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A literatura do desejo

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Por Ian McEwan Os processos lentos e cegos da evolução descobriram por tentativa e erro que o melhor meio para impulsionar os seres humanos e outros mamíferos a fornecer cuidados parentais, comer, beber e procriar é oferecer-lhes um incentivo na forma de prazer ligado a cada atividade. Há nisso uma maravilha cotidiana que não apreciamos como se deve. Satisfazer a fome comendo não só elimina uma sensação desagradável. O que comemos é “requintado”, “delicioso” ou “saboroso”. Se estamos com muita fome, até mesmo uma refeição simples nos dá alguma satisfação. Há muito tempo, a neurociência localizou e descreveu o local de onde fluem esses dons, bem como seu complexo funcionamento, na base do cérebro. A fonte de deleite é conhecida como o sistema de recompensa. Sua função é motivar e gratificar. A motivação para o sexo é chamada desejo. Quando o desejo cumpre seu propósito no sexo, esse sentimento transbordante e indescritível é a nossa r...

Boletim Letras 360º #338

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Neste dia 9 de agosto de 2019 pelas 16h30, realizamos uma transmissão ao vivo para o sorteio de Contos de cães e maus lobos  e o nosso reino , dois livros de Valter Hugo Mãe publicados no Brasil recentemente pela Biblioteca Azul, selo da Globo Livros. Dos 22 inscritos, a ganhadora é de Feira de Santana Bahia. Esses momentos de apresentação de obras a leitores que acompanham o Letras são sempre os melhores do blog e já manifestamos o desejo impossível de poder abraçar a todos com livros de excelência para presenteá-los. De toda maneira, seguimos apostando no sonho da leitura por amostragem. Tomava venham novas oportunidades! Abaixo, as notícias que passaram pelo mural do Letras em sua página no Facebook. Agradecemos pela visita e por acompanhar nosso trabalho. Toni Morrison, uma das vozes mais originais da literatura estadunidense.  Segunda-feira, 05 de agosto O romance da minha vida é o novo título de Leonardo Padura no Brasil . Após dezoito anos vivendo...

Toni Morrison, sua voz continua na / com sua obra

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1993 foi um ano emblemático para a Academia Sueca. Uma mulher negra que escreveu sobre minorias deixou alguns dos nomes mais quistos pela crítica, como Thomas Pynchon e Philip Roth, foi a ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura. De Klerk e Mandela dividiram o Prêmio Nobel da Paz. Isto é, duas figuras fundamentais do fim do apartheid e uma romancista de excelência da literatura afro-americana foram reconhecidas pelos lugares mais importantes da história numa única ocasião, como se um acerto de contas vindo tarde demais. O que não é o caso: sabemos um pouco sobre as lutas, sobre a grandiosidade de seus feitos. Se existiu acerto de contas foi com as condições que os modelos sociais ditos em voga têm imposto no longo de nossa história; um embate cruel e totalmente fora do esperado padrão de humanidade. Dos escritores de posição semelhante à de Morrison, James Baldwin e Richard Wright já haviam morrido e Ralph Ellison, sempre lembrado como o mais interessante dos quatro, publicar...

O conflito de geração em Pais e Filhos, de Ivan Turguêniev

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Por Joaquim Serra Ivan Turguêniev. Foto: Félix Nadar. Pais e Filhos , de Ivan Turguêniev foi publicado em 1862, um ano depois da libertação dos servos russos por Alexandre II. No romance, o conflito de geração diz respeito ao momento histórico vivido na Rússia naquele período. O jovem Bazárov encarna o ideário niilista e tem por seguidor Arcádio, que ao longo do romance não só acompanha Bazárov nas discussões sobre a Rússia, como também apontará as contradições nos discursos do amigo. O romance se inicia em 20 de maio de 1859, quando Nicolau Petróvitch Kirsánov espera a chegada do filho Arcádio. Nicolau possui servos e é um típico aristocrata russo, o que servirá como contraposição às crenças materialistas de Bazárov. Nicolau era filho de general, porém, “nunca foi corajoso e até passava por covarde” (p. 2). Páviel Kirsánov pertence ao que, “depois da publicação de Pais e Filhos , passou-se a chamar de “geração dos pais” a primeira geração da intelligentsia russa que ma...

Um homem fiel, de Louis Garrel

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Por Pedro Fernandes “Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira.” A frase de Liev Tolstói em Anna Kariênina bem poderia servir de epígrafe ao filme de Louis Garrel. Se não é a família o tema principal de Um homem fiel , esta não deixa de se constituir em parte importante da narrativa. E o imbróglio amoroso, tal como no romance russo, não deixa de incluir segredos, desencontros e morte. Porque a história é outra, os contextos também, a peça de Garrel lida com a volatilidade das relações num universo de pesada atmosfera em suspense, uma vez que as razões possíveis e não esclarecidas da morte rondam toda a tessitura da trama. Logo à entrada da narrativa fílmica o espectador é confrontado com uma dupla revelação: Marianne, figura que recupera algumas características das personagens românticas pelo tom ambivalente entre a candura e a malícia, anuncia a Abel que está grávida e o filho não é dele e sim do amigo em comum, Paul. O envolvimento ...

Trechos de conversa com Conceição Evaristo

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Por Rafa Ireno Em Abril, Conceição Evaristo esteve na França para o lançamento de Poèmes de la mémoire et autres mouvements . Na ocasião, dia 3 de abril, ela deu uma palestra na Maison de la Poésie , no centro de Paris. A sala estava cheia, pessoas de diversas gerações e lugares vieram ouvi-la, inclusive, um grupo de estudantes com a professora do ensino médio, que incluiu em suas aulas de português os livros de Conceição. Foi uma conversa muito boa! No dia seguinte, durante a manhã, tive a oportunidade de entrevistá-la. Isso, repito, foi em Abril. Ao fim de nosso encontro, minha intenção era veicular a entrevista na semana seguinte. Entretanto, fui chamado por uma mensagem de WhatsApp do meu primo, voltei para o Brasil. Ainda lembro de ver minha vó sozinha no portão, a frase de Rubem Braga, que eu analisava naquela época, ecoou: havia morte lá em casa . Então, parei por um tempo. Na volta, a urgência de outros textos se precipitou e somente hoje pude escutar este encontro de t...