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Lydia, de Pedro Belo Clara

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Por Maria Vaz   Lydia encontra as suas reminiscências mais profundas no poema “Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio”, de Ricardo Reis. Neste heterónimo de Fernando Pessoa encontra parte do seu espírito filosófico.  Contudo, do supra mencionado poema herda apenas a imperatividade em enlaçar as mãos, presente na primeira estrofe. Nas palavras do autor, pelo início da obra, podemos ler que “a noite morre aqui”. Nesse sentido, toda esta obra é construída pela luz que traz a esperança, como a inevitabilidade de um sol que ascende todas as manhãs. A consciência da transitoriedade da vida está sempre presente: tudo é efémero e tem o seu tempo; todo o zénite solar fora sonhado na noite, qual Inverno da alma que dá lugar ao calor. Aos dias sucede a noite, às estações quentes segue-se o frio; os meses correm com uma gradação natural. Também o encanto e o calor das paixões cede pela satisfação do desejo. Destarte, do espírito epicurista também se vislumbra...

Boletim Letras 360º #295

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Está disponível a edição do Boletim Letras 360º desta semana. Aproveitamos a ocasião para lembrá-los que as inscrições para a promoção que sorteia uma edição de J.R.R. Tolkien: uma biografia , de Humphrey Carpenter continuam a valer até o dia 22 de outubro. Mais detalhes, aqui . Uma edição reunirá todos os contos de Lygia Fagundes Telles. Mais detalhes ao longo deste Boletim. Segunda-feira, 08/10 >>> Brasil: Uma antologia que reúne a prosa curta de Fernando Pessoa Pela primeira vez no Brasil é publicada uma antologia dedicada apenas às narrativas curtas de Fernando Pessoa. O aclamado poeta de tantas faces mostra aqui que sua excelência não se resume apenas aos versos. O banqueiro anarquista e outros contos escolhidos  traz 24 textos, 21 de sua autoria, o primeiro deles escrito originalmente em inglês, e três traduções. Nesta obra o leitor vai encontrar vários inéditos, ao menos entre nós, além de uma apresentação aguda e detalhada do pesquis...

O “Jogo do Senhor e do Servo”, de Paulo Leminski, na visão de Serguei Eisenstein

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Por Wagner Silva Gomes  Paulo Leminski (reprodução) para um artigo sobre o Zen (1977) No “Jogo do Senhor e do Servo”, poema criado por Paulo Leminski, o olhar do senhor sobre o servo é a própria autonomia, sua margem de emancipação, que o senhor vai adquirindo quando se vê humildemente como servo, aprendiz, em busca do êxtase da apreensão do conhecimento ou da sabedoria contida na relação com o outro; ao viver e entender o estado de ser relativo, vai então dominando a perda do absoluto até tornar-se o próprio estado de ser senhor, feito de autonomia e emancipação, numa dinâmica infinita da liberdade e seus pequenos pontos, suas pequenas percepções dos lugares, os pequenos olhares fundantes. Nessa história de um mestre zen do poeta, o budista é um engenheiro das almas que domina a engenharia ocular como servo e senhor. Como Eisenstein que, estudante de engenharia e aluno de Levkuleshov, professor da Escola de Filme de Moscou (VGIK), ao ver no experimento do mestr...

As crônicas de Clarice Lispector

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Por Pedro Fernandes Boa parte das frases que circulam na internet atribuídas a Clarice Lispector é produto de um gênio capcioso que sem qualquer valor pela memória de quem quer que seja dá-se ao trabalho de falseamento dos dizeres. Na outra ponta repousam os que cegamente acreditam no falso e reproduzem ad infinitum a barbárie. Fora isso, a outra parte dessas frases são provenientes dos textos que a escritora publicou em jornais – ainda que tais excertos agora repousem entre as linhas de algum dos seus contos ou romances. Se desde a aparição do mundo virtual Clarice Lispector tem sido vilipendiada pelos detratores, antes foi ela própria vítima de si mesma. A sua obra sempre foi um extenso canteiro e esteve, enquanto viveu, aberto à experimentação. E pela contínua atividade de refazimento dos textos terá introduzido modificações ao ponto de um texto original passar a ser outro, tornando o anterior, por vezes, falso texto, ou a escrita de outra que não Clarice. O t...

O que podemos pedir às primeiras páginas de um romance?

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Por Natalia Chávez Gomes da Silva Datiloscrito de  Cem anos de solidão . Provas corrigidas por Gabriel García Márquez Não existem fórmulas. Nem atalhos. Não existe “escrita for dummies ”. Construir uma história requer algo mais que ter na mão algumas situações interessantes e definitivamente mais que um gatilho ou “boa fidelidade” para com o que conta. Não estamos competindo por atenção ou por amor, mas gestando e parindo um ente. As primeiras páginas de um romance não estão aí para vender ou para fazer amizades; não lhe pedimos isso. Fisicamente, é verdade, por estar mais próxima à capa e porque lemos a partir da primeira página, esse trecho do livro sim tem uma missão “natural”: será o responsável de nos dizer o que interessa. Dirá que tanto o que nos permitirá saber e, como a autoridade que representa o ser na sua origem, deixará muito claro que não podemos pedir algo diferente do que já está nos dando. O início do romance é um oráculo qu...

Os filhos de Eros: homossexualidade militar na Grécia Clássica

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Por Alejandro García Desde quando Ridley Scott recuperou com Gladiador o antigo gênero do cinema de romanos, o peplum , o interesse pela Antiguidade clássica na cultura popular experimentou um crescimento continuado em que um dos marcos é, sem dúvida, a adaptação para o grande ecrã da HQ de Frank Miller sobre outro mito guerreiro; os trezentos soldados espartanos que combateram e morreram heroicamente na batalha das Termópilas. Até o ponto de que esse discurso sobre a disciplina e o sacrifício militar tenha se convertido num referente cultural moderno. É verdade que todo o filme, visualmente impactante, está atravessado por referências ao mundo grego clássico mais ou menos adaptadas ao gosto contemporâneo; há uma cena especialmente interessante em que o rei persa Xerxes, vestido como uma rainha de carnaval, faz uma proposta ao rei espartano Leonidas com uma mensagem homoerótica nem um pouco sutil. Nela se resumem muito graficamente duas tendências atuais: por u...