As estrelas de Compostela, de Henri Vincenot
Por Amanda Fievet Marques
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| Henri Vincenot. Foto: Ulf Andersen (Reprodução de franceinfo) |
Ao eventual leitor dessa coluna que tenha apreciado o tema que evoquei em abril — isto é, as intersecções entre literatura e arquitetura no romance Pedras selvagens (1964), de Fernand Pouillon, que imagina o processo de construção da abadia cisterciense do Thoronet na Provença do século XII —, julgo ser de elementar cordialidade, se não dever de ofício, oferecer aqui um segundo pitaco.
Devo apontar que, disparidades à parte, tais intersecções também são centrais no romance histórico As estrelas de Compostela (1982), do pintor, escultor e escritor francês Henri Vincenot. Trata-se de um romance de iniciação que se passa na Borgonha do século XIII, e acompanha o desenvolvimento do jovem Jehan le Tonnerre (“João Trovão”) sob os auspícios de seu mentor, o Profeta, que o introduzirá aos valores e símbolos celtas; bem como sob os ensinamentos arquiteturais ministrados pelo mestre de obras da igreja, Gallo, que lhe transmitirá sua geometria e demais saberes.
Como eu disse, a premissa é basicamente essa: Jehan, de início pertencente à comunidade dos desbravadores (essarteurs) do povoado, torna-se aprendiz dos “Companheiros construtores” que lá trabalhavam no canteiro de obras de uma abadia cisterciense, num momento em que os valores cristãos e celtas ainda coexistem.
Esteja o leitor avisado, no entanto, de que se constata uma discrepância entre o interesse histórico e simbólico do romance e sua insuficiência narrativa. O miolo é interessante, mas excessivo, carece de emoção, de tal modo atulhado de referências várias. A narrativa se dispersa em miríades de vias — a geometria, a matemática, a mitologia, a religião — sem jamais encontrar propriamente um núcleo de ação, nem tampouco reter o interesse apaixonado do leitor.
O estilo se organiza por uma heterogeneidade linguística marcada pela coexistência de estratos que articula o patoá borgonhês (charpeignes, genière, pharamine), o francês arcaico (pitance, parsonnier, gélines, oui da, lantiponer, mésels, cagots), o argot (pauche), os latinismos (miserere mei domine!), os coloquialismos (flambard, escogriffes, bobonne), os regionalismos (boudiou), os vulgarismos e os marcadores de oralidade que se exprimem, por exemplo, pelo dativo ético.
Do ponto de vista das modalidades enunciativas, encontra-se a narração heterodiegética, que é a predominante. Seus desvios são a apóstrofe ao leitor (cf. Vincenot, 1982, p. 39) e a metanarração, isto é, quando súbito irrompe a voz do autor que se presta a tecer comentários a respeito do próprio texto ou estilo (cf. p. 56, 221, p. 227). Nesse último caso, ele menciona explicitamente o objetivo de exprimir os ditos de suas personagens medievais em “linguagem de hoje em dia” (p. 205). Dessa forma, o que se observa em grande parte da narrativa e dos diálogos é o francês moderno atravessado por tais idiossincrasias e vocábulos supracitados. O efeito dessa mistura é inusitado, e o leitor não pode evitar indagar-se, diante disso, se a escolha por manter majoritariamente o francês moderno incide em didatismo ou anacronismo.
Há também as enumerações, hipérboles, assonâncias, aliterações, onomatopeias, interjeições, expressões populares, as locuções verbais… Certo é que não se pode acusar Vincenot de parcamente mobilizar a língua. Em todo caso, ela não parece jamais atingir nessa prosa o nervo do leitor: vê-se o trabalho sem, no entanto, plenamente senti-lo. A bem da verdade, sente-se apenas a densidade do tempo, que parece ganhar contornos temíveis a cada parágrafo a mais de peripécias nulas que desembocam em lugar nenhum.
Ainda assim, há que se ressaltar as passagens dignas de interesse. Primeiramente, Vincenot refere no prólogo sua obra à imaginação por meio de uma distinção. Ele a concebe não como uma glândula suplementar cujas estranhas secreções formariam em seguida obras literárias grandiosas ou medíocres, mas como uma espécie de reservatório alimentado por múltiplos mananciais. A obra desponta, assim, enquanto limite extravasado, o ponto de transbordamento: “uma infinidade de rios, de riachos, de filetes de gotejamento, de ressurgências. […] E então, é a ‘obra’ — escrita, falada ou pensada — que se espalha como uma inundação” (p. 10, tradução minha).
Em segundo lugar, Vincenot põe em xeque a hegemonia da cultura greco-romana em prol de um enaltecimento da cultura celta. Ele conduz o leitor ao encontro entre dois mundos, o mundo cristão e aparente da construção das igrejas e abadias, e o mundo celta subjacente dos símbolos e ritos. Enquanto João, o Evangelista, possui um caráter febril e complicado, segundo o mentor de Jehan, a índole celta é clara, simples e luminosa. Enquanto os romanos pensavam pelo viés da história, da nação, da prática e da política, os celtas o faziam por meio da fábula, do cosmos, da filosofia, da moral e da mística: “Os romanos? Aquela pobre gente que era obrigada a escrever para se expressar!” (p. 116-7).
O mentor também é o contador de histórias celtas que, partilhadas geração após geração, garantem a vivacidade da cultura druida. O Profeta conta a Jehan a história de Pwyll, rei de um Outro Mundo que troca de lugar com um rei humano para ter um filho de uma mulher terrestre. Essa mulher se chama Rhyamon, e ela será fecundada sem que Pwyll a toque e, em seguida, dará luz ao menino Pryderi. Trata-se, sem dúvida, de uma variante do mito da virgem fecundada e que se encontra em outras tradições culturais e religiosas, como no cristianismo — Jesus Cristo nasce da Virgem Maria pela operação do Espírito Santo —, e num canto de Virgílio.
O Profeta defende, portanto, em mais de uma ocasião, que a versão celta do mito da virgem fecundada é a mais antiga (cf. p. 80, 131). Noutra ocasião, é Gallo que reitera essa posição ao argumentar em prol da precedência do espírito celta em relação ao espírito cristão. Ou seja, ele defende que a religião celta é uma religião pré-cristã, que teria sido desviada e reexplicada, no conjunto de seus símbolos e de suas imagens, posteriormente, em matriz cristã.
Nesse sentido, é também notável a leitura proposta no romance da Ordem cisterciense pelo viés céltico. Comandada pelo abade Bernard de Clairvaux, ela preceituava simultaneamente os valores que deveriam reger a edificação dos espíritos e dos edifícios. Para Gallo, a Ordem cisterciense tenciona permanecer na tradição celta e, por isso, ela reúne os três poderes druídicos: o sacerdotal, pois ela faz os papas; o real, pois ela comanda os reis; o arquitetural, pois ela erige suas abadias no local das construções druídicas. Para ele, o conjunto dos conhecimentos druídicos “determinou uma teogonia revelando a quem quiser conhecê-los as origens da vida, a crença na sobrevivência da alma, a vida eterna, o Deus único e as relações entre a divindade e o magnetismo solar, terrestre, humano, animal, vegetal e mineral” (p. 191).
Apesar de seus excessos e de uma narrativa frequentemente dispersa, As estrelas de Compostela permanece um romance singular pela ambição de retratar a Idade Média francesa sob o signo da permanência celta. Vincenot parece pouco interessado em construir uma intriga, e se por vezes o romance se perde na profusão de referências, há nele a intuição de que as abadias, assim como as línguas e os mitos, conservam camadas sucessivas de entrecruzamentos culturais. Talvez seja justamente nessa espessura histórica que reside o principal interesse da obra.
Referências
Referências
VINCENOT, Henri. Les étoiles de Compostelle. Paris: Éditions Denoël, 1982.

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