Postagens

Fotograma feito de sertanices

Imagem
Quatro 1: espelhos do sertão  Já acena este agosto – o principia De suas tragédias ou de suas alegrias Muito do seu de narrativa Em curtos capítulos Componho-o em versos Que juntos o chamo de poema Com um feixe de poemas que Intimamente conversam comigo Toda vez que os leio ou releio Tento pintar em quadros espelhados O que há anos inspirado em matéria de memória Chamo de sertanices. Quadro 2: invenção do sertão Muitos dos episódios que se desdobram Se revelam, enovelam, empoetizam-se Na pureza e no lirismo da paisagem sertaneja Afinal são sertanices. Porque o sertão em seu enlevo encantatório Define-se em poesia por si mesmo – Com o seu destino, seus homens, Suas raízes, suas lembranças. Quadro 3: sertanices O sertão que me vêm à memória Perambula do mais amplo horizonte imaginável Perpassa por figuras algures E emerge pela rachadura das palavras Desfraldadas em closes enigmáticos Que juntas chamo de sertanices. Um arquétipo coloss...

Acossado, de Jean-Luc Godard

Imagem
Com improvisação e referências que misturam o pop e o erudito, cineasta injetou oxigênio no modo de filmar Na metade da década de 1950, um grupo de atrevidos cinéfilos franceses, apaixonados por Hollywood e cheios de idéias na cabeça desenvolveu a chamada Teoria do Autor. Nas páginas da revista Cahiers du Cinèma , os então críticos Jean-Luc Godard, François Truffaut, Jacques Rivette, Claude Chabrol e Eric Rohmer endeusavam diretores hollywoodianos e europeus, nas obras dos quais identificavam uma assinatura e formatos narrativos que traziam modernidade à linguagem do cinema. Um dos modelos era o neo-realismo de Roberto Rosselini, que filmava nas ruas, com fracos recursos de produção e sem seguir um roteiro à risca. Por meio desse exercício de admiração e de capacidade analítica, nasceu um dos movimentos mais cultuados e influentes da Europa, a Nouvelle Vague (Nova Onda), um exemplo de renovação na linguagem cinematográfica. Desse conjunto de grandes nomes, o de Godard tornou-se...

Dossiê James Joyce: peças para um retrato do artista (III)

Imagem
Enquanto prosseguia a seriação do livro Um retrato... o escritor começa a escrever o romance Ulysses . Por esta época, 1914, foram muitos os reveses  ―  basta lembrar que então eclodia a Primeira Guerra Mundial. E é por causa da guerra que Joyce sai de Trieste (apesar de pretender continuar por lá) e vai para Zurique  ―  Suíça  ― , onde fica até 1919. Depois de quatro rejeições pelas editoras do seu livro Um retrato... Joyce o tem publicado pela conhecida editora Harriet Shaw Weaver, a mesma responsável pelo The Egoist . Com o fim da guerra, em outubro de 1919, Joyce volta para Trieste, agora território italiano em sua boa parte. Mas, ao encontrar a cidade como um caos, o escritor volta novamente para Paris, onde residiria por longos vinte anos. Adquirindo uma certa estabilidade, Ulysses nasce nesse momento, em 1921, depois de trabalhar nele desde seus vinte oito anos de idade, quando ainda escrevia o conjunto de contos de Dublinenses . Originalment...

Maria Madalena Antunes

Imagem
Madalena Antunes, 1940. Foto: arquivo Lúcia Helena Pereira Maria Madalena Antunes de Oliveira nasceu no dia 25 de maio de 1880, no engenho Oiteiro, município de Ceará Mirim; filha do coronel José Antunes de Oliveira e Joana Soares de Oliveira. Posteriormente, ao se casar com Olympio Varela Pereira, passou a assinar Maria Madalena Antunes Pereira, tornando-se, a partir de 1958, mais conhecida na sua terra natal como a Sinhá-moça do Oiteiro. Para os que conheceram a escritora, falam de uma Madalena Antunes criança alegre, virtuosa, cheia de amor pela família, pelos irmãos Juvenal Antunes de Oliveira, que também atuou na literatura (como poeta), Etelvina Antunes de Lemos e Ezequiel Antunes de Oliveira — outra figura envolvida com a poesia. Senhorinha ou Sinhá de engenho, Madalena Antunes parece não ter levado a alcunha muito ao pé da letra; relatos dizem ter sido o contrário do que comumente se associava aos tipos de seu tempo com esses termos: assim, a carrasca dera lu...

Dossiê James Joyce: peças para um retrato do artista (II)

Imagem
Viúvo a quase um ano, Joyce, por puro acaso, conheceu uma moça de vinte anos, filha de um pedreiro beberrão separado da mulher, que se mudara para Dublin. Nora Barnacle estava longe de Joyce em termos de formação, abandonara os estudos ainda aos treze anos. Ainda assim, nasce entre os dois um relacionamento que duraria para todo o resto da vida. Três meses depois de se conhecerem, ambos decidiram sair da Irlanda, fixaram-se em Pola (Croácia hoje) e depois em Trieste (Itália hoje), cidades estas que faziam parte da Áustria-Hungria. James Joyce e Nora Barnacle. Instalados em Trieste, Joyce passa a trabalhar numa escola como professor de inglês. Já por aí, Nora engravidara. Perdida, por está num país em que não tinha noção nenhuma do idioma e ainda com o hábito de beberrão de Joyce, Nora teve de se resignar. Estado que alivia quando da chegada de George Joyce, em 1905, que apesar das alegrias, trouxe mais complicações financeiras. Na esperança de arranjar alguma estabilidade, ...

Dora Ferreira da Silva

Imagem
Por Pedro Fernandes Há duas coisas que como acadêmico de Letras tenho vício, duas não, três: da biblioteca, fuçar o que me pareça novidade, conhecer daquilo que ninguém ainda falou - pelo menos pra mim; da internet, buscar leituras interessantes sobre literatura (diria que semelhante atividade ao primeiro vício) e, por fim, ler - uma reunião dos dois outros vícios. Recentemente tenho começado alguns incursões pelo universo poético, colocando por um instante a prosa na estante - se bem que não funciona bem assim, há mesmo um intercalar de prosa e poesia constante. Mas, o fato é que a metade maior do tempo tenho ido por esse universo do poema, resultado, agora, de um minicurso que ministrarei com uma minha amiga de versos no curso de Letras. O curso sai, acredito, em setembro. Somando-se estas duas atividades, os vícios e o estudo da poesia para o minicurso, encontro com a obra de uma escritora até agora uma desconhecida para mim: Dora Ferreira da Silva. Uma poeta, diria, sem d...