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Duas novelas de Junichiro Tanizaki

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Por Pedro Fernandes Há na literatura oriental, ao menos nas obras de escritores como Junichiro Tanizaki, algo caro à literatura ocidental, sobretudo, as marcadas pelo experimentalismo que é um zelo agudo com a palavra e outra relação com a dimensão temporal – esta última, a grande rival dos leitores ávidos pela ação desbragada. Essa percepção comum e, logo, não característica de Tanizaki é aqui retomada, porque é um aviso aos leitores mais afoitos e desinteressados da contemplação: dificilmente um livro dessa literatura será bem-quisto se antes o leitor a costumado à literatura ocidental não  se desapegar da maneira como se relaciona com a leitura. Aos que se aventurarem nesse esforço, uma garantia: nunca lerão da mesma maneira mesmo os livros da literatura ocidental. O desenvolvimento detalhado das situações e o esgarçamento do tempo são alguns dos elementos que nos permitem manter outra relação com o texto, que é a de observação do mínimo detalhe capaz de introdu...

Marguerite Yourcenar e Grace Frick

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Por Telma Amaral Gonçalves  Marguerite e Grace conheceram-se em 1937 ocasião em que Grace, que era americana, estava em viagem pela França. Encantada por Marguerite, Grace se apaixona e passa com ela todo o restante de sua vida o que soma quarenta anos de relacionamento.  Marguerite era oriunda de uma família aristocrática e tendo perdido sua mãe onze dias após o parto, foi criada pelo pai de quem recebeu uma educação clássica, complementada por inúmeras viagens pelo mundo. Desde jovem passou a se dedicar à literatura, tornando-se uma escritora consagrada, a ponto de em 1981, ter sido a primeira mulher a ingressar na Academia Francesa.  Grace Frick também pertencia a uma família abastada do sul dos Estados Unidos e tendo ficado órfã cedo foi criada por um tio. Obteve seu diploma de Bacharel em Arte, em 1925 e seu Mestrado em literatura inglesa, em 1927, após o que tornou-se professora universitária.  Depois do contato inicial, Marguerite e Grace ...

Corpos e costumes, riquezas dos povos. Marcel Mauss sob o olhar de Lévi-Strauss

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Por Felipe V. Almeida Jorge Luis Borges dizia que o escritor é capaz de escolher sua ascendência, ou seja, sua obra contém sempre ecos e referências daqueles que o antecederam e o tocaram, sendo muito disso intencional, como uma filiação artística e intelectual. Foi assim que a partir de minhas leituras da obra de Georges Bataille acabei dando uma atenção cada vez maior a dois nomes basilares da antropologia: Lévi-Strauss e Marcel Mauss. Nessas leituras esbarrei em uma introdução que transita entre a interpretação e o elogio, uma possibilidade de ver a obra de Marcel Mauss (1872-1950) pelo olhar afiado de Claude Lévi-Strauss (1908-2009). Sobrinho do sociólogo Émile Durkheim, Marcel Mauss é considerado por muitos, entre eles Lévi-Strauss, um dos grandes fundadores da antropologia francesa. Na introdução ao livro Sociologia e antropologia  publicado em 1950 que compila grandes estudos de Marcel Mauss, Lévi-Strauss isola e aponta uma de suas grandes contribuições acadêm...

De poesia e de poetas

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Por Márcio de Lima Dantas Anjos rebeldes. Bruegel. Gostaria de que os leitores não inscrevessem este artigo no que habitualmente se chama de crítica da cultura. Uma vertente da crítica que aponta as mazelas e os simulacros do mundo contemporâneo e que tem sido, sem dúvida, muito útil à compreensão de fenômenos correntes, embora os mais desavisados vejam nela uma nota ressentida ou pessimista. Sucede, aqui, muito mais um pequeno diagnóstico do ambiente literário da cidade. Ao fazê-lo - chamando a atenção para o resguardo de nossa memória cultural e, consequentemente, para a importância da responsabilidade com a herança do passado - , tenho em mente um referencial de autores, de obras e de público constituidores de um circuito que confirma o nosso argumento. Longe de prescrever uma idealidade com relação a autor, a um tipo de obra e a um público modelo-fruidor de arte, mantenho intacto um marco teórico mais condizente com a especificidade deste objeto chamado literatura. Acred...

Boletim Letras 360º #210

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Walt Whitman. Nos EEUU publicam um inédito do poeta quando este se aventurou pela prosa. Estas foram as notícias publicadas durante esta semana em nossa página no Facebook.  Segunda-feira, 20/02 >>> Portugal: Um site disponibiliza informações notáveis sobre o escritor português Raul Brandão. Em 2017, cumprem-se 150 anos do seu nascimento As celebrações começaram ainda em 2016 com a primeira edição do Húmus — Festival Literário de Guimarães. No dia 8 de março, o evento regressa, pouco antes da data oficial do aniversário. A grande novidade antes disso é o lançamento de um site inteiramente dedicado a Brandão, que procura “agregar informação sobre o autor”. A sua biografia, a sua bibliografia, informação sobre os seus lugares, o seu espólio e um arquivo onde possam se guardar tudo o que se vai publicando sobre o escritor e sua obra. Tudo fará parte do arquivo online. Além de vídeos com textos de Raul Brandão lidos por autores como Lídia Jorge, Afonso Cr...

Enclausurado, de Ian McEwan

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Por Javier Aparacio Maydeu Existem labirintos pelos quais dá gosto se perder. O que vem construindo Ian McEwan com conflitos morais transformados em frondosas ramagens é um deles. A casca de noz mencionada por Shakespeare em Hamlet (“Eu poderia viver recluso em uma casca de noz e me considerar rei do espaço infinito”) é o útero materno de onde um feto se sente efetivamente rei do espaço infinito da consciência e de onde exerce-se enquanto narrador desta história sombria de traição e falsidade sobre qual reluz com frequência os raios de sol do humor e os gestos com que McEwan ilumina seus extraordinários emaranhados éticos. Como em Hamlet , Claude assassina seu irmão, pai do protagonista; o feto narrador de Laurence Sterne vem-nos à mente e a melhor narrativa de Juan Marsé, Rabos de lagartixa , também; “manuscritos datilografados, lápis apontados, dois cinzeiros de vidro bem cheios, uma garrafa de uísque escocês, uma do suave single malte Tomintoul com dois dedos no fu...