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Salman Rushdie: o atentado e muito mais

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Por José Woldenberg   Antes e depois   Em 12 de agosto de 2022, Salman Rushdie se preparava para dar uma palestra quando um jovem subiu ao palco e o atacou com uma faca. Graças à intervenção de Henry Reese, seu anfitrião, e de vários membros do público, o agressor foi preso. Antes, porém, em 27 segundos, ele esfaqueou o escritor quinze vezes no pescoço, no peito, nos braços, na mão, na boca e em um olho. Havia se passado pouco mais de 33 anos desde a sentença de morte ( fatwa ) que o aiatolá Ruhollah Khomeini emitiu contra Rushdie quando seu livro Os versos satânicos foi publicado.   Salman Rushdie decidiu escrever um livro sobre a agressão que o colocou à beira da morte para desvendar o terreno fértil que gera a paixão criminosa, dissecar as consequências nele deixadas pela violência deixou e propor a existência de um antes e um depois em sua vida. Rushdie recria a sua transferência de helicóptero, os cuidados de emergência no hospital, as múltiplas intervenções cirúrg...

Feito na Inglaterra: Marty oferece outra lição de cinefilia

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Por Alonso Díaz de la Vega Durante algumas semanas em 2003, um canal a cabo transmitiu programação dedicada a Martin Scorsese. Nessa autêntica retrospectiva — havia desde os clássicos essenciais aos filmes menos vistos — deparei-me com uma ficção, Taxi Driver (1976), que capturou a minha solidão adolescente, e um documentário, Minha viagem à Itália (1999), que é a mesma razão pela qual este recém-saído da infância escreve agora sobre cinema. Scorsese me afetou de forma inevitável e permanente quando o ouvi falar um pouco mais devagar do que o habitual, evitando o riso estridente, para prestar homenagem aos cineastas italianos que viu quando criança na televisão e que imitou na sua carreira de cineasta. Acima de tudo, fiquei impressionado com a forma como ele descrevia a saia de Alida Valli em Sedução da carne (1954), de Luchino Visconti: enquanto ela sobe uma escada desesperadamente, seu vestido se move “como se tudo a empurrasse para frente, em direção a um destino terrível”. Como ...

Edgardo Cozarinsky

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Por Maya González Roux Edgardo Cozarinsky. Foto: Sophie Bassouls   Edgardo Cozarinsky morreu em sua cidade natal, Buenos Aires, no dia 2 de junho. Escritor e cineasta, cineasta-escritor ou apenas escritor, já que considerava a montagem o momento-chave do cinema — “os filmes são escritos durante a edição”, dizia. É difícil lançar uma única luz sobre este pródigo contador de anedotas, de memória colossal, figura sempre em busca e aberta à experiência, aos encontros casuais, ao imprevisível, amante da noite, das sombras e das elipses, generoso com os seus interlocutores. Talvez todas estas imagens se juntem numa só: a do viajante. Sim, Cozarinsky foi acima de tudo um curioso e incansável viajante.   Neto de imigrantes judeus que vieram da Ucrânia e da Moldávia para a Argentina no final do século XIX, Cozarinsky nasceu em 1939 (talvez dois anos antes, mas essa era uma anedota que ele reservava para os íntimos). Na juventude, ávido pelas novas ondas do cinema, foi um grande leitor...

Sobre lagos, quedas e relatos

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Por Caio Meirelles Aguiar Descrever o entorno na esperança de capturar, o objeto. Um manual de montagem para enxergar, a máquina. Uma lista de compras para saborear, o almoço. Uma receita médica para diagnosticar, a dor. Um mapa topográfico para delimitar, a alvorada. Um anfiteatro para iluminar, o vazio. A cena imaginada, porém presente, por cercamento.   Luigi Ghirri, Salisburgo (1977) fotografia analógica   Bons filmes, aqueles que de fato voltam à nossa memória e onde sempre há espaço para retorno, geralmente o são por possibilitar um contínuo desmembramento de camadas, significados e novas interpretações. Muito além de contar uma boa história ou nos impactar com fotografia e efeitos visuais impressionantes, acredito que os filmes que guardamos profundamente na memória são também aqueles que friccionam o tecido da vida; relações, comunicação, empatia, afeto e — principalmente — a dificuldade de se obter ou transmitir tudo isso.   Anatomia de uma queda (2023), escrito...

Boletim Letras 360º #595

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Jon Fosse. Foto: Tor Stenersen LANÇAMENTOS   A chegada ao Brasil da poesia do Prêmio Nobel de Literatura 2023 Jon Fosse .   Quando o nome do norueguês Jon Fosse foi anunciado para receber o mais importante prêmio da literatura em 2023, os leitores de outros idiomas o conheciam principalmente pela sua produção para o teatro, mas não demorou para que sua obra em prosa começasse a aparecer nas vitrines em todo o mundo. Fosse, no entanto, é “poeta de ofício”, isto é, iniciou-se na escrita fazendo poemas, já na adolescência, e nunca abandonou os versos desde então, como revelam os livros agora reunidos em  Poemas em coletânea , que acompanha uma produção que se estende de 1986 até 2016. Em todo esse período, com as tormentas próprias de uma obra visceral, os poemas de Fosse levam os leitores a experimentar um trânsito vertiginoso entre paisagem externa e vida interior, em que a peculiar geografia à sua volta — com suas cores intensas, dezenas de milhares de ilhas e lagos forma...

Margeando as experiências estéticas pelas ficcionalizações narrativas

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Por Herasmo Braga Pablo Picasso. Mulher lendo .   Entre os diversos aspectos que revelam a precarização nas formas de se perceber o mundo ao redor encontra-se nos processos de incomunicabilidade em voga. Cada vez mais nos silenciamos pelas imagens, cada vez mais nos virtualizamos por meio de repetições, cada vez menos interagimos por ações dialógicas, cada vez menos apreendemos os sentidos. Isso não são traços pessimistas, mas simples descrição do que nos cerca. Precarizar as ações e efeitos interpretativos com perdas dos sentidos é comprometer a própria existência do ser.   Umberto Eco em Sobre a Literatura enuncia-nos a seguinte observação: “Os textos literários não somente dizem explicitamente aquilo que nunca poderemos colocar em dúvida, mas, à diferença do mundo, assinalam com soberana autoridade aquilo que neles deve ser assumido como relevante e aquilo que não podemos tomar como ponto de partida para interpretações livres”. Com base nestas primeiras observações de Eco...