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A “Comédia” de Dante: artifício do discurso divino

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Por Marco Perilli Dante e Virgílio. Edgard Degas.   Faz algum sentido, hoje, ler A divina comédia ? A resposta é unânime: sim. Tal como William Shakespeare, ou Miguel de Cervantes; igual a Homero ou a Bíblia. Agora, quanto às razões de tão categórica afirmativa, o critério é genérico, evasivo, apoia-se por trás de uma variedade de banalidades: são clássicos, eternos, exploram as paixões mais profundas, transcendem seu tempo e seu autor, são um espelho de nossa condição. Os clássicos nos leem. Umberto Eco dizia que os clássicos são os livros que odiamos já que nos obrigaram a lê-los na escola. Os clássicos, anotava Flaubert em seu Dicionário de lugares comuns , são os livros que nós presumimos conhecer.   A Comédia de Dante, que Boccaccio qualificou de divina , é o ponto de chegada e não regresso de uma civilização. Se em nosso imaginário, Dante é o criador de um mundo fantástico, o visionário de um além convulso e alucinado, e divertido, entre seus contemporâneos era apenas ...

Dante em 1848

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  O céu de Marte. Canto XIII, Paraíso. Salvador Dalí.   O conde Terenzio Mamiani della Rovere (Pesaro, 1799-Roma, 1885), primo de Leopardi, foi uma figura política influente durante o século XIX na Itália. Católico liberal e maçom, lutou pela unidade italiana e se tornou Ministro da Instrução Pública no governo Cavour em 1860 e posteriormente Vice-Presidente do Senado em 1864. Como era de costume nos políticos da época, deixou abundante trabalho político e literário e até poesia. Em 1848, publicou, como parte de um “Parnaso italiano”, uma antologia dedicada ao Poeti italiani dell’età media, ossia scelta e saggi di poesie dai tempi del Boccaccio al cadere del secolo XVIII . Comparando a fama e a fortuna de Dante e Shakespeare, para escrever sobre a implicância de Tolstói contra este último, me deparei com o livro de Mamiani e seu prólogo em que Dante aparece como o primeiro entre todos os escritores modernos, acima de Shakespeare, que é reprovado por sua falta de religião, como...

Boletim Letras 360º #450

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DO EDITOR   1. Caro leitor, enquanto trabalhávamos obstinadamente para angariar fundos a fim de custear as despesas com o domínio e hospedagem do blog para 2021, recebemos contatos de vários leitores e foi a partir de dois deles que iniciamos um projeto com duplo interesse: reduzir o sufoco da necessidade e retribuir o empenho, grande ou pequeno, que você dedica a este projeto.   2. Com o apoio de editoras parceiras sortearemos a cada bimestre kits com livros entre os apoiadores do Letras . E já conseguimos três apoios para os três primeiros bimestres: a editora Mundaréu, a editora PontoEdita e a editora Bandeirola, respectivamente. Fique atento que divulgaremos por aqui e nas nossas redes o andamento de tudo, incluindo quais títulos encontrarão em cada um dos kits. Você pode se informar detalhadamente sobre como apoiar e garantir sua participação nos sorteios aqui .   3. Avisamos no Instagram e repetimos por aqui. Todos que apoiaram o Letras na campanha que fizemos em 2...

As leituras de Karl Marx

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Por Christopher Domínguez Michael   Como poucas figuras da história universal, Karl Marx mudou o destino de milhões de homens. De sua obra deriva, em boa medida, a social-democracia, a qual, em fecundo conflito com o liberalismo, criou sociedades onde o bem-estar se expande a níveis jamais sonhados no périplo da humanidade. De sua obra – como precocemente o fizeram saber anarquistas como Proudhon e Bakunin – nasceram também interpretações que deram origem a regimes despóticos de uma crueldade concentracionária jamais vista. Mas se nos trasladamos a nosso pequeno universo, ocorre que há outras pessoas que levam como próprios os nomes de certos próceres – em minha infância conheci meninos Stálin e Sandino –, e no México da autoproclamada Quarta Transformação, alguém chamado Marx (tendo Arriaga Navarro por seus sobrenomes) chamou a atenção por ser um funcionário de nível mediano, mas cheio de grandes ilusões calcadas no esquadro totalitário. Muito distante no tempo, ou arrojados da Hi...

Antonio, de Beatriz Bracher

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Por Pedro Fernandes Beatriz Bracher. Foto: Piudip.   Sabedores de que toda família guarda um esqueleto no armário, de quantas maneiras é possível compor uma saga familiar? O romance tem oferecido diferentes e interessantes respostas desde sempre. Na literatura brasileira podemos listar, de um rol nunca concluído, A falência de Júlia Lopes de Almeida, Crônica da casa assassinada de Lúcio Cardoso, A menina morta de Cornélio Penna e Antonio de Beatriz Bracher que com Leite derramado de Chico Buarque formam alguns dos melhores exemplos das publicações recentes — este último se publicou dois anos depois de 2007, data da primeira edição do livro da escritora paulista.   Podemos ler Antonio como um romance produto da feliz combinação de alguns recursos narrativos e temáticas dos seus antecessores e com os de um romance certamente vislumbrado pela crítica desde o anúncio de sua chegada: Enquanto agonizo , de William Faulkner. Aqui, enquanto esperam a morte de Adie Bundren, a famí...