Seis poemas de Wendell Berry

Por Pedro Belo Clara 
(Seleção e versões)*

Wendell Berry. Foto: Guy Mendes 



PLANOS
(The Broken Ground, 1964)

O meu velho amigo, dono
dum barco novo, aparece
com um convite para pescar, 

e eu digo que sim — ambos 
sabendo que talvez nunca
nos aprontemos a tal, é possível

que passem anos até estarmos
de novo livres no mesmo dia.
Mas fazemos planos, em todo o caso,

em honra da amizade
e do bom tempo primaveril
e do barco novo

e da súbita imagem partilhada 
de água cintilando
sob o nevoeiro matinal. 


A PAZ DAS COISAS SELVAGENS
(Openings, 1968)

Quando o desespero pelo mundo toma conta de mim
e de noite ao mínimo som desperto,  
temendo no que a minha vida e a de meus filhos se poderá tornar,   
saio e deito-me onde o pato-carolino
repousa em sua beleza sobre a água, e a garça-real se alimenta.
Venho para a paz das coisas selvagens,
que não taxam as suas vidas com previsões 
de tristeza. Venho até à presença das águas serenas. 
E sinto acima de mim as estrelas cegas pelo dia
aguardando com a sua luz. Por um momento
repouso na graça do mundo, e sou livre. 


2 DE FEVEREIRO, 1968
(Farming: A Hand Book, 1970)

Na ausência da lua, na neve esvoaçante, no cume do inverno,
a guerra proliferando, famílias morrendo, o mundo em perigo,
percorro a encosta pedregosa, semeando trevos. 


ENRIQUECENDO O SOLO
(Farming: A Hand Book, 1970)

Para enriquecer o solo semeei trevo e erva
para crescer e morrer. Revolvendo a terra, plantei 
grãos de inverno e diversas leguminosas;
crescem, e a terra de novo revolvida para enriquecer o solo.
Misturei os sobejos e a podridão
dos viços de estações passadas
e assim reparei a terra, aumentando o seu rendimento.
Tudo isto serve a escuridão. Lentamente tombo
na profundeza das coisas. No entanto, servir a terra,
não sabendo o que sirvo, concede uma amplitude
e um deleite à atmosfera, e os meus dias
não passam por completo. É o serviço da mente,
pois quando o ânimo falha as mãos acompanham,
e o ente vive às custas da vida.
Depois da morte, querendo ou não, o corpo presta serviço,
entrando na terra. E então o que havia de mais pesado
e emudecido é por fim erguido em canção. 


GANSOS SELVAGENS
(The Country of Marriage, 1973)

A cavalo num domingo de manhã,
a colheita findada, provamos dióspiros
e uvas selvagens, um sabor agridoce
no fim do verão. No labirinto do tempo
sobre os campos do outono, dizemos os nomes
que daqui partiram para oeste, nomes
que repousam em sepulturas. Abrimos
uma semente de dióspiro para encontrar
a promessa de árvore,
pálida, na medula da semente.
Chegam os gansos, bem alto sobre nós,
passam e o céu fecha-se. O abandono,
como no amor ou no sono, junta-os
ao seu caminho, limpo,
na fé ancestral: o que precisamos
está aqui. E oramos, não
pela nova terra ou pelo paraíso, mas
para ser de coração quieto e visão limpa.
O que precisamos está aqui. 

FICA EM CASA
(A Part, 1980)

Esperarei aqui, nos campos,
para ver como a chuva
faz a erva crescer.
No labor dos campos,
mais longo que a vida dum homem,
estou em casa. Não venhas comigo.
Fica em casa também.

Estarei nas matas,  
onde as árvores antigas
movem-se apenas com o vento
e depois pela gravidade.
Na quietude das árvores
estou em casa. Não venhas comigo.
Fica em casa também. 

______

Wendell Berry, o célebre “poeta-lavrador” norte-americano, nasceu a 5 de agosto de 1934, em Henry County, no estado do Kentucky. 

O primeiro de quatro filhos, nasceu no seio duma família com antigas ligações à terra. O seu pai era advogado e cultivava tabaco, mas de ambos os lados recebeu a herança da cultura, respeito e amor à “mãe de todas as coisas”.  

Cumpriu o ensino secundário numa escola militar local e, mais tarde, formou-se em Língua Inglesa, com bacharelato e pós-graduação, na Universidade do Kentucky. No mesmo ano, em 1957, casou com a companheira de sempre.

Em 1958 recebeu uma bolsa da Universidade de Stanford, que lhe permitiu aí frequentar um curso de escrita criativa. Dois anos depois editaria o seu primeiro livro, um romance. 

Após uma breve estadia na Europa, mais precisamente em França e Itália, ao abrigo do programa Guggenheim, que o galardoara, instala-se em Nova Iorque para leccionar Inglês na universidade local. Passados dois anos, em 1964, regressa ao seu estado natal para continuar o ofício de professor, desta vez na área da escrita criativa, cargo que desempenhará durante treze anos. Igualmente nesse ano edita The Broken Ground, o seu primeiro livro de poesia. (Pouco antes, esclareça-se, um outro livro do género é publicado, mas não passa dum longo poema escrito em honra do falecido Presidente John F. Kennedy). 

A antiga atracção familiar, legado que recebeu e viria a honrar, começou a falar mais alto, pelo que em 1965 muda-se com a esposa e os filhos para uma recém-adquirida quinta de quase cinco hectares, junto ao rio Kentucky. Começa por cultivar milho e outros cereais, gizando assim os primeiros contornos duma propriedade que chegará a atingir quarenta e sete hectares e a contar com a inclusão de diversos animais. Desde então é o lugar onde Wendell Berry tem produzido todo o seu trabalho, que além da poesia e do romance espalha-se também pelo domínio do ensaio. Em alguns trabalhos desse género, o autor abre o coração e explica os motivos da sua mudança para o campo e as primeiras experiências de contacto directo com a terra.  

Um retorno à vida rural pode facilmente ser traduzido num desejo de reclusão, mas se há imagem impossível de colar a este autor é, precisamente, a de eremita. Sempre de personalidade activa e consciente, nunca deixou de elevar a voz quando sentia o dever de fazê-lo. Crítico do governo norte-americano sempre que considerava violados certos preceitos fundamentais, opôs-se à guerra do Vietname, à pena de morte, ao desmesurado poder corporativo; praticou diversos actos de desobediência civil pacífica, seguindo as melhores orientações de Thoreau, e, quando se justificou, uniu esforços com os pequenos agricultores da América rural e grupos ambientalistas.

Voltaria ao departamento de língua inglesa da Universidade do Kentucky no final da década de 80, após anos de ausência, até sair definitivamente em 1993. Até à data, podemos admirar a vasta obra de Wendell Berry através de mais de vinte e cinco livros de poesia, mais de trinta volumes de ensaio e ainda vinte obras de ficção. Em 2011, o então presidente norte-americano Barack Obama galardoou-o com a National Humanities Medal. 

A poesia de Berry é uma poesia de lugar, de culto e louvor do espaço, de pertença e também de responsabilidade. Fortemente ligada à terra e aos motivos rurais, celebra as pequenas comunidades, as relações humanas e as relações com a própria terra. Um trabalho vivo e crítico, acurado e atento, de observação e pensamento — que permite, desde logo, a extração duma riqueza de conteúdo notável, um sólido conjunto de preocupações políticas, económicas e até morais. 

Abarcando a ruralidade com todas as suas vicissitudes e benesses, sabe ser crítica quando julga merecer o reparo — mas não sem efeito, pois a palavra de Berry é participativa, agrupa e incita o movimento. Tanto do ponto de vista histórico como industrial/tecnológico, diversas abordagens são elaboradas, como crítica, lamento e, por vezes, solução para um futuro mais sustentável.  

Torna-se natural, numa temática tão centrada na ruralidade, a abordagem de assuntos óbvios em cenários tais, como a morte e a eterna renovação do mundo, movida pela sucessão dos seus ciclos. Este ritmo é captado e trabalhado dum modo sapiente, ensinando por essa via o respeito pelo tempo de cada coisa.  

Do mesmo modo, sendo muito uma poesia de “tempo presente”, mas não propriamente idílica, convida ao espetáculo da vida, focando-se no momento tal como se apresenta. O apaziguar das fúrias e frustrações do mundo dos homens chega precisamente pelo contacto com a dádiva do presente, pela abertura do coração do “eu-poético” ao instante observado e vivido, a presença plena dum cenário que de tão pacífico ilumina, de tão silencioso liberta. Não obstante, dá espaço ao tempo passado, sendo também, e com digna propriedade, uma poesia de memória. 

Esta simplicidade de estar, de abertura e de processo percebe-se pela linguagem acessível e concreta. Mesmo que se possa identificar algumas intenções líricas na poesia de Berry, não há excesso de adjectivo ou adorno do verso — antes a frugalidade, por vezes seca ou rude, da terra geradora de vida. Pelo meio, o tom meditativo que amiúde se introduz em tal linha. 

Amadurecida pelos anos, pela prática de décadas de plantação e colheita, nascimentos e mortes, a sua poesia confunde-se com a própria existência e, sendo fortemente ética, deixa a importante nota: a terra, origem de tudo, como a maior herança recebida por uma geração, e por sua vez a dádiva maior que uma poderá a outra legar.  

Pela importância sempre sublinhada de cuidar das origens também humanas, Wendell Berry figura hoje, aos 91 anos, como um destacado poeta ecologista, preocupado em sugerir os melhores rumos e alternativas de curso para o futuro civilizacional humano, tecido aqui e agora. 


* Versões a partir dos originais editados em The Peace of Wild Things (Penguin Random House UK, 2018)

Comentários