Diante da manta do soldado, de Lídia Jorge

Por Gabriella Kelmer


Lídia Jorge. Foto: Ana Baião




Nas primeiras páginas de Diante da manta do soldado, romance de Lídia Jorge republicado pela Autêntica Contemporânea no ano que passou, os passos dos moradores da família Dias, na altura ainda desconhecida, rumorejam casa afora, “caminhando sem cessar desde a madrugada” (Jorge, 2025, p. 7). São leves, pesados, hesitantes esses passos, e a variabilidade, a característica e a errância de cada um apontam para elementos do enredo ainda encobertos. Cada andar demarca, nesse primeiro ato, a dimensão, o espaço e a essência das presenças que flagra, manifestando o mistério e a fratura que dividem a casa de Valmares.

Estou convencida de que apenas esse fragmento da obra é argumento suficiente para recomendar sua leitura. Em dois parágrafos, está presentificada, para o leitor, a humanidade dos seres ficcionais, assim como a imperfeição e a inefabilidade de quem são. A presença orgânica das personagens e as marcas que relembram sua existência primária como linguagem — o lirismo, a inteligência, a volição por trás da singularização de cada passo — são realidades cuja aparente contradição é inexplicável somente àqueles que não conhecem a autora e suas mãos, inextricáveis e leves, talhe que não oprime a página. É literatura, em uma modalidade que anima (vivifica, entusiasma) pelos seus procedimentos, pelo propósito absoluto de cada ato.    

“Nessa altura, a casa de Valmares já havia perdido a maior parte dos seus habitantes, e os compartimentos onde tinham vivido os descendentes de Francisco Dias encontravam-se fechados, ao longo do corredor por onde antigamente todos se cruzavam. Então era muito difícil distingui-los pelas passadas. Vários filhos e vários netos, três noras e um genro, caminhando sem cessar desde madrugada, forneciam uma multiplicidade de ruídos indestrinçáveis para quem fosse menor e ficasse à escuta, horas a fio, dentro dum quarto. Porém, naquele Inverno, no início dos anos sessenta, os passos dos que restavam eram tão identificadores quanto as suas caras ou os seus retratos” (Jorge, 2025, p. 7).

Que a portuguesa Lídia Jorge é excepcional romancista isso há muito se sabe, assim como se conhece seu compromisso social e sua disposição para revolver ossificações nacionais milenares, deslocando-as artisticamente. O seu talento literário, laureado neste ano pelo prêmio Camões, evidenciou-se desde a primeira hora, quando da publicação de O dia dos prodígios, de 1980, romance que foi marco da renovação formal e da postura crítica pela qual ficaria conhecida a narrativa portuguesa do período. Mais de uma década adiante, em 1998, n’O vale da paixão — um dos títulos desta mesma obra que agora comentamos —, os elementos composicionais se moldam, em liberdade e inovação, à atmosfera restritiva, claustrofóbica e solitária de uma família enredada em um segredo terrível. 

No drama familiar, o tempo é dilatado, anacrônico, memorialístico; o espaço — que se estende horizontalmente por diferentes continentes e verticalmente pelo vale a que alude o primeiro título — circunda sempre a casa rural de Valmares e as sombras que a obscurecem em diferentes décadas do século XX. A narração oscila entre uma terceira pessoa pretensamente distanciada dos eventos e as primeiras pessoas, singular e plural, que desnudam o interesse, a implicação e as saídas encontradas pela narradora para elidir o espaço doméstico, sendo ela também personagem que integra o ponto nevrálgico do mistério familiar.





Acomodado sobre escombros que aumentam a cada nova partida está a figura de Walter Dias. Caçula de uma família que vivencia, gradativamente, tanto a decadência de seu modo de subsistência quanto o enfraquecimento da autoridade patriarcal que a mantém íntegra, Walter, além de ineludível em todas as versões do título do romance, como motivação para o apelo gravitacional do vale da paixão e como proprietário primeiro da manta do soldado, é a causa original das rupturas, por ações que datam desde a infância. Sua personalidade rebelde, de absoluta irreverência perante a inflexibilidade paterna, é-nos entregue pelas perspectivas de sua filha, sendo, nessa medida, filtrada pelo evidente fascínio e pela heroicização comum a tão terno olhar. É assim que a sensibilidade artística do desenhador de pássaros e a ousadia do homem desbravador de mundos são por ela reconhecidas, apesar das opiniões terceiras, em tudo contrárias. Os desmoronamentos dessa imagem, quando ocorrem, compassados pelas pancadas secas do abandono e pela irrefreabilidade da personalidade libertina do pai, latejam nas escolhas da narradora (a filha muitas vezes omitida e revelada), tornando-se cada vez menos sutis ao longo da obra. 

“Durante dias, uma semana, duas semanas de chuva? Parte dum dia? A noite multiplica-se por noites, o dia divide-se em vários dias de água, caindo entre o céu e o faval, água fina, dura, lisa, brilhante, caindo em cordas, em peneira, em cascata, entre súbitos escampados. Mas dia e noite são só uma unidade, em torno da mesa e do chiado da lareira. O lume, a mesa. Os oito em torno da mesa. Por que veio Walter Dias? — Que pergunta pretérita e inútil” (Jorge, 2025, p. 89).

São notáveis também as outras personagens: a agregada Maria Ema, sua secura, seu distanciamento, a descoberta abismal de sua sensualidade e de seu desejo, encobertos por anos de uma conformação necessária e exigida; seu esposo, Custódio Dias, e a regularidade de uma cadência desajustada, diminuída, imensamente generosa em sua bondade; o patriarca da família, Francisco Dias, e sua intransigência e orgulho, desfeitos ao final da vida em patética, desoladora insatisfação. Cada um deles aprofunda a impressão deixadas por seus passos da primeira vez em que os flagramos.

Também se destacam os recursos romanescos, na transcrição de cartas que voam de lado a lado do mundo, emprestando perspectivas repletas de ressentimento e de novas informações acerca de Walter Dias; na retomada constante de uma mesma noite, que permanece suspensa, como tempo que articula o nó da narrativa e justifica as motivações pelas quais a narradora, falando de si, precisa ocasionalmente se afastar, tornar-se outra; pela chegada, em momento oportuno do enredo, da herança de um pai ausente, enfim libertado do peso de um julgamento em queda livre, tendo sido também, por ao menos algum tempo, interessado, audaz, companheiro.

“Está também o que resta do furriel, o desenhador de pássaros, Walter. E existe a frieza com que ela se dirigiu ao volumoso resto do antigo embarcadiço, o mercador Walter. Tensa, despótica, defendida pela ausência da misericórdia, a filha sentar-se-á numa cadeira, diante de Walter Dias” (Jorge, 2025, p. 176).
 
Se é bem verdade que, para mim, tem sido necessário aos maus romances apontar cada uma das falhas, justificá-las com esmero para não incorrer em injustiças, não considero que o mesmo seja verdade às boas, excelentes narrativas, uma vez que qualquer resenha jamais capturará exatamente a medida de sua intangibilidade, a forma como a soma de seus componentes resulta em algo que, de linguagem intencional e lapidada, transformou-se em uma manifestação da vida, mais condensada e mais devastadora do que sua expressão na realidade jamais articularia. Alguma coisa palpita nesse romance, e dizer que advém essa vitalidade da solidão, do abandono, da descoberta lastimosa do esgarçamento da crença infantil na salvação e na atribuição de sentido ao mundo é insuficiente. É preciso lê-lo. 

Permaneço na torcida para que o sucesso editorial de Lídia Jorge continue, depois do lançamento bem-recepcionado de Misericórdia, e que tenhamos republicações de seus romances mais acessíveis aos leitores brasileiros.

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Diante da manta do soldado
Lídia Jorge
Autêntica Contemporânea, 2025
195 p.

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