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Mostrando postagens com o rótulo Chico Buarque 70 anos

Um inferno repleto de livros: O irmão alemão, de Chico Buarque

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Por Alfredo Monte Boa parte do impacto da leitura de O irmão alemão reside — a meu ver — menos no aproveitamento ficcional de uma contingência biográfica, a existência do meio-irmão do título (e seus desdobramentos na vida do narrador), e mais na exploração (física e simbólica) do espaço da biblioteca da família Hollander: “E quando não havia ninguém por perto, eu passava horas a andar de lado rente às estantes, sentia certo prazer em roçar a espinha de livro em livro. Também gostava de esfregar as bochechas nas lombadas de couro de uma coleção que, mais tarde, quando já me batiam no peito, identifiquei como os Sermões do Padre Antônio Vieira (...) Até os nove, dez, onze anos, até o nível da quarta ou quinta prateleira, durante toda a minha infância mantivesse essa ligação sensual com os livros.” Nessa casa tomada (“Até então, para mim, paredes eram feitas de livros, sem o seu suporto desabariam casas como a minha, que até no banheiro e na cozinha tinha estantes do te...

Chico Buarque: artista e pensador

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Por Rinaldo de Fernandes Chico Buarque tem uma profunda identificação com o Brasil. Suas letras, seu teatro, seus romances reimprimem importantes interpretações críticas do país. Estão entre os protagonistas do compositor os pivetes, os malandros, os sem-posse. Aquilo que constitui, efetivamente, a ‘negatividade’ da sociedade brasileira. Para Chico, especialmente em suas composições dos anos 70, a negatividade da vida brasileira é produto ou atributo da política, passa pelos poderosos de plantão. Iníquos lhe foram todos os governos militares, calando, torturando, matando. Governos que encontraram no compositor de “Apesar de você” e de “Cálice” uma voz incisiva, intrépida. Uma voz que afrontava a “mentira” e a “força bruta”. Chico, por outro lado, é um pensador da condição feminina. Quando retrata as ‘resignadas’ ou ‘recolhidas’ no universo doméstico, caso de “Cotidiano” e “Mulheres de Atenas”, é mordaz, ironizando a submissão ou o papel de esposa na família ...

Narrador em amadurecimento

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Por André Albert Chico Buarque é compositor ou é escritor. Nunca os dois ao mesmo tempo. Cada livro novo é uma imersão numa rotina metódica. O confortável apartamento do Leblon, com uma magnífica vista que vai do Arpoador até Niterói, é trocado por outro, mais espartano, no andar de baixo. Lá é o retiro onde o escritor assenta os pensamentos que surgem em longas caminhadas pela cidade. Andarilho como quase todos os protagonistas de seus livros, Chico tem suas melhores ideias enquanto caminha pelas ruas cariocas ou de Paris, onde mantém uma segunda residência e para onde foge se é preciso apressar o passo da escrita. o final da tarde é o momento em que se senta para escrever. A atividade, às vezes, adentra a madrugada, num lento exercício de lapidação. Na opinião do amigo e também escritor Eric Nepomuceno, “uma espécie de Penélope que desfaz hoje o feito ontem, não à espera do improvável Ulisses, mas da palavra exata”. Obcecado pelos termos mais apropriados para o que quer ex...

Polêmico nos palcos

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Por Dirceu Alves Jr Chico Buarque ao lado do elenco de Ópera do malandro  em confraternização.  A disparada de Chico Buarque ao sucesso e às polemicas começou sem ele mesmo perceber. Diante do estouro de A Banda no II Festival de Música Popular Brasileira, na TV Record, o compositor de 22 anos se viu alçado à condição de unanimidade nacional. Mais de 50 mil compactos vendidos em poucos dias, um salário polpudo para comandar o programa de televisão Pra ver a banda passar , ao lado de Nara Leão, e uma agenda de shows por cidades que o bem-nascido rapaz jamais havia situado no mapa. Recebido pelas autoridades, o novo ídolo desfilava a céu aberto em carros do corpo de bombeiros e era alvo de meninas desesperadas por um autógrafo ou, quem sabe, um contato mais próximo. “Não lembro de ficar muito nervoso. Para mim aquilo era uma brincadeira”, contou ele, que, em 1966, enchia o bolso de dinheiro. Tamanho assédio incomodava o tímido Chico, que não via a conexão de se...

O futebol-arte e a rivalidade na música de Chico Buarque de Holanda

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Por Valdomiro Neto Chico Buarque em jogo amistoso entre artistas realizado no Maracanã durante a década de 1980. Vou me apropriar da frase de Martinho da Vila antes de cantar “Valsinha” em um show comemorativo para dizer que “Chico Buarque de Holanda é um dos meus compositores prediletos”. E nos seus mais de 40 anos de carreira, que se estendem até hoje para nossa felicidade, o futebol teve presença marcante. Em várias entrevistas, em momentos distintos, Chico disse que quando jovem queria ser jogador de futebol (que bom para nós, fãs, que acabou enveredando pelo caminho da música). A nossa “única unanimidade nacional”, nas palavras de Nelson Rodrigues, tem como ídolo o ex-ponta direita Pagão, que fez fama com as camisas de Santos e São Paulo. Em um documentário que faz parte de uma série que chegou a ser veiculada pela TV Bandeirantes, Chico diz que quando jogava imitava os trejeitos do ex-jogador, como as mãos meio moles e os “dribles aéreos”. Dono do Politheama, time ...

Em “Fazenda Modelo” ele deu nome aos bois

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Por Dirceu Alves Jr “De cada três músicas que faço, duas são censuradas. De tanto ser censurado, está ocorrendo comigo um processo inquietante. Eu estou começando a me autocensurar. E isso é péssimo.” Em desabafo publicado na imprensa no início dos anos 70, Chico Buarque assumiu que não estava tão imune ao objetivo da ditadura militar – o de calar ou, pelo menos, inibir a criatividade do artista. Depois de 14 meses de exílio na Itália, entre 1969 e 1970, o compositor reencontrou o Brasil no auge da repressão com o governo de Emílio Garrastazu Médice (1969-1974). O veto ao samba “Apesar de você” inaugurou uma sequência aparentemente infindável e, mesmo que o álbum seguinte, Construção (1971), tenha saído sob a condição de que Chico alterasse alguns versos, o compositor sentiu a necessidade de ares menos viciados para respirar. Procurou driblar a birra dos homens de farda no teatro, criando ao lado do cineasta Ruy Guerra o musical Calabar – o elogio da traição . Às vésperas...

Primeiro, o escritor

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Por André Toso Chico Buarque, o menino, no Colégio Santa Cruz. Em 1964, a escola foi palco do primeiro show e das primeiras publicações 'inventadas' por ele. No ano de 1958, o estudante Francisco Buarque de Hollanda passeia calmamente pelos corredores do Colégio Santa Cruz, instituição frequentada pela elite paulista. Carrega em uma das mãos um raro exemplar da primeira edição da obra Macunaíma , de Mário de Andrade. Aos 14 anos, o menino escolhera a dedo o exemplar que emprestaria das estantes forradas de livros que seu pai, o historiador Sérgio Buarque de Hollanda, colecionava em casa. A presença constante de intelectuais em seu cotidiano e o interesse e a curiosidade precoce por textos literários foram importantes para os passos iniciais do escritor. No artigo “O historiador escrever sobre seu filho Chico Buarque”, publicado no dia 19 de outubro de 1991, na Folha de São Paulo , Sérgio afirma que desde muito jovem o filho gostava de devorar obras de seus es...