De Tebas às areias de Arrakis: Édipo e Paul Atreides, marionetes do destino

Por Rafael Pontes

Max Ernst, Oedipus Rex 



As profecias sempre fizeram parte do imaginário popular das antigas civilizações espalhadas pelo globo. Algumas previam bênçãos e glórias, ao mesmo tempo que anunciavam pragas, guerras, sangue e morte. Assim como as raízes de uma árvore, essas visões proféticas se espalhavam e penetravam na mente dos povos, moldando decisões, alimentando esperanças e despertando medos. Não eram simples palavras proferidas pela boca de um sábio, mas forças capazes de trazer o auge e a queda ao mesmo tempo.

Como reflexo das inquietações humanas, a literatura apropriou-se desse imaginário profético por meio de icônicas obras, como a tragédia de Macbeth (1623), de William Shakespeare, na qual a ambição do protagonista é despertada pelas previsões proferidas pelas três bruxas. Suas ações e seus ideais foram simplesmente abandonados ao ouvir o futuro dito por elas. A partir desse momento, o protagonista se transforma em um ser irreconhecível, um homem diferente daquele que outrora foi — tudo graças às simples palavras proferidas por três mulheres. Diante disso, cabe um questionamento: estamos sujeitos às determinações do destino?

Embora estejam separados por mais de dois milênios, Édipo Rei (c. 427 a.C.), de Sófocles, e Duna (1965), de Frank Herbert, oferecem respostas inquietantes à questão. Seus protagonistas são submetidos às profecias e, por mais que tentem escapar do futuro, acabam caminhando justamente em sua direção. De um lado, Édipo, rei de Tebas; de outro, Paul Atreides, herdeiro da Casa Atreides e, futuramente, Imperador de toda a humanidade. De um lado, a Grécia Antiga, o berço da civilização ocidental; de outro, um futuro distante marcado por impérios interestelares, viagens espaciais e disputas políticas. Por mais ricos e poderosos que sejam os protagonistas, até eles estão sujeitos a forças que escapam à sua compreensão e descobrirão, tarde demais, que suas tentativas de escapar do destino apenas os conduzem para ele.

Na tragédia de Sófocles, acompanhamos a trajetória de Édipo para salvar Tebas de uma praga que assola a cidade. A única forma de livrá-la e ao seu povo desse infortúnio é levar à justiça o homem responsável pelo assassinato do antigo rei da cidade, Laio, conforme a resposta anunciada pelo Oráculo de Delfos. Assim, o herói inicia uma investigação para descobrir a identidade do assassino, sem imaginar que cada passo o aproxima de uma verdade devastadora. Contudo, antes mesmo dos principais acontecimentos, ainda bebê, Édipo havia sido marcado por uma terrível profecia: mataria o pai e desposaria a própria mãe.

Muito antes de Édipo tornar-se rei de Tebas, Laio e a esposa, a rainha Jocasta, tiveram um filho. Logo após o seu nascimento, porém, o Oráculo de Delfos anunciou a terrível profecia de que aquele estava destinado a matar o pai e casar-se com a mãe. Temendo o cumprimento do destino, Laio ordenou que o recém-nascido fosse abandonado no monte Citerão, com os tornozelos perfurados e amarrados, para que não pudesse sobreviver. No entanto, a criança foi encontrada por um pastor e, posteriormente, entregue ao rei Pólibo e à rainha Mérope, de Corinto, que o criaram como filho.

Já adulto, Édipo decide abandonar Corinto após as revelações do Oráculo de Delfos: ele mataria o pai e se deitaria com a mãe. Transtornado, o herói parte para o exílio a fim de evitar a concretização da profecia. Mal sabia que estava totalmente enganado. Durante a viagem, Édipo é abordado por um velho nobre acompanhado por seus servos. Uma discussão banal rapidamente se transforma em um confronto e o velho é morto pelo próprio protagonista. Na sequência, Édipo chega a Tebas, onde se depara com a Esfinge — uma criatura mítica metade mulher e metade leão. A criatura aterrorizava grande parte do povo tebano com seus enigmas, posto que quem não adivinhasse era devorado por ela. Felizmente, Édipo acerta o enigma que lhe é destinado, livrando o povo de poder da criatura. Com o acontecimento, ele foi eleito o novo rei de Tebas e se casa com a rainha Jocasta, então viúva.

No presente, o protagonista conclui a investigação com uma verdade aterrorizante: durante sua viagem de Corinto a Tebas, na época da morte de Laio, havia matado um ancião e seus servos, que o interpelam no caminho. O ancião era o pai e a mulher com quem se casou a mãe. Devastado, Édipo fura os próprios olhos, tornando-se cego, e passa a vagar pelo mundo; enquanto Jocasta tira a própria vida. Portanto, ao tentar fugir do seu futuro, o herói cumpriu cada uma de suas etapas, transformando seu exílio em um instrumento do destino. Mais de dois mil anos depois, Frank Herbert recuperaria essa mesma inquietação. Em vez da Grécia Antiga, um império galáctico. No lugar dos oráculos, uma irmandade capaz de manipular linhagens e prever futuros possíveis. Ainda assim, a pergunta permanece a mesma: é possível escapar do destino? 

Na trama de Frank Herbert, ambientada cerca de 10 mil anos no futuro, Paul Atreides também é marcado por uma profecia. Seu nascimento foi fruto de um planejamento elaborado por milhares de anos por uma ordem religiosa e política formada apenas por mulheres, as Bene Gesserit. Inclusive, sua mãe, Lady Jéssica Atreides, era parte nesse grupo. Ela uniu-se ao duque Leto Atreides por ordem das Bene Gesserit com o objetivo de gerar uma filha Atreides que, futuramente, se uniria a Feyd-Rautha Harkonnen, sobrinho do Barão Vladimir Harkonnen, líder da Casa Harkonnen e principal inimigo da Casa Atreides. Dessa união, nasceria o Kwisatz Haderach, um ser capaz de acessar as memórias de todos os seus ancestrais, tanto masculinos quanto femininos, além da capacidade de transitar entre espaço e tempo com habilidades premonitórias. 

Entretanto, Jessica desobedece às ordens da irmandade. Movida pelo amor que sentia por Leto, deu-lhe um filho homem: Paul Atreides. Sem saber, essa decisão alteraria séculos de planejamento das Bene Gesserit e mudaria o destino de toda a galáxia. Anos mais tarde, a pedido do próprio Imperador, a Casa Atreides assume o controle do planeta Arrakis, um mundo desértico, lar dos temidos Vermes de Areia, criaturas sagradas para os habitantes deste planeta, os fremen, cujo ciclo de vida está diretamente ligado à produção da melange, a especiaria mais valiosa do universo. Na narrativa, a melange é utilizada para vários fins, desde possibilitar a navegação interestelar até ampliar as capacidades mentais e perceptivas de quem a consome. 

É justamente a intensa exposição à melange em Arrakis que desperta em Paul visões cada vez mais nítidas do futuro. Diferentemente de Édipo, que desconhecia a profecia que moldava sua vida, Paul passa a enxergar os possíveis caminhos de seu destino — e descobre que conhecê-los pode ser tão aterrador quanto ignorá-los. Logo após os eventos que culminaram a queda da Casa Atreides pelas mãos da Casa Harkonnen, em conluio com o Imperador, que temia uma possível ascensão política dos Atreides, Paul e sua mãe aliam-se aos fremen, o povo do deserto. De acordo com a religião dos fremen, um messias vindo de outro mundo surgiria para conduzi-los à liberdade e transformar Arrakis em um paraíso. Paul, graças às visões provocadas pela melange e às lendas semeadas pelas Bene Gesserit ao longo de gerações, passa a ser visto pelos fremen como o Lisan al-Gaib, o “Voz do Mundo Exterior”, aquele que estava destinado a guiá-los. 

Enquanto Édipo tenta fugir de uma profecia pessoal, Paul tenta escapar de uma profecia coletiva. A diferença é que, enquanto o rei de Tebas caminhava na escuridão, Paul enxergava o futuro diante de si. Ainda assim, ambos descobriram que conhecer o destino não significa ser capaz de mudá-lo. Porém, Paul decide utilizar suas habilidades para trilhar um novo caminho, não querendo de forma alguma concretizar o futuro que possivelmente o aguardava, o que contribuiu para uma Guerra Santa que dizimou bilhões de vidas humanas pela galáxia. Sob essa ótica, Édipo é destruído pela ignorância, enquanto Paul é destruído pelo conhecimento. Os dois chegam ao mesmo lugar: o cumprimento da profecia.

Até o fim de Paul Atreides se relaciona com a tragédia de Édipo. Após os eventos da Guerra Santa desencadeada por sua ascensão, o protagonista torna-se Imperador com o intuito de controlar o futuro e impedir que novas tragédias acontecessem, o que de nada adiantou. Como tantas vezes ocorre na história, o poder desperta a cobiça de olhos invejosos e ambiciosos. Paul foi vítima de um ataque rebelde, ficando cego no processo, assim como Édipo. Porém, mesmo cego, Paul continua enxergando através de sua presciência. Quando essa visão do futuro deixa de funcionar, ele finalmente aceita caminhar para o deserto, obedecendo ao costume fremen. Nessa cultura, aqueles que ficam cegos devem partir sozinhos para o deserto, onde encontram seu destino. Decisão que Paul toma sem nenhuma pressão.

Nesse sentido, não é apenas o peso da profecia que aproxima Édipo e Paul Atreides. Ambos terminam cegos, privados da visão física, mas profundamente marcados pelo conhecimento de um destino que jamais conseguiram evitar. Em Sófocles, a cegueira é o preço da verdade descoberta; em Herbert, ela simboliza a incapacidade de escapar de um futuro conhecido. Os dois heróis descobrem que o verdadeiro castigo nunca foi a perda dos olhos, mas a consciência de que todas as suas escolhas apenas reforçaram o caminho traçado pela profecia.

Essa é a principal distinção entre as duas obras. Édipo age na ignorância, sem conhecer sua verdadeira origem, acreditando que basta abandonar Corinto que a profecia não se concretizaria. Paul, por outro lado, conhece os inúmeros futuros possíveis. Sua presciência lhe permite enxergar as consequências de suas decisões antes mesmo que elas aconteçam. Contudo, esse conhecimento não lhe concede liberdade. Quanto mais compreende o destino, mais percebe que suas possibilidades de escolha se estreitam. A presciência, portanto, transforma-se na sua prisão.

Dessa forma, em Édipo Rei o problema é não saber, enquanto em Duna o problema é saber demais. Herbert desloca a discussão da Grécia Antiga para um império interestelar, mas preserva uma das perguntas mais antigas da humanidade: existe verdadeira liberdade diante do destino? Em ambas as circunstâncias, os protagonistas acreditam conduzir a própria história, quando, na realidade, apenas percorrem um caminho que já estava escrito nas estrelas. Apesar de Édipo e Paul ocuparem enormes posições de poder — um é rei de Tebas o outro imperador de um vasto império interestelar —, os seus privilégios revelam-se insuficientes diante das forças do destino. A questão surge exatamente nesse ponto de encontro: quanto maior for a posição, maior também será a sua impotência.

No fim, tudo aquilo que eles mais queriam proteger foi destruído por suas próprias ações. Inicialmente Édipo liberta Tebas da Esfinge e é celebrado como um herói, para depois ser a causa da ruína da própria cidade. Paul, por sua vez, luta para preservar sua família, proteger os fremen e impedir a Guerra Santa que vislumbrava em suas visões. No entanto, é justamente sua ascensão ao poder que desencadeia o conflito responsável pela morte de bilhões de pessoas pela galáxia. Aqueles que surgem como salvadores tornam-se, involuntariamente, os arquitetos da tragédia que tentavam evitar.

A tragédia não nasce da maldade de seus protagonistas, mas da tentativa de fazer o bem. Seus crimes foram ter nascido sob uma profecia que jamais poderiam evitar. Afinal, que culpa uma criança tem pelo destino que lhe foi imposto antes mesmo de nascer? Seu único infortúnio foi, simplesmente, ter nascido.

De Tebas às areias de Arrakis, a tragédia permanece a mesma: não importa a classe social, o sangue nobre ou plebeu, o poder ou ausência dele; os heróis acabam transformando-se nos instrumentos da própria profecia, culminando não apenas em sua própria queda, mas daqueles que os cercam. Logo, aqueles que deveriam ser os heróis, aqueles que deveriam ser símbolos de virtude e esperança, tornam-se os principais agentes da tragédia que buscavam evitar. No fim, Édipo e Paul Atreides nunca deixaram de ser marionetes do destino. 


* Rafael Pontes é graduado em letras-português pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Atualmente, atua na linha de pesquisa acerca dos estudos comparatistas no mestrado do Programa de Pós-Graduação em Letras na mesma instituição. Seus interesses incluem mitologias, autoficções, mangás e histórias em quadrinhos.


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