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Boletim Letras 360º #456

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DO EDITOR   1. Caro leitor, aqui estamos com outra edição desta post fixada aos sábados desde há 453 semanas. Reúnem-se a seguir todas as notícias que correram a semana em nossa página no Facebook e outras que ainda não chegaram por lá. Também estão as demais seções com dicas de leitura — com atenção para o bicentenário de Fiódor Dostoiévski.    2. Lembro que no dia 26 de novembro, o Letras sorteia o primeiro ganhador do nosso pequeno clube de apoios à manutenção do blog. Levará um kit com três livros ofertado pela Editora Mundaréu. Você pode saber tudo sobre como participar aqui . Se estiver numa das redes do blog, pode consultar mais detalhes no Instagram , no Facebook ou no Twitter .   3. Muito obrigado por sua presença, pelo apoio e seguimos! Boas leituras! José Saramago. Uma variedade de atividades abre e organiza o ano para o centenário do escritor: uma delas é o 2.º Colóquio de Estudos Saramaguianos.   LANÇAMENTOS   Em um dos testemunhos mais impr...

Farmácia Literária ou a cura pelo romance

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Por Pablo Augusto-Silva Farmácia Literária , ainda que não original, é uma obra singular. Ella Berthoud & Susan Elderkin criaram um livro que poderíamos classificá-lo como de 1001 utilidades — misto de dicionário analógico, autoajuda, receituário, crítica literária, manual para biblioterapeutas — mas, para além de tudo isso, indicações ao grande público de boas obras literárias, de best-sellers às ilustres desconhecidas. As autoras listaram uma série de problemas ou doenças, físicas e emocionais, e para cada uma sugere a leitura de uma obra de ficção. A primeira lista, “Males de A a Z” (p. 11-360) segue com verbetes como: “abandonar o barco, desejo de”, “câncer, cuidar de alguém com”, “concentração, incapacidade de”, “diferente, ser”, “fobia”, “internet, vício em”, “inveja”, “maternidade”, “nariz, detestar o seu”, “ódio”, “pânico, ataque de”, “pesadelos”, “quarenta anos, ter”, “ressentimento”, “sentido, falta de”, “tagarela, ser”, “terminar, medo de”, “TPM”, “trinta ...

Anos de chumbo e outros contos, de Chico Buarque

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Por Pedro Fernandes Desde o primeiro conto publicado nesta antologia é notável o espírito provocador que Chico Buarque tem empunhado desde Essa gente , uma caricatura assombrosa do Brasil mais recente. Não que esse interesse estivesse fora do seu horizonte criativo na prosa ficcional anterior; há certa lucidez para olhar nossa história com mirada descarnada, apontando o nosso pior desde sempre. Mas é com o romance de 2019 que melhor vemos a força desse interesse, ao ponto de se confundir o homem que conhecemos, suas convicções, e o fazer disso um campo de debate sobre os nossos vícios, doenças e fracassos. O medo que sempre acompanha o leitor mais interessado no literário é do deslize capaz de maximizar o político mitigando o estético. É sempre cedo para se fazer quaisquer projeções sobre uma obra em curso, mas com o que tem saído da pena do escritor, sosseguemos: com a elegância que lhe peculiar, o escritor distingue bem os dois limites mas não os sobrepõe. Se acontecer isso, também n...

Stendhal descobre um amor de Michelangelo

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Por Juan Forn Michelangelo. O Gênio da Vitória (A Vitória), 1532.   Era uma vez um escritor francês que conseguiu virar italiano. É assim que Stendhal queria ser lembrado (até pediu que em sua lápide estivesse escrito: “Enrico Beyle, italiano. Viveu, escreveu. Amou.”). Isso não o impedia de confessar que toda vez que tinha que falar algo importante para si mesmo, falava em inglês, porque é preciso ser conciso para coisas importantes. Stendhal se percebia um falastrão, numa época e num lugar que não era aconselhável ser esse tipo. Daí que assinava seus livros sob um pseudônimo e viveu fora da França: na realidade, ele era Henri Beyle, o vice-cônsul de seu país em Civitavecchia, um posto de pouca importância mas única maneira que ocorreu a um bonapartista como ele de se manter fora da França naqueles tempos monárquicos.   Na Itália, possuía, do seu jeito, algum divertimento: como se apaixonar por todas as belas mulheres de sua época. Muitas partiram seu coração; ele alegremente ...

Fiódor Dostoiévski, o filósofo da liberdade

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Por Gary Saul Morson Dostoiévski. Fotografia em Paris por Émile Bondonot (c. 1862) No dia 22 de dezembro de 1849, um grupo de ativistas radicais foi retirado de suas celas na Fortaleza de São Pedro e São Paulo em São Petersburgo, onde foram interrogados por oito meses. Foram levados para a Praça Semenovski e ali ouviram suas sentenças de morte por fuzilamento. Receberam longas batas brancas de camponês e gorros — suas mortalhas — e foi oferecida a extrema unção. Os três primeiros presos foram agarrados pelos braços e amarrados a um poste. Um deles se recusou a ser vendado e olhou desafiadoramente para as armas apontadas em sua direção. No último minuto, os soldados baixaram as armas quando um mensageiro entra a galope com um decreto imperial substituindo suas sentenças de morte por reclusão num campo de prisioneiros na Sibéria, seguido por um período de serviço militar no exército. Esse resgate de última hora, na verdade, foi planejado com antecedência e fazia parte da punição, um aspe...

Mishima ou a queda do herói (parte 1)

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Por Julio Tovar   Viva a morte! Morte aos intelectuais!   (Legionários no ato de Miguel de Unamuno [12 de outubro de 1936] citado em Manuel Aznar Soler, República literária y revolución [1920-1939] , Sevilha, Editorial Renacimiento, 2010, p. 417-418). Yukio Mishima, Tóquio, 1961. Foto: Burt Glinn.   É o ano de 1944. O Japão vive desde 1942 contínuos bombardeios que devastam a ilha de norte a sul. Com cinco milhões de soldados distribuídos entre os territórios conquistados e a metrópole, o país do sol nascente perde uma guerra impossível diante de um colosso de cento e trinta milhões de habitantes. Morte, ruínas e miséria; tríade fatal que revela o pesadelo que foi na realidade o imperialismo dos sonhos do generalato. O recrutamento neste império arruinado do ano 44 acaba de chegar aos nobres adolescentes.   Um deles, chamado Kimitake Hiraoka ( 平 岡 公 威 ), já está na estação de Hoden para fazer seu exame médico. Ele é uma criança magricela, doente, com maçãs do ro...