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Mostrando postagens com o rótulo Lídia Jorge

Diante da manta do soldado, de Lídia Jorge

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Por Gabriella Kelmer Lídia Jorge. Foto: Ana Baião Nas primeiras páginas de Diante da manta do soldado , romance de Lídia Jorge republicado pela Autêntica Contemporânea no ano que passou, os passos dos moradores da família Dias, na altura ainda desconhecida, rumorejam casa afora, “caminhando sem cessar desde a madrugada” (Jorge, 2025, p. 7). São leves, pesados, hesitantes esses passos, e a variabilidade, a característica e a errância de cada um apontam para elementos do enredo ainda encobertos. Cada andar demarca, nesse primeiro ato, a dimensão, o espaço e a essência das presenças que flagra, manifestando o mistério e a fratura que dividem a casa de Valmares. Estou convencida de que apenas esse fragmento da obra é argumento suficiente para recomendar sua leitura. Em dois parágrafos, está presentificada, para o leitor, a humanidade dos seres ficcionais, assim como a imperfeição e a inefabilidade de quem são. A presença orgânica das personagens e as marcas que relembram sua existência pri...

Misericórdia, de Lídia Jorge

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Por Gabriella Kelmer Lídia Jorge. Foto: José Fernandes   A filha escritora revela à severidade materna que escreve sobre perdedores por ser como um cão sob a mesa, aguardando os restos — as migalhas, os resquícios — de um opulento banquete de que só pode e deseja participar a partir de um posto de observação subalterna. Justifica, nesse ímpeto, a produção de uma literatura não apenas desprovida de finais felizes, mas também atenta aos esquecimentos e silenciamentos da história. A mãe, inconformada de ouvir a filha dizer-se em termos tão indignos, argumenta a favor dos grandes homens e dos inesquecíveis feitos. Desentendem-se as duas personagens, por um tempo, e fica evidenciado como é diverso o que esperam do mundo e o que veem de si mesmas.   Misericórdia , o romance mais recente da portuguesa Lídia Jorge, publicado no Brasil em 2024, pode ser compreendido como a adoção do olhar crítico daquela mãe, todavia articulado pelo método da filha, com uma visão escafandrista da inti...

O dia dos prodígios, de Lídia Jorge

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Por Gabriella Kelmer Lídia Jorge. Foto: Jean-Luc Bertini   É o aceno involuntário de Carminha ao lavar as janelas de casa o ato que recepciona o leitor que toma às mãos O dia dos prodígios (1979), romance de estreia da escritora portuguesa Lídia Jorge. A narrativa, ao se iniciar com a pitoresca descrição da personagem, situando-a para lá do vidro, simboliza o isolamento em que vivem a jovem e sua mãe, apartadas dos outros habitantes do vilarejo por rejeição e anteparo próprio, devido ao escândalo eclesiástico que fora o nascimento da moça. A limpeza sugestiona a tentativa de dirimir as nódoas passadas; a transparência das janelas nega, ao olhar externo, a presença de mácula na vida íntima. O narrador, que alternadamente vê à distância a personagem e se entranha em sua subjetividade, apreende simultaneamente o gesto do corpo e seu desejo interrompido de liberdade. A saída às ruas é, à filha do padre, a manifestação da sentença perpétua a ela imposta.   O caráter insular da vi...

Mito e História no vórtice dos tempos: O dia dos prodígios, de Lídia Jorge

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Por Guilherme Mazzafera   A leitura de O dia dos prodígios (1979), primeiro romance da escritora portuguesa Lídia Jorge, leva-nos à percepção de um tempo expectante, no qual as camadas mítica e histórica resvalam-se sem mútua compreensão. Os portentosos acontecimentos que tomam corpo na narrativa não encontram interpretação possível na exclusividade do mito ou da história, ecoando nas consciências individuais dos personagens, cuja compreensão de si mesmos enquanto sujeitos está profundamente atrelada ao entendimento da temporalidade que os cerca. O romance nos apresenta o povoado de Vilamaninhos, local de acontecimentos singulares e exegetas limitados. Centrado em três domicílios principais, o reino encastelado de Carmen Rosa e Carminha, o lar de José Jorge Jr e Esperancinha, e a casa de Branca e José Pássaro Volante, a obra discorre sobre a convivência entre esses personagens e com outros habitantes do povoado diante das ocorrências inusitadas – o aparecimento da cobra voadora e ...

Um romance fascinante de Lídia Jorge: “Combateremos a sombra”

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Por Alfredo Monte Enfim, temos uma edição brasileira (pela Leya) de Combateremos a sombra , de Lídia Jorge 1 , cujo final (e peço de saída desculpas por revelá-lo) me lembrou a atmosfera dos romances de Leonardo Sciascia (1921-1989): Osvaldo Campos, após descobrir duas frentes conspiratórias e mafiosas no curso de alguns poucos meses que se seguem à virada do milênio, e ingenuamente arvorar-se em denunciador (mandando cartas a agências internacionais, à órgãos de imprensa e até à presidência e preparando um dossiê com nomes e dados), é assassinado — tentam, de forma canhestra, encenar um pretenso suicídio para encobrir o crime, o que não dá muito certo. O assassinato, já aguardado pelo leitor como aqueles finais inexoráveis das tragédias, de um protagonista que sucumbe a um labirinto conspiratório, foi exercitado com maestria por Sciascia em A Trama  (1971), porém Osvaldo Campos me lembra mais o incauto professor Laurana de A Cada Um o Seu (1966). Não que ele s...

A costa dos murmúrios, de Lídia Jorge

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Por Pedro Fernandes Não dá para reduzir esse livro a determinados rótulos, como os de romance pós-colonial ou romance denúncia ou ainda romance acerca da condição feminina. Ele é isso, mas não somente. Figura entre os da produção literária da portuguesa Lídia Jorge como o mais conhecido; tanto que chegou a ser adaptado para o cinema pela Margarida Cardoso. Seu enredo de construção fragmentária e com variações no tom da narrativa - ora em primeira, ora em terceira pessoa - A costa dos murmúrios reduz-se já no texto-conto que lhe abre sugestivamente intitulado por "Gafanhotos" e com epígrafe do poeta e jornalista moçambicano Álvaro Sabino. Em "Gafanhotos", que narra o casamento de Evita, somos apresentados ao cenário e às personagens principais do romance. É também nesse introito que se instala a atmosfera paralisada que se mantém no decorrer da narrativa. É do Stella Maris, um hotel de luxo de Beira, Moçambique, onde se dá toda a trama. Desde então,...

Lídia Jorge, o mundo isolado

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Por Marlise Vaz Bridi Lídia Jorge (1946) quando surge para a literatura portuguesa, em 1980, é com uma obra que marcará toda sua carreira: O dia dos prodígios . O romance, ainda que de estreia, apresenta em si os elementos de uma obra madura e em perfeita sintonia com as características das grandes obras contemporâneas. De construção fragmentária e com variação gráfica no corpo do texto, volta-se para a discussão de valores que perpassam uma comunidade aldeã do Algarve. Na obra, todos os acontecimentos da vida cotidiana da aldeia são mostrados pelo olhar de uma comunidade inteiramente fechada em si mesma e isolada do mundo. Nela, o padrão de comunicação é a oralidade, pois o letramento dos aldeãos é rudimentar e todos os acontecimentos são vazados por uma linguagem peculiar que, representa a oralidade regional do Algarve. No plano temporal, os acontecimentos que compõem o enredo estão concentrados em um intervalo relativamente curto de tempo, que inclui o momento da Revol...