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Carson McCullers: o licor limpo e seco do amor

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Por Natalia Izquierdo É possível que, onde quer que esteja, a grande escritora do sul profundo dos Estados Unidos continue a ter o mesmo aspecto que tinha em vida, isto é, o de uma daquelas criaturas esquivas e frágeis que povoam os contos de Hans Christian Andersen; o de um daqueles seres especiais que andam na terra armados com um coração de fogo, mas que ao mesmo tempo pertencem ao além, e é por isso que sempre parecem ansiar por inexistência e invisibilidade. No entanto, é bem possível que, com esse desejo de desvanecer e desaparecer, a romancista tentasse compensar a superexposição a que sua mãe a sujeitou desde o dia em que, com apenas cinco anos de idade, ela a surpreendeu improvisando uma música no piano. A partir de então, acreditando que o talento era incompatível com a humildade, seu pai começou a proclamar para seus parentes e vizinhos que sua filha era uma criança prodígio, bem como a lhe infligir as mais diversas “torturas estilísticas” na espera...

A lista dos 100 livros preferidos de David Bowie

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Por Diego A. Manrique A devoção de David Bowie (1948-2016) aos livros nem sempre foi bem compreendida. Nos anos 1970, quando evitava os aviões, viajava com uma verdadeira livraria ambulante: alguns baús que, uma vez abertos, davam a ver livros e mais livros. Muito suspeito para os guardas de fronteira soviéticos, encarregados de verificar o expresso que ia de Varsóvia a Moscou. Quando descobriram volumes dedicados a Albert Speer e Joseph Goebbels, pensaram que haviam detectado algum tipo de espião ou agitador. David se apressou em explicar que estava documentando-se para um possível filme. Antinazista, é claro. Claro que não havia esse projeto de filme. O interrogado, veterano de viagens difíceis na Transiberiana, sabia que era melhor não se complicar com a KGB: eles dificilmente entenderiam que se tratava de um consumidor de ideias que se colocava à prova em entrevistas e conversas, um alquimista que transformava informação em conceitos vendáveis, na forma de...

Boletim Letras 360º #353

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Aqui estão as notícias que publicamos durante a semana em nossa página no Facebook. Depois, as já recorrentes seções com dicas de leitura e outras informações relacionadas ao universo criativo de interesse do Letras in.verso e re.verso. Na próxima semana, no dia 27 de novembro de 2019, o blog chega aos 12 anos online. E estamos felizes por alcançar uma nova data. Chegaremos às duas décadas? É a pergunta que nos fazemos desde os primeiros dez anos. Por enquanto, seguimos. Boas leituras! José Saramago em Nova York, 1996. Foto: Rita Barros. A coleção que reúne estudos sobre a obra do escritor português ganha novo título. Segunda-feira, 18 de novembro Uma história ficcional em torno de uma forma de governo, eis o novo título da Editora Carambaia Democracia – um romance americano  pode parecer um título paradoxal ou irônico, mas é apenas uma boa descrição. Trata-se, de fato, de uma história ficcional em torno de uma forma de governo – aquela que, na famosa frase ...

A visão biblioteconômica do mundo

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Por Carlo Frabetti Em minha sombra, o oco breu com desvelo investigo, o báculo indeciso, eu, que me figurava o paraíso tendo uma biblioteca por modelo. Jorge Luis Borges, “Poema dos dons” Existem diferentes maneiras de ver o mundo e contar sua história. Algumas se excluem mutuamente, outras se ignoram e outras tantas se complementam; mas, por um motivo ou outro, todos elas merecem ser conhecidas. Uma delas é o que poderíamos chamar de visão biblioteconômica do mundo (VBM), segundo a qual o livro é o culminar de um processo evolutivo que começa com a matéria inanimada, se inflama com a vida e se ilumina com a consciência. E a luz da consciência é condensada na palavra (a carne se torna verbo), que por sua vez se cristaliza na escrita. O livro seria, portanto, epítome e emblema da consciência e sua continuidade. Pouco importa, para fins teóricos (embora muito para fins práticos), que o suporte de escrita seja a pedra, o papel ou o silício (novamente a ped...

A utopia do título perfeito

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Por Cristian Vázquez Ilustração: Daniel Savage 1 Há alguns escritores muito talentosos para intitular seus livros; outros, por sua vez, nem tanto, e muitas vezes necessitam ajuda de fora. Certa vez ouvi dizer de um autor – acredito que isso tenha uma pouco de anedota mas tem também muita verdade – que às vezes lhe apareciam títulos e gostava tanto deles que logo se sentia motivado a escrever romances ou contos apenas para intitulá-los. Com frequência é o editor, no fim de tudo, o responsável pelo título, quem o melhora com sugestões à proposta do autor. Um dos casos mais célebres é o do romance O coração é um caçador solitário , que sua autora, Carson McCullers, havia pensado chamar O mudo . Segundo Elena Rius, em seu livro A síndrome do leitor (tradução livre de El síndrome del lector, publicado em espanhol pela Trama Editorial em 2017), “os autores se dividem mais ou menos em dois grupos iguais, entre aqueles que desde o princípio pensaram um título ...

Velhos amigos, de Ecléa Bosi

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Por Pedro Fernandes Das vizinhas ao meio, Sobre a escada a fiar, uma velhinha, Naquele ponto onde se perde o dia; E recordando vai do seu bom tempo Quando em dias de festa se adornava E ainda fresca e esbelta Costumava dançar entre os que foram Seus companheiros da idade mais bela. – Giacomo Leopardi, “O sábado da aldeia”, tradução de Ecléa Bosi Desde muito antes a literatura servir à ciência como repositório para a compreensão sobre determinadas circunstâncias sociais e humanas, se formou um movimento criativo ao contrário. Isto é, pensadores de campos diversos do saber experimentaram suas ideias através do literário. Os nomes que talvez logo nos saltam da lembrança são os de Albert Camus, Jean-Paul Sartre ou Simone de Beauvoir, pensadores e autores de ficções que animavam os conceitos por ele pensados. Mas, eles não foram precursores desse recurso; se formos aos primeiros livros que se propõem oferecer alguma resposta para inquietações de ordem div...