Um genocídio outro, um genocídio só

Por Pedro Fernandes



Tenho acompanhado pela mídia o desenrolar da queda de braço apresentada entre professores e estado, professores e municípios. O fato não é novo, é verdade. Entra ano e sai ano e a novela se repete. Mas, depois de ver os rumos que determinadas greves têm tomado, sinto necessidade de sair de meu latente estado de espectador para dar pitaco sobre a questão. Não quero me posicionar a favor ou contra a arma que os trabalhadores vêm usando para intimidar o Estado, desde que a greve foi assegurada por lei, entretanto, algumas questões devem ser vistas com certa cautela. As questões a que me refiro são as que os governos - em todas as instâncias - têm feito para com a educação nesse País; educação que depois das propostas de Cristóvão Buarque à presidência da República na última eleição tem servido de engodo a políticos e políticos para se elegerem, assim como tem servido de engodo o meio ambiente, a saúde, a reforma agrária e outras questões que vira e mexe elegem políticos e políticos e até fundam partidos, entretanto, continuam tais questões mofando no estágio dos planos.

Acerca da educação nesse País digo o que esses governos - em todas as instâncias (repito) - têm feito e concluo desde já que o que eles têm feito, constitui, sem dúvidas, na elaboração de um sofisticado plano de genocídio. Falo de genocídio no sentido estrito da palavra, o de matança em massa; falo de genocídio com a propriedade de quem entende do assunto porque vive ele, dia a dia, como professor. E digo que não é necessário correr muito longe para entender do que falo, basta que o leitor vá a uma escola pública - estadual ou municipal - mais próxima, e passe por lá um expediente, que não terá necessidade de ler o restante deste artigo, porque o que ele verá é amostra da modelagem da máquina de matar construída pelo Estado para dar conta do genocídio sobre o qual falo; o genocídio de uma população inocente e que honestamente paga sob forma de juros e mais juros uma quota para subsidiar a tal máquina de matar. Se os governos ao menos desocupassem suas bundas das cadeiras em que passam, boa parte do tempo, sentados; se os governos reduzissem seus astronômicos salários pelos salários de fome a que os professores estão submetidos, entenderiam melhor o problema, teriam, talvez, medidas concretas para resolver a situação e não tomariam as medidas de negociação desastrosas que vêm tomando nos últimos movimentos de professores, sinalizando um total desrespeito pela categoria.

À escola pública não rola mais aquele papo de que ela está sucateada, porque ela já está, talvez, morta. Por todas as públicas que passei na minha curta carreira de professor - as de periferia e as de centro - o que dei de cara foi com a concretização desse desrespeito que Estado nutre não apenas para com a categoria professor, mas para com seus cidadãos. São crianças empilhadas em números que chegam a 60 em salas de aula que não cabem mais que 30, muitas delas sem total ventilação; são crianças que, pela falta de professores em sala, entra semana e sai semana, entra ano e sai ano e não sabem o básico de determinadas disciplinas que são empilhadas em cinco corridos horários; são escolas de chão de barro; são escolas de teto-peneira; são escolas sem água, eletricidade; são professores totalmente desqualificados que não sabem nem o ofício a que estão lotados; são professores que se matam nesses cubículos sem ar, sem circulação, espremidos entre alunos e um quadro; são professores que só têm como material didático um quadro e um giz; são professores que tem que trabalhar três expedientes corridos para juntar uma mixaria no fim do mês; são professores que passam fome, que vivem em condição de miséria. Depois desse rosário - que se o espaço coubesse se estenderia por muito mais linhas - uma constatação simples: tudo é de conhecimento do Estado, só não é de vivência sua porque este não sai de suas salas confortáveis para ver a situação. Este simplório rosário de crueldade é a amostra da máquina viva de genocídio humano, alimentada pelos governos. Não digo isso porque faça parte daquela considerável soma de professores que já depositaram no lixo a confiança que tinham na educação, digo isso porque faço parte daquela pequena soma de professores que ainda têm esperanças na educação, mas vê que é necessário ser mais que um super-herói, é necessário ser um deus para vencer determinadas amarras.

No mais retorno ao rumo que tem tomado os últimos movimentos de professores; essa tem sido a vergonha maior do Estado que se diz preocupado com seus cidadãos, como o Estado que diz zelar pelos princípios básicos da Constituição. O efeito da intimidação - que é o que tem feito toda grande Ditadura - para dar aval àquilo que já é garantido por lei, é a maior vergonha do Estado para com seus cidadãos. Por que dessa forma, para que servem as leis, apenas para reluzirem no papel? E junto com isso continua o Estado a produzir alunos sem cérebro, prontos para ser engolidos pela sociedade. Um genocídio outro, mas um genocídio. Um genocídio só.


* Texto publicado no Jornal Correio da Tarde em 25 de março de 2009.

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