Postagens

Boletim Letras 360º #63

Imagem
Que bela reunião em família! Pound e os netos - saiba mais sobre esta fotografia ao longo deste boletim. Esta edição 61 do BO Letras 360º ultrapassa uma marca considerável de quase sete anos deste blog – o de 1800 posts. E poderíamos esperar até o de o n. 2000 que alcançaremos até o fim de 2014 se tudo correr nos conformes, mas não nos conformamos. Entre nota e notas, textos sérios alguns, matérias, indicações de leitura, curiosidades, e BOs e tanta, mas tanta coisa, são 1801 entradas. Privilégio para poucos, diga-se. Por isso, a partilha: os leitores e transeuntes precisam saber da mala de arquivos que é este espaço. Que venha pela frente não apenas a chegada do post n.2000, mas outros tantos adiante. Até o fim do ano, quando nos aproximarmos dos nossos 7 anos faremos ajustes (novos e para melhor!) neste espaço que quer ainda mais sua ampliação. Há algum tempo, por exemplo, enveredamos pela ideia de revisar alguns textos, ampliar outros; tudo para darmos um lugar cada vez mais...

O primeiro terço ou a doce loucura de Neal Cassady-Dean Moriarty

Imagem
Por Rafael Kafka Neal Cassady e Jack Kerouac Há um fato bem curioso na literatura: muitos escritores que escreveram pouquíssimas obras são mais influentes do que outros que escreveram calhamaços e mais calhamaços. Claro que muitos mestres da literatura têm uma quantidade de tijolos produzidos por suas mãos e mentes bastante assustadora pelo seu volume. Vale lembrar por exemplo, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Dostoiévski e outros mais. Há também aqueles que causaram impacto escrevendo livros em grande quantidade, mas sem tantas páginas. Cito, agora, José Saramago e Machado de Assis, cuja média de páginas de seus livros beirava os trezentos e os duzentos, respectivamente. Isso, claro, baseado no que li de ambos os autores, o que me leva a pedir perdão caso esteja aqui cometendo qualquer tipo de erro estatístico ao meu leitor. Mas como eu dizia acima, há aqueles escritores que escreveram relativamente pouco e se consagraram como mitos da literatura. São estes seres qu...

Hoje eu quero voltar sozinho, de Daniel Ribeiro

Imagem
Muito se ouve comentar que a produção cinematográfica brasileira deixa a desejar. Mas, há muito que faço o discurso contrário: há produções muito boas e o que falta ao telespectador é buscá-las, visto que, em grande parte, os filmes comerciais (ou os mais divulgados) são, de fato, os que deixam a desejar. Talvez por isso nasça a conclusão generalizada que o cinema brasileiro é ruim. Prova do que digo é o filme de Daniel Ribeiro, Hoje eu quero voltar sozinho , produção que teve sua gênese a partir do curta-metragem Eu não quero voltar sozinho ; aí era tema o medo das personagens – uma gay e cega e outra o aluno recém-chegado no colégio – com o primeiro beijo. Quando a história se amplia, o tema do primeiro beijo torna-se apenas um dos elementos de uma narrativa sobre o conflito de descoberta da sexualidade – típico do grupo adolescente, mas que aqui ganha outros contornos uma vez que a dupla situação elaborada no curta, a cegueira e a homossexualidade, também ganha mais relev...

“Dê-me a sua pessoa moral”: A invenção do humano brasileiro em Machado de Assis

Imagem
Por Alfredo Monte O escritor José Luiz Passos “Por Deus! dê-me a sua pessoa moral...”, pede o leitor Machado de Assis em 1878, na sua crítica contundente de O Primo Basílio . A maior queixa do autor brasileiro com relação à realização romanesca do colega português incidia sobre o caráter da protagonista, Luísa, que lhe parecia pouco plausível da maneira como era explorado na narrativa: “Para que Luísa me atraía e me prenda, é preciso que as tribulações que a afligem venham dela mesma: seja uma rebelde ou uma arrependida; tenha remorsos ou imprecações...”; ora, ocorre que (na ótica machadiana) Eça de Queirós trata sua heroína como títere, explorando sumariamente sua consciência, substituindo o principal (a dor moral que ela deveria sentir) pelo acessório (o medo causado pela chantagem). Em Machado de Assis: o romance com pessoas 1 , José Luiz Passos articula essa reação desfavorável de Machado à ficção naturalista de Eça com o que considera a principal inovação trazida pelo auto...

Mãe Pobre (Trabalho Poético), de Carlos de Oliveira

Imagem
Por Pedro Belo Clara Cumprindo a promessa que no anterior artigo efectuei junto de si, estimado leitor, venho na presente publicação apresentar o segundo livro de poesia editado por Carlos de Oliveira: Mãe Pobre . Lançado em 1945, num ano de significativo frémito mundial, o trabalho remete-nos aos duros tempos vividos num Portugal sufocado pelos negrumes do regime fascista então vigente, de certa forma isolado dos grandes palcos de acção que no resto da Europa tinham o seu lugar. Ainda que os ecos do conflito mundial, sua resolução e consequentes alterações nas economias e nas geografias à época habituais não cessassem de vibrar junto da lusa nação, o poeta optou por olhar para dentro e realizar um trabalho impregnado de revolta, denúncia e desejo de amanhecer. Longe de ser um livro meramente interventivo, é, em acréscimo, um livro de sensibilização, cujas linhas se tecem no intuito de sublinhar veemente a necessidade de iluminar uma nação e um povo amordaçado e cad...

Pasolini, de Abel Ferrara

Imagem
É talvez uma das melhores estreias do ano. Pasolini ilustra as últimas horas de vida do criador italiano, vivido por Willem Dafoe. Em sua trama há uma reivindicação do Pasolini escritor de obras como Meninos da vida (1955), seu primeiro romance e a mais acessível literariamente, uma crônica descarnada e portanto sincera da vida na periferia de Roma depois da II Guerra Mundial, e de A religião de meu tempo ; junto a eles estão Nebulosa , um roteiro dedicado aos diretores Gian Rocco e Pino Serpi que nunca foi filmado integralmente, Nova York , escrito depois de duas intensas viagens à cidade estadunidense, e Demasiada liberdade sexual os converterá em terrorista , compilação de artigos jornalísticos, ensaios, Quase um testamento , reflexões publicadas postumamente e a entrevista que concedeu poucas horas antes de morrer ao jornalista Furio Colombo, de La Stampa , em que diz, “Aspiro a que olhes ao teu redor e te dês conta da tragédia, qual tragédia (?), a tragédia é que já não há ...