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Como alguém se transforma num escritor? Dez notas sobre o primeiro livro

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Por Patricio Pron Leonid Pasternak, A paixão da criação . 1 “O primeiro livro é o único que importa, tem a forma de um ritual de iniciação, uma passagem, uma travessia de um lado para outro”, disse Ricardo Piglia. Sua história, contada em Anos de formação marcou-se por essa frase de 1967, quando escreveu Jaulario (que o autor e o editor rebatizaram no mesmo ano, para publicação, como A invasão ), é retrospectiva, vaga de entusiasmos transitórios, extrai sentido de assuntos pouco relevantes no momento em que tiveram lugar mas que se tornaram significativos com a passagem do tempo (uma mudança, uma conversa, um rumor nos corredores de uma universidade), reúne vislumbres do escritor que Pigilia será mas que, no momento da escrita não é ainda (embora na leitura, sim, certamente); aceita, por fim, a nula relevância da primeira publicação para qualquer um que ainda não seja um autor, mas admite a emoção gerada por esta: “A importância do assunto é meramente privada, ...

Rupi Kaur: poeta reconcilia o passado das mulheres indianas e transforma sua dor em tema universal

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Por Fernanda Fatureto Os skihs são seguidores de uma religião monoteísta na Índia que mescla elementos do hinduísmo com o islã. Em 1984, houve o maior massacre desse povo pelo exército indiano por conta do assassinato da primeira-ministra Indira Gandhi por dois guarda-costas skihs . Ao invés de punir apenas os culpados, vários militares invadiram um templo e violentaram sexualmente centenas de mulheres, além de matarem seus maridos. O acontecimento ficou registrado na memória de todos até ganhar os holofotes da imprensa mundial em 2014 pela voz de Rupi Kaur: a poeta indiana que alcançou o primeiro lugar na lista dos mais vendidos do The New York Times com o livro Milk and Honey . Rupi Kaur, radicada no Canadá desde os quatro anos de idade, fez sua incursão no universo literário aos 21 anos com a auto-publicação de seu primeiro livro pela Amazon. A postagem de seus poemas no Instagram fez tanto sucesso, atingindo a marca de um milhão de seguidores, que os desdobramentos d...

Boletim Letras 360º #228

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No último dia 27 oficializamos em nossa página no Facebook duas notícias que já havíamos repassado noutras redes sociais. Recuperamos o que escrevemos numa postagem no Grupo do blog Letras in.verso e re.verso, que depois de enviar o brinde ao ganhador de nossa mais recente promoção (a que deu a edição de Contos reunidos , de Dostoiévski) trabalhamos para colocar online nossa próxima empreitada do gênero. Ainda não sabemos como faremos, mas vamos sortear a tetralogia napolitana da Elena Ferrante (isso mesmo!) e tudo acontecerá no nosso Instagram. Então, se ainda não nos segue por lá, eis o convite: @Letrasinverso. A outra notícia já havia sido dada no nosso Twitter @Letrasinverso. Agora teremos uma nova voz que se junta ao grupo de colunistas do blog: é a da poeta  Fernanda Fatureto  <<< aproveitem para conhecê-la. Hilda Hilst faz contato. Encontrado um poema desconhecido de quando a poeta tinha 19 anos. Leia neste Boletim. Segunda-feira, 26/06 >...

Entre a interdição e a plenitude: treze livros para o Orgulho Gay

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Há maneiras diversas de como a literatura construiu suas figurações acerca do gay ou das identidades múltiplas do sujeito. Numa escala, tais construções transitam entre o ocultamento ou velamento à exposição, entre a interdição pública, privada ou pessoal, à revelação e o assumir-se, encabeçando uma abertura às lutas pelo respeito sobre a diversidade, o que não é, de maneira nenhuma só uma obrigação da sociedade e sim uma necessidade clara de tornar esse respeito uma constante dos valores nobres do humano. Assim, foi que pensamos em organizar esta lista – oferecendo o máximo das diversidades e o máximo de possibilidades de como a literatura, dentro e fora do Brasil, referiu-se até agora sobre o tema e suas proximidades. Isso porque compreendemos a literatura como espaço fundamental capaz de nos oferecer uma maneira outra de pensar o de fora dos padrões impostos como a normalidade do mundo. Maurice , de E. M. Foster. Publicado em 1971 depois da morte do escritor, que não qu...

L’amour, de Michael Haneke

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Por Maria Vaz Quando se pensa em assistir um filme de amor, normalmente somos levados pelas vicissitudes de uma sétima arte mais comercial a ver uma comédia romântica de Hollywood em que duas pessoas se conhecem, passam por uns problemas e tudo acaba com uma espécie de ‘foram felizes para sempre’. Quem nunca caiu nessa armadilha idealista? Eu já. Há dias assim, em que tudo o que precisamos é de voltar a acreditar no amor. Sem pensarmos bem no que seja essa palavrinha, tão pequenina e banalizada. Um sentido perdido? Um misticismo para os que se deixam levar pela beleza de uma face que sempre enruga, de um corpo que um dia não irá mais para a academia, de um glamour que não se tem ao acordar, nem quando se lida com situações-limite que sempre batem à porta da existência. Será o amor o mero esbarrar químico de dois corpos que se dão bem, mas que só trazem inseguranças, complicações e desconfianças? Os mais realistas acharão que o amor é isso – os corpos – e que o resto é devanei...

Biografia involuntária dos amantes, de João Tordo

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Por Pedro Fernandes João Tordo. Foto: Fernando Dinis   “O amor também é uma mentira. A mentira mais velha do mundo”. As duas sentenças aparecem numa conversa entre o professor narrador de boa parte da história contada em Biografia involuntária dos amantes e a chefe de uma editora em Londres, Antonia McKay, e justapostas, como foram propositalmente apresentadas aqui, podem evidenciar sobre o que é este romance de João Tordo. Se não traduzem efetivamente a obra, são significativas para o estágio de permanente frustração que acometem as personagens envolvidas nos dramas centrais da narrativa. Pode-se mesmo dizer que a tentativa do narrador ao se enredar pela história trágica entre o poeta mexicano Miguel Saldaña Paris e Teresa de Sousa é uma tentativa – e sobre ela caberá ao leitor descobrir se é ou não uma tentativa igualmente frustrada – em reverter sua condição de sujeito à beira de sucumbir às forças indeléveis do amor. Isto é, não deposite o leitor grande arroub...