Postagens

Tarântula, de Bob Dylan

Imagem
Por Pedro Fernandes Este livro participa de duas constantes muito caras à narrativa contemporânea. Primeiro, é a impossibilidade de realização , ao menos no sentido tradicional segundo o qual narrar é contar uma história e, logo, toda narrativa se desenvolve entre um motivo, um elemento desencadeador, e um fim, que não é necessariamente uma conclusão do relatado; e as infiltrações do discurso poético na prosa que aqui funcionam ora como se uma espécie de refrão para o texto, apenas no sentido de uma marcação entre uma massa textual e outra, ora como o próprio poema em sua estrutura e forma predominante, isto é, a organização em versos e estrofes. Apesar de denominado pelo autor como um romance porque está entre “tudo aquilo que eu não posso cantar e é longo demais para ser um põem”, o leitor não encontrará em Tarântula uma história como começo, meio e fim, ainda que fragmentária como é comum a muitas narrativas desde a descoberta sobre a descontinuidade do discurso ps...

O efeito Buddenbrook

Imagem
Por Rafael Ruiz Pleguezuelos Katia e Thomas Mann No mundo empresarial se conhece como efeito Buddenbrook a progressiva decomposição de uma empresa familiar descendida da terceira geração, que leva dos avós (fundadores e verdadeiros artífices do feito) aos filhos (que já introduzem a primeira variável debilitadora com a chegada dos genros e noras) e aos netos, com quem, geralmente, a dita empresa familiar é definitivamente liquidada, se não dilapidada. O termo naturalmente provém dessa delícia que é Os Buddenbrook , romance publicado em 1901 e a melhor obra de Thomas Mann com permissão de A montanha mágica . Os Buddenbrook se constitui por uma observação minuciosa do declínio de uma família burguesa e seu negócio familiar, com um mínimo detalhe tão exaustivo e uma exigência de igual proporção ao leitor que tem pelo menos de deixar de fazer qualquer coisa se realmente se decidir lê-la. É bem conhecido que Os Buddenbrook se encontra inspirado na perda paulatina do poder e...

As viagens transformadoras de Paul Bowles

Imagem
Por Emma Rodríguez No começo de O céu que nos protege , sua obra mais célebre, Paul Bowles, deixa claro que a diferença fundamental entre o turista e o viajante reside no tempo: “Enquanto o turista geralmente volta depressa para casa ao fim de algumas semanas ou meses, o viajante, que não pertence a um lugar mais do que a outro, se locomove devagar, ao longo de períodos e anos, de uma parte da terra a outra”, diz o narrador do romance, quem também apresenta outra distinção: o turista “aceita sua própria civilização sem questionar; não é assim com o viajante, que compara o seu país com os outros e rejeita os elementos que não estão a seu gosto”. Nesta breve e certeira argumentação se esboçam não só as características do Bowles viajante mas sua maneira de compreender a existência. “Meu interesse pelas culturas estrangeiras era ávido e obsessivo. Estava convencido de que era benéfico viver entre pessoas cujas motivações não entendia; tão irracional convicção era sem dúvida uma...

Numa folha, leve e livre – de António Ramos Rosa

Imagem
Por Pedro Belo Clara Conta-se já perto de quatro anos desde o falecimento deste poeta maior do universo literário português, e dado que ainda não havia merecido destaque neste nosso espaço de discussão tem-se agora como imperial o ajuste de tamanha falha. Ramos Rosa nasceu na cidade de Faro, no Algarve, em 1924, vindo na década de sessenta a radicar-se definitivamente em Lisboa. Nunca terminou o ensino secundário por motivos de saúde, embora tenha desempenhado funções como empregado comercial, professor e tradutor, antes de se dedicar em pleno à prática poética, ofício no qual entrou como um assumido autodidacta – não obstante o ensaio e o trabalho crítico, áreas também merecedoras da sua atenção. Entretanto, um certo talento para o desenho foi gradualmente surgindo nos intervalos da escrita, como o próprio admitiu numa entrevista datada de novembro de 1996: «Eu faço uns desenhos que são rostos e faço-os com uma grande espontaneidade: são automáticos e confluentes». ...

A importância de se chamar Elena Ferrante

Imagem
Por Jenn Díaz O desafio para quem escreve é preencher a distância entre o que você vive e o que conta, sentir fisicamente o impacto da narração... Frequentemente, começamos a escrever muito rápido e as páginas ainda estão frias. Só quando a história gruda em nós como uma luva, é chegado o momento de contá-la. (Elena Ferrante) Uma obra literária nem sempre se sustém por uma obra literária mas por um autor. Elena Ferrante nos obriga a aprender a ler corretamente: valorizar o que se tem entre mãos, que é um livro, e retirar daí toda a informação necessária. Ana María Matute disse que se alguém queria encontrá-la estava em seus livros. O que da Matute necessitamos saber e ter em conta é sua literatura e isso é o que Elena Ferrante nos oferece com seu anonimato – um livro puro. Não ser ninguém é um exercício a que o escritor não está, em sua grande maioria, disposto a fazer. Ser escritor, não é que tenha demasiadas vantagens sociais nem, certamente, econômicas, mas o artista no...

Boletim Letras 360º #218

Imagem
As notícias que circularam durante a semana em nossa página do Facebook. E ainda estão abertas as inscrições para participar da promoção que sorteia um exemplar do livro Da poesia , Hilda Hilst, edição que reúne toda a obra poética da escritora e inéditos.  Lygia Fagundes Telles e Jorge Amado. Um novo documentário sobre a escritora nos seus 94 anos. Segunda-feira, 17/04 >>> Brasil: Desconhecida no Brasil, não mais Scholastique Mukasonga é uma escritora tutsi de Ruanda nascida em 1956 e residente na Normandia, França. Foi sobrevivente dos massacres no Ruanda ocorridos na década de 1990. Autora de uma obra que inclui romances, poesias e contos, seu nome foi anunciado como participante na Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP). Até então desconhecida no Brasil, a obra de Scholastique ganha tradução de dois títulos, a sair pela Editora Nós: os romances Nossa Senhora do Nilo , que surpreendeu ao vencer o prestigiado Prêmio Renaudot, em 2012, e A mu...