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Entretons do filme “Temporada”: a Contagem de André Novais

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Por Rafa Ireno Mas não se avexe, não queira chuva em mês de agosto. – Guimarães Rosa,  Grande Sertão: Veredas Se Luíza não tivesse esquecido a carteirinha de estudante naquele dia, em São Paulo,   Temporada teria me impressionado tanto? Acontece que minha amiga mineira esqueceu! Não entramos na sala de cinema e, logo depois, me mudei. Sempre desconfiei do destino, um pouco como Juliana – a protagonista da história. Mas, talvez, estivesse escrito que o filme de André Novais passaria alguns meses depois no Festival de Cinema Brasileiro de Paris, e que eu trabalharia como voluntário para a associação Jangada, organizadora do evento, nas tradicionais salas do l’Arlequin. Aqui, na França, era quase final de inverno, as árvores sem folhas, as pinturas insossas dos prédios, o céu constantemente acinzentado e o frio contrastaram bastante com as imagens da tela. Às vezes, somente quando partimos aprendemos a extensão das coisas, que ainda nos pertencem ou que ficaram para...

Selma Lagerlöf e Astrid Lindgren. Que todos saibam seus nomes

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Por David Gumbarte Selma Lagerlöf As vidas dos grandes escritores estão marcadas por situações corriqueiras. Uma aula de ginástica, arrumar-se para um primeiro encontro, pagar contas, a dor pela perda, uma infância ao sol, lama nos sapatos. Numa entrevista publicada no jornal Clarín em 2011, o escritor brasileiro João Gilberto Noll defendia que “a literatura busca transcender a mediocridade do cotidiano. A literatura é uma forma de resistir”. Como na literatura, Selma Lagerlöf e Astrid Lindgren foram um tanto diferentes e tiveram suas vidas comuns salpicadas de acontecimentos extraordinários. Selma Lagerlöf publicou quase quarenta títulos, entre romances e antologias de contos, de temática muito diversa. Sua obra mais conhecida é A viagem maravilhosa de Nils Holgersson através da Suécia (tradução portuguesa), traduzida para mais de sessenta idiomas. A escritora ostentou a honra de ser a escritora sueca mais traduzida até o aparecimento de Astrid Lindgren com Pippi...

Ler sem saber

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Por Beatriz Sarlo Ilustração: Feng Biddle. Não se pedirá explicações a quem disser que Em busca do tempo perdido , Madame Bovary ou Doutor Fausto são os livros que mais lhe impressionaram. Isso ratifica o que agora se chama cânone, isto é, a champions league da literatura. Com a mesma tranquilidade se aceita citar Jane Austen ao lado de Stendhal, ou Heine na mesma frase em que se diz Baudelaire. Exceto para os rebeldes que querem sacudir o estabelecido, esses nomes figuram na maioria das listas. Já não causam escândalo nos tribunais, nem existem fiscais que os persigam como os que perseguiram Flaubert, ou censores que queiram apagá-los como aconteceu com Lolita , de Nabokov. Só um provocador profissional lhe ocorreria dizer que, ao lado de O vermelho e o negro , pode se colocar um romance questionável de Lamartine; que Victor Hugo não é para tanto, se pensando quão bem escrevia Alfred de Vigny; ou que, finalmente, Eliot é bastante enfadonho se o comparamos com Neruda. Ex...

Boletim Letras 360º #328

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Estimados leitores, apresentamos a seguir as notícias que correram nossa página no Facebook, nossas dicas de leitura da semana e outras novidades (estas últimas sempre voltadas para Walt Whitman e, não por acaso, no passado 31 de maio de 2019, o mundo literário celebrou o bicentenário do poeta estadunidense, principal referência da poesia moderna).  Segunda-feira, 27 de maio Novo romance de César Aira chega ao Brasil e surpreende pela diversidade de temas e estilo Em uma pequena cidade na costa da Catalunha nos últimos anos da Idade Média, vive um velho monge conhecido por ser um santo. Devido aos seus pequenos e abundantes milagres, tornou-se alvo da devoção e da peregrinação de fiéis de todo o mundo cristão. O convento onde vive se transformou em um próspero centro econômico graças às intermináveis peregrinações de aleijados, doentes, desesperadas e abandonadas que chegam de todos os lugares. Ao sentir a proximidade da morte, ele decide voltar para a It...

Os diários de aprendizagem como ferramenta de educação dialógica

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Por Rafael Kafka Ilustração: Miren Asiain Lora Tenho trabalhado com alguns alunos um gênero textual o qual aprendi na minha segunda graduação, em Letras com Habilitação em Língua Inglesa, e que me permite umas reflexões bem interessantes. Por mais que ainda me falta leitura sobre o dito gênero, já o tenho usado com base em aulas tidas em 2013/2014 na UFPA no sentido de promover com os alunos um instrumento de auto avaliação e de autonomia. Isso se deve pela defesa que defendo de que a reflexão crítica sobre nossos próprios atos é um meio dos mais importantes para conseguirmos romper barreiras acerca de nossa aprendizagem. Por mais que sempre tenha me incomodado um certo ar liberal, influência clara da escola nova, os diários de aprendizagem me permitem uma provocação no sentido da escola libertadora que almejo. Afinal, esta última nada mais é do que um ambiente onde o sujeito consegue refletir concretamente sobre problemáticas variadas e agir de maneira direta sobre...

Desta terra nada vai sobrar, a não ser o vento que sopra sobre ela, de Ignácio de Loyola Brandão

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Por Pedro Fernandes Na fuga empreendida pelo protagonista de Desta terra nada vai sobrar, a não ser o vento que sopra sobre ela , há um diálogo entre ele e uma personagem acerca da dimensão do tempo; é uma ocasião quando lhe revelam que a história por ele vivida se passa num tempo depois de amanhã. Espantado com a possibilidade aparentemente impossível, reflete ainda que “As pessoas estão perdendo a razão” e se pergunta sobre o que está acontecendo: “Andam como zumbis, falando com ninguém, ou com alguém que não é visto. Mandam imagens para dizer onde estão e depois não sabem onde estiveram”. A retomada dessa passagem especificamente é uma maneira nossa de entrar no denso tecido dessa narrativa; sua função aqui é, portanto, a de servir como chave de acesso sobre a própria estrutura de um romance construído de forma perfeitamente ardilosa e, por isso, capaz de favorecer o leitor a uma experimentação sobre a contínua paranoia que tem se tornado as existências comuns desde a febr...