menos violência, e como o número de títulos publicados é astronômico, para cada dez exemplos que eu dou em uma direção, você pode encontrar outros dez que contradizem a tese. Há um pouco de tudo, e não se pode generalizar. Fique isso dito, e os cascos do bode já estão aparecendo atrás do teclado. Parece funcionar.

Minha tese, no entanto, é que na literatura atual há menos sexo, e um sexo mais contido, do que na das últimas décadas. Minha experiência também indica que os editores estão cada vez mais inclinados a solicitar a remoção de certas cenas ou a torná-las mais “refinadas”, suprimindo alusões genitais explícitas, pedindo que se escreva carícias em botões rosados em vez de clitóris e mamilos, e outras delicadezas do gênero. Hoje em dia, raramente é preciso contar mãos e pés em uma cena para perceber que um erro de cálculo não levou você a ler, ou escrever, uma cena de sexo alienígena com membros extras, porque antes que você chegue a esse ponto, eles o alertam, pedindo que você freie a narrativa e se concentre nos olhares, no que eles, e especialmente as mulheres, estão pensando antes e durante o ato. A supressão do julgamento moral na literatura deu lugar a uma avaliação constante da consciência com que a história é narrada, à busca quase obsessiva pelo centro de gravidade moral da história e suas implicações sociais. Ou seja, seu valor como propaganda ou instrumento de engenharia social. Quando tudo se resume a aumentar a conscientização, a visibilidade ou a sensibilidade, cada série e cada livro contam, e nenhuma ponta solta pode ser deixada sem amarrar.

Para o bem ou para o mal, em nossa sociedade, o estilo de Pietro Aretino, o Flagelo dos Príncipes, já não está em voga, nem a crueza selvagem do Marquês de Sade, ou a vulgaridade hilariante de Apollinaire em seu suculento As onze mil varas, com aqueles versos inesquecíveis:

Le cul 
d’Omphale 
Vaincu s’affale 

—Sens-tu 
mon phalle 
aigu? 
—Quel mâle!… 

Le chien 
me crève!… 
Quel rêve!… 

Tiens bien! 
Hercule 
l’encule. 

E não, não vou traduzi-los, se alguém esperava uma nota de rodapé ou algo similar.

Quanto a publicar uma obra-prima como Lolita, de Vladimir Nabokov, hoje em dia, é melhor nem sonhar com isso, não é? O autor, o editor e até mesmo o fabricante da imprensa que praticarem tal afronta à moral nacional, como diria Juan Manuel de Prada, podem bem por acabarem na cadeia. E não porque haja sexo demais na obra, mas porque a história é contada do ponto de vista de um predador sexual, um criminoso desprezível. Não como o sujeito charmoso que nos conta sua vida em O perfume, de Patrick Süskind, por exemplo, ou em todos aqueles romances sobre açougueiros psicopatas que detalham seus esquartejamentos. Reconheçamos que existe uma considerável dose de hipocrisia no padrão moral pelo qual a violência, seja física ou sexual, é julgada. Essa hipocrisia é uma velha conhecida, e chama-se puritanismo.

Para mim, e é por isso que escrevo este artigo, é inegável que há menos sexo na literatura de nossos dias, e se há é mais contido. A questão requer procurar os motivos, que não são tão evidentes como pode parecer. Não se trata apenas da nova apatia em relação ao sexo apontada por tantos estudos, nem é simplesmente o fato de nossa sociedade algorítmica ter se tornado mais digital e menos conectada a paisagens exuberantes (talvez devido às mudanças climáticas). Suspeito que haja algo mais por trás disso.

Primeiramente, globalmente, superamos a fase em que os romances precisavam incluir uma cena de sexo simplesmente porque era o que o departamento de vendas recomendava. Agora, toda cena é necessária para o desenvolvimento da trama de alguma forma, e se a cena de sexo não for necessária, ela é omitida ou substituída por uma reflexão sentimental ou pseudomágica, como a que abre este artigo.

Em segundo lugar, os leitores dominantes de hoje, que impõem seus gostos através do mercado, parecem preferir a tensão emocional aos atos físicos, o que comprova a velha ideia de que todos buscam nos livros o que lhes falta na vida, como naquela batalha em que nobres lutavam por honra e mercenários por dinheiro: justamente o que cada lado não tinha. Aparentemente, o que está na moda é o fogo lento, olhares, carícias e insinuações, e o sexo em si, quando acontece, é uma espécie de anticlímax, como jogar as cartas no rio para encerrar o jogo. Para sermos claros, a cama foi substituída pelo divã, e a maioria dos leitores (principalmente homens, para evitar confusão) prefere histórias sobre superar traumas antigos juntos, cumplicidade e escuta ativa a um simples e clichê aventura sexual.

E isso nos leva quase diretamente ao reinado do que chamam de dimensão ética. O escritor e o editor tentam evitar o sexo porque, na sociedade atual, é um campo minado onde qualquer campanha promocional pode fracassar. A forma como se abordou as preferências sexuais de algum dos seus personagens pode soar homofóbica ou transfóbica? Ferrou-se. Há algo nas relações sexuais dos seus personagens que possa sugerir a menor tensão racial? Então, é melhor nem pensar nisso. Já se sabe que é uma norma não escrita incluir relações interraciais, mas se for entre homens negros e mulheres brancas, e nunca o contrário, mas se puder, é bom evitar, porque poderia ser interpretado como um sinal de dominação, ou talvez até mesmo neocolonialismo. Há algo na sua escrita que possa soar como sexo não consensual, violência contra a mulher, práticas que possam ser consideradas humilhantes ou qualquer coisa que possa ser interpretada como discriminatória? Prepare-se, porque você está na mesma situação do fulano que falava dos seios da Virgem Maria durante o regime de Franco. E tinha, sim, e existe até um gênero pictórico específico, muito católico, dedicado à amamentação de virgens, mas era melhor deixar o assunto de lado.

Nesse sentido, algo curioso também acontece: se uma autora escreve sobre sexo, ela corre menos riscos, mas se o autor é homem, ele corre o risco de ser acusado de perpetuar estereótipos sexuais masculinos, especialmente se o texto carnal refletir os pensamentos dele em vez dos dela. E não julgo, apenas faço uma constatação.

Por fim, voltemos ao divã: o sexo costumava representar prazer, e hoje o que se busca é o trauma, então, muitas vezes, com muita frequência, quando há sexo em um romance, ele parece representar dor, medo, dominação, humilhação ou simplesmente abuso. Para isso, não há obstáculos, avisos ou restrições. A vítima pode ser forçada a todo tipo de práticas, e isso pode, e até deve, ser descrito com a máxima brutalidade, enfatizando, porém, que ela é uma vítima e que isso causará uma ferida emocional que mais tarde desencadeará ou impulsionará o restante da trama.

E a literatura contemporânea é assim porque nossa sociedade é assim, certamente.

Sabemos muito bem que hoje tudo é controlado e mensurado. Sabemos que, para prever uma guerra, contam-se as pizzas encomendadas pelo Pentágono, e que o resultado de uma eleição pode ser antecipado pelo número de vezes que uma palavra aparece nas redes sociais, ou que o número de vezes que as palavras “previsível” ou “imprevisível” aparecem na imprensa para determinar se o clima atual é otimista ou pessimista. Essas mesmas métricas são cuidadosamente elaboradas para determinar quais produtos culturais merecem maior investimento e quais podem ser deixados à própria sorte.

Não é surpresa, portanto, que no mundo editorial, tão dominado por algoritmos que ditam os temas a serem abordados, os tipos de personagens que protagonizam as tramas, os cenários mais atraentes e até mesmo as classes sociais e grupos étnicos preferidos, os editores alertem os autores de seu catálogo para que se contenham ao escrever cenas de sexo ou as evitem completamente para minimizar os riscos.

Porque o perigo da fogueira e do dedo acusador é real. E o sexo volta a ser um assunto nebuloso. Provavelmente porque computadores não fazem sexo.


* Exte texto é a tradução livre de “¿Por qué en las novelas se folla cada vez menos?”, publicado aqui, em Jot Down

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