A Odisseia de Homero: guia de leitura, de Giuliana Ragusa
Por Afonso Junior
Seguindo o projeto iniciado com A Ilíada de Homero: guia de leitura, Giuliana Ragusa, professora do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da FFLCH-USP, nos apresenta este guia de leitura da Odisseia, com o mesmo objetivo de oferecer “um comentário para cada canto da epopeia”. O épico, como nos lembra Frederico Lourenço, da Universidade de Coimbra, de 12.109 versos, escritos provavelmente entre os fins do século VIII e o começo do século VII a. C., é um dos mais importantes (e férteis) da história Ocidental. Sua influência é incalculável: Junito Brandão vê no poema o embrião da ideia de culpa e castigo, a hybris, que será a coluna central da tragédia (Brandão, 1989, p. 134).
A Odisseia, apesar de sua viagem pelo mundo invisível, parece muito mais próxima de nós e menos conflituosa que o poema-irmão sobre Troia: para mim, parece a face mais recente do comércio marítimo em face da prévia idade das conquistas. Sua estrutura, complexa, começa com a defesa de Odisseu (“Arde-me o espírito pelo fogoso Ulisses/ este desgraçado, que longe dos amigos se atormenta/ numa ilha [...] no umbigo do mar”, dirá Atena – trad. Frederico Lourenço), passa pela ordem enviada através de Hermes para a libertação do herói da bela e estagnada vida com a ninfa Calipso e chega na mais conhecida descrição das aventuras com seres poderosos na narração dele próprio para os feácios no Canto IX, antes que se inicie propriamente o retorno do herói para Ítaca, a sua casa.
O mythos acaba no Canto XXIV, ou seja, os comedores de lótus e o ciclope Polifemo (IX), o deus dos ventos (Éolo), os lestrigões canibais, a feiticeira Circe (X), Odisseu no Hades (XI), o encontro com as sereias ou sirenas (mulheres-pássaro), a horrenda Cila, o vórtex Caríbdis e o impulso dos marinheiros por alimentar-se das carnes do Sol, resultando no fim da expedição (XII) e na chegada de Odisseu como náufrago em Esquéria (V), onde será acolhido pelos feácios, tudo isto ocorre em uma parte bastante concentrada da narrativa, enquanto as viagens do filho Telêmaco (Cantos I a IV), a aventura do disfarce de Odisseu e a punição dos pretendentes de Penélope em Ítaca (cantos XIII a XXIV) são menos conhecidas e comentadas, apesar de cobrirem grande parte dos versos que a nós chegaram e constituem a Odisseia.
Este Guia nos ajuda, justamente, a entender e validar estas escolhas da tradição, e também a acessar seus conceitos muito próprios. O prazer que parece haver nas narrativas de reconhecimento (depois teorizadas por Aristóteles na Poética) pode ser importante para compreender o número de versos dados à percepção do herói através do disfarce de mendigo pelo seu cão Argos, pela serva Euricleia, pela esposa Penélope, até o reconhecimento final pelo seu pai Laertes, após comovente gestualidade habitual de luto. Mas também Circe “reconhece” que este marinheiro, a quem enfeitiçou os companheiros, é Odisseu de múltiplas terras, avisada que fora por Hermes de sua chegada após a guerra.
Aliás, falando em encantamento, esta é apenas uma das palavras (kelein) que tem ecos por toda a narrativa, também nos cantos dos homeros internos (os aedos Demódoco e Fêmio), auto-homenagem dos cantores que teceram e revisaram estas palavras de mar para nossos ouvidos por centenas de anos, e no principal cantor dentro do canto, o protagonista, de quem ouvimos histórias que só ele viu, já que todos os outros estão mortos por sua “insensatez”.
Ecos também nos conjuntos de pares (opostos ou não), como o do ciclope Polifemo, que, ao ter sua casa invadida por desconhecidos, reage devorando os peixes-humanos, e o porqueiro Eumeu, de Ítaca, primeiro a receber o dono da casa disfarçado depois de vinte anos fora, a quem oferece, em sua cabana rústica, uma cama junto à lareira e sua capa para a noite.
Agamêmnon e Odisseu são duas faces do retorno: aquele que devia aterrorizar os guerreiros, no qual tanto a descendência como o cetro estão ameaçados, um retorno de sangue, e aquele sonho de lealdade e ordem representados por Telêmaco (crescendo ao celebrar a memória do pai) e Penélope. Duplos também os reinos de Nestor em Pilos/ Menelau e Helena em Esparta e a própria Ítaca, na qual a jovem nobreza corteja a rainha e consome os bens do herdeiro sem vergonha.
As tentações pelas quais passa o herói deviam ser as que ameaçavam os comerciantes e guerreiros: escravidão, rainhas e princesas atraentes, onde vozes doces cantam antigas histórias capazes de fazer esquecer o retorno — “Pois nós sabemos todas as coisas que na ampla Troia/ Argivos e Troianos sofreram por vontade dos deuses/ e sabemos todas as coisas que acontecerão na terra fértil” (Canto XII, trad. Frederico Lourenço). Se as memórias são o que constituem nosso ser e nossa jornada, as memórias pervertidas podem nos naufragar. Também a tentação de romper a ordem de Zeus — o ódio inicial de Atena resulta dos crimes de Odisseu, por exemplo, criando armadilha para Palamedes, apedrejado injustamente após ter descoberto a mentira de Odisseu para evitar ir à guerra. Sêneca o retrata como um vil político em As troianas, arrancando Astíanax de Andrômaca.
Penélope (cuja magia é o farol que guia a navegação pelo móvel caminho) é aquela que sabe vencer pela persistência o impulso cego dos pretendentes — o que ela enfrenta com a astúcia é a pleonexia (o desejo de ter sempre mais — Mangini, 2024) que Platão trabalhará na sua República. Uma espécie de filósofa exemplar, já que consegue dominar sua alma e “trazer a todos a morte”, é dela a estratégia da prova do arco, que dá ao invisível a arma mortal. Odisseu trará a boa ordem (eunomia) de volta para casa com uma chacina, a retribuição punitiva (tisis), baseada na estratégia e na ajuda dos mais humildes servos (Eumeu e Filécio, o guardador dos rebanhos). Telêmaco, amadurecido pelas histórias que colheu sobre sua origem, é apoio do pai na vingança, um Orestes sem sombras. A força da sua mente é o que salva o(s) herói(s) diante de forças hostis.
Existe, nos mostra este Guia, uma contínua tensão entre povos que não aceitam a lei de Zeus e os que a aceitam (poderíamos chamar de civilização/ não-civilização, sabendo o termo culturalmente definido, e seu terrível uso colonial): ciclopes, lestrigões, a misteriosa Calipso, por exemplo, não estão dispostos a reconhecer estas normas, entre elas, a fundante lei da hospitalidade (xenia), ligada à compaixão (eleos). Pois vemos, que, neste mundo de trocas comerciais e culturais, receber aquele que nos parece diferente é tão ou mais relevante que a glória (kleos), onipresente na Ilíada. O que nos remete a temas tão modernos como a imigração e a mescla de culturas. Odisseu passa muito tempo como invisível, e é a compaixão que permite que retome sua identidade.
Se o ser humano precisa enfrentar o temperamento imprevisível da Natureza (aqui é Poseidon que não esquece sua vingança pela dor do filho Polifemo), a enfrenta com Métis (sabedoria, prudência, primeira esposa de Zeus e quem lhe deu a droga capaz de fazer seu pai, Crono, devolver todos os filhos que havia engolido — Brandão, p. 266). Se precisa observar “vários povos” e “conhecer muitos espíritos”, enfrentando a “loucura dos companheiros” e as “provações entre seu povo” (como nos dizem os primeiros versos da Odisseia), tudo nele deve ser poly, seja sua astúcia, sejam as figuras de sua linguagem, já que é a vivacidade de sua narração (enargeia) de si mesmo que desperta a ajuda dos aliados.
Uma das capacidades da autora é a síntese: com seu fio de Ariadne vamos viajar pelos 15 reinos (entre o tempo presente do enredo, o passado recordado por Odisseu e o mundo fabuloso) reunindo cada canto em poucas páginas (18 no caso da descida à fronteira do Hades, Canto XI). De fato, na nossa era acelerada, também o tempo conta a favor da jornada. No mundo urbano e multicultural de Odisseu, o que importa é a prudência, o diálogo, as formas de escapar ao domínio dos outros e de se dominar; nada muito distante do nosso mundo, em que pesem algumas redes e forças invisíveis antes desconhecidas, e tantos outras forças, monstros e musas semelhantes.
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A Odisseia de Homero: guia de leitura
Giuliana Ragusa
Referências
Homero. Odisseia. Tradução de Frederico Lourenço. São Paulo: Penguin Classics; Companhia das Letras, 2011.
Brandão, Junito de Souza. Mitologia Grega. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 1989, vol. 1.
Mangini, Flora. Predomínio como promessa de felicidade: Trasímaco e a pleonexia na República de Platão (336b ff). DoisPontos, Curitiba, São Carlos, vol. 21, n. 2, p. 117-136, julho de 2024.
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