O sertão da memória em Depois do trovão

Por Vinicius de Silva e Souza

Micheliny Verunschk. Foto: Renato Parada.



Depois de construir uma das obras mais consistentes na literatura brasileira contemporânea com os romances O som do rugido da onça e Caminhando com os mortos, Micheliny Verunschk retorna ao Brasil colonial para iluminar um episódio pouco conhecido — a chamada Guerra dos Bárbaros — e investigar a violência constitutiva da formação nacional. O resultado é um romance de extraordinária densidade estética e histórica, que reafirma o lugar de destaque da autora. 

O ponto de partida e de chegada da narrativa de Depois do trovão é Auati. Filho de uma mulher indígena e de um frei jesuíta, é levado ainda jovem para integrar expedições militares financiadas pela Coroa portuguesa. Ao longo da narrativa, torna-se Joaquim Sertão, personagem cuja própria identidade condensa as ambiguidades da colonização: indígena e colonizador, vítima e agente da violência, memória viva de um mundo que desaparece enquanto participa de sua destruição. Essa contradição constitui o motor dramático do romance, e poderia ser, sozinha, responsável por coroar a obra como uma publicação ímpar. No entanto, seu aspecto mais impressionante não é a pesquisa histórica, e sim a linguagem. 

A autora realiza um trabalho raro de recriação vocabular, mobilizando português arcaico, mirandês, tupi-guarani, nheengatu e diferentes registros ligados às línguas indígenas do sertão. A língua deixa de ser um instrumento transparente e passa a funcionar como evidência material do conflito que atravessa a narrativa. É significativo essa escolha: mostrar que o português brasileiro nunca foi uma língua única, homogênea ou pacificada, mas um campo permanente de disputas culturais. Um resultado de aglutinações contraditórias e conflitantes. 

Nesse sentido, a comparação frequentemente estabelecida entre Micheliny Verunschk e João Guimarães Rosa é compreensível, embora insuficiente. Ambos compartilham uma percepção da linguagem como matéria viva, passível de invenção contínua; ambos compreendem que o sertão não é apenas um espaço geográfico, mas um laboratório verbal. Contudo, a autora de Depois do trovão não escreve à maneira de Rosa. Sua prosa nasce de outra urgência histórica. Se o escritor mineiro buscava expandir metafisicamente a experiência sertaneja, ela procura reinscrever nessa experiência aquilo que a narrativa oficial suprimiu: os povos indígenas, seus idiomas, suas cosmologias e a violência sistemática envolvida nesses apagamentos.

Outra forte e clara semelhança com Guimarães Rosa, principalmente com Grande sertão: veredas, para além da mudança de gênero na narrativa, é o posicionamento do narrador-personagem. Joaquim Sertão fala a partir da velhice, rememorando acontecimentos que permanecem vivos em sua consciência, tal como Riobaldo. Também aqui, a memória não surge organizada segundo uma lógica documental; ela vacila, retorna, hesita, aproxima tempos distintos. Essa estrutura memorialística impede que o romance assuma uma linearidade confortável. O passado permanece aberto, contaminando continuamente o presente da narração.

Talvez a maior virtude do romance esteja justamente em evitar o didatismo. Embora profundamente ancorado na pesquisa histórica, Depois do trovão jamais se transforma em romance de tese. A Guerra dos Bárbaros aparece menos como objeto de explicação historiográfica do que como experiência humana. Micheliny compreende que a literatura produz um conhecimento diferente daquele elaborado pela história acadêmica. Não lhe interessa simplesmente informar que determinado conflito existiu, mas restituir sua espessura afetiva, ética e imaginativa.

Também é inevitável aproximar este dos romances anteriores da autora. Se O som do rugido da onça revisitava a história das crianças indígenas sequestradas para a Europa no século XIX e Caminhando com os mortos aprofundava a investigação das permanências coloniais na experiência brasileira, o novo romance amplia esse projeto ao retroceder ainda mais na cronologia. A própria escritora já indicou que esses livros integram uma espécie de projeto contínuo de refletir a formação do Brasil. 

Outro aspecto digno de elogio é a maneira como o romance trata a violência. Em um livro centrado numa guerra de extermínio, seria fácil transformar o horror em espetáculo. O romance de Micheliny segue caminho oposto. A brutalidade nunca é estetizada nem utilizada como recurso de entretenimento. O sofrimento aparece inscrito na própria textura da narrativa, contaminando o olhar do protagonista e o corpo da linguagem. O resultado é uma literatura que não anestesia o leitor, mas também não o manipula sentimentalmente.




Depois do trovão não pretende oferecer respostas fáceis sobre culpa, perdão ou reconciliação. O protagonista permanece dividido porque o próprio país assim permanece. As fronteiras entre vítima e perpetrador tornam-se difusas justamente porque a colonização produziu sujeitos atravessados por pertencimentos contraditórios. Trata-se de uma percepção sofisticada da violência histórica, muito distante das simplificações frequentemente encontradas na ficção histórica contemporânea.

Essa fusão entre documentação e invenção aproxima Micheliny de uma tradição latino-americana que inclui escritores como José María Arguedas, Augusto Roa Bastos e João Guimarães Rosa: autores para quem a literatura não reproduz a realidade, mas cria novas formas de percebê-la. No romance em leitura, o passado colonial deixa de ser uma sequência de fatos encerrados e transforma-se numa presença persistente, cuja reverberação alcança diretamente o Brasil contemporâneo.

É justamente essa capacidade de falar simultaneamente do século XVII e do presente que impede o romance de se tornar arqueologia literária. Micheliny já afirmou que escreve sobre o Brasil colonial pensando sempre no presente. A observação ajuda a compreender o alcance político do livro. O romance não busca apenas recuperar uma memória esquecida; procura mostrar como determinadas estruturas de violência continuam organizando nossa experiência histórica. 

Em um momento em que grande parte da produção romanesca aposta na transparência narrativa e na simplificação estilística, a autora de Depois do trovão insiste na complexidade. Sua escrita exige tempo, escuta e disponibilidade. Exige que o leitor desacelere; exige, sobretudo, que aceite entrar numa língua em permanente estado de nascimento.

Poucos escritores contemporâneos possuem coragem estética suficiente para assumir esse risco. Micheliny não apenas o assume como o transforma em uma das experiências literárias mais vigorosas da ficção brasileira recente. Este livro confirma aquilo que seus anteriores já anunciavam: eis uma autora cuja obra, mais do que acompanhar a literatura brasileira contemporânea, participa decisivamente de sua renovação. 


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Depois do trovão
Micheliny Verunschk
Companhia das Letras, 2025
232p.

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