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Zila Mamede — itinerário e exercício da poesia (4)

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Exercício da palavra  – exercício da palavra urbana e exercício da palavra em Zila Mamede Por Paulo de Tarso Correia de Melo* Pablo Picasso. Menino conduzindo um cavalo  (1905) O cavalo e menino a Pablo Picasso Era o cavalo em pêlo em pêlo era o menino, e os dois –   mais sua solidão, mais seu destino. Ninguém sabe se o cavalo angustiava a tarde, se do menino era a angústia que o cavalo tocava. Os dois passavam sempre abstraídos (na tarde que continham) da campina de cinzas que os cercava. Se de um, se de outro, súbito chegava o grave canto, já se sabia – era a tarde dos dois: que a do menino, contida numa estrela aparecia, e a do cavalo, sobre montões de feno se dobrava. (Zila Mamede,  Exercício da palavra ) Este é o quarto livro de Zila Mamede, onde toda sua poesia foi reunida, codificada, projeto que delimita fases, mas quer sobretudo, encontrar a linguagem despojada, assumindo um processo que alcança o grande valor d...

Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, de Woody Allen

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Comédia explora distúrbios de um casal e as razões dos fracassos dos relacionamentos Noivo Neurótico, Noiva Nervosa , dirigido e protagonizado por Woody Allen, narra a história do relacionamento entre um conhecido comediante, Alvy Singer (Allen), e uma cantora de casas noturnas, Annie Hall (Diane Keaton), contada desde pouco antes do primeiro encontro até pouco depois do rompimento. Como se pode supor tanto pelo título em português quanto pela experiência de quem já viu Allen atuando em algum de seus filmes, são as complicações psicológicas do homem que mimam a relação. No caso deste filme, as neuroses dele são completadas pela personalidade complicada também dela. Inicialmente, Allen pretendia filmar um suspense em que o romance do casal fosse um dos subenredos, mas logo percebeu onde estavam as melhores cenas e acabou reduzindo a trama ao romance. Desde o primeiro momento, a insegurança  e as manias de ambos são tanto o motor das alegrias quanto os motivos que imped...

Mais dois poemas de Pedro Fernandes

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Francis Bacon. Crucificação . Três estudos. 1962. INSTANTE (POEMA. REVOLUÇÃO) calarei a todos com tiros de fuzil para que me ouçam no interior de minha fala poética que se desdobra na trama frenética as palavras no papel. passarei por cima dos primeiros com a ajuda de minha insana infâmia no interior de meus gritos amarrados à tinta na cadeia papel branco. na história não há espaços para o sutil para a felicidade como dizia hegel. no meu poema há brechas para tanto mas vigora mesmo um grito melancólico no bucolismo nefasto e vadio das palavras negras presas no papel. do poder absoluto resta eu desmanchado em palavras [balas] atiradas com fuzil [minha caneta] ou gritos preso(a)s [as palavras] num poema de papel. DOS FINS DO DIA EM QUE A LUA SOBE MAIS CEDO Dos fins do dia em que a lua sobe mais cedo Sempre voltei para casa assim como sol E deixei me embalar nas linhas tênues Ou oblongas dum verso Como colecionador de sua humildade Julgo-me...

José Saramago e o elogio a Jorge Amado

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Quem acompanha o blog de José Saramago terá visto que o escritor publicou um texto sobre o amigo e também escritor Jorge Amado. A admiração do  português não é de hoje. Saramago sempre se referiu com muita frequência sobre o brasileiro nos primeiros volumes dos seus Cadernos de Lanzarote (Companhia das Letras, 1997). Além disso, quando numa de suas viagens ao Brasil esteve em casa de Jorge Amado. Reproduzimos o texto abaixo, seguido de fotografias desse encontro em nossa terrinha. Podemos ter por esse momento como uma das mais felizes congratulações de literaturas e, claro, de gente lúcida. Era 1996, quando Saramago visitou o amigo Jorge Amado. Foto: Zélia Gattai / Acervo Zélia Gattai - Fundação Jorge Amado Uma certa inocência Durante muitos anos Jorge Amado quis e soube ser a voz, o sentido e a alegria do Brasil. Poucas vezes um escritor terá conseguido tornar-se, tanto como ele, o espelho e o retrato de um povo inteiro. Uma parte importante do mundo lei...

Zila Mamede — itinerário e exercício da poesia (3)

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O arado  – chegada à infância, à terra-mãe e à plenitude poética  Por Paulo de Tarso Correia de Melo* Ayao Okamoto.  Arado 1997 Arado Arado cultivadeira rompe veios, morde chão Ai uns olhos afiados rasgando meu coração. Arado dentes enxadas lavancando capoeiras Mil prometimentos,juras faladas, reverdadeiras? Arado ara picoteira sega relha amanhamento me desata desse amor ternura torturamento. (Zila Mamede,  O Arado ) Zila Mamede e Câmara Cascudo. Foto da década de 1960. Zila Mamede sentiu a voz irresistível da Terra, chão de trabalho anônimo onde vivem os marujos sem mar dos campos semeados, e encheu-se de versos votivos em louvor do esforço antepassado. [...] A moça da cidade, do rio e do mar, foi seduzida pelo silencio das searas, a labuta do amanhecer, os bois adormecidos, o cavalo branco abandonado, as visões avoengas da casa-grande, plantada no meio do mundo vegetal e resistindo na perpetuação...

Machado de Assis, a segunda vida

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Por Pedro Fernandes Há cem anos, feitos exatos às 3h20min da madrugada deste dia 29 de setembro – não tão exatos porque não vivemos num tempo absoluto – o Rio de Janeiro e o País perdia seu filho mais ilustre, Joaquim Maria Machado de Assis, mais conhecido como Machado de Assis. Desde quando sua esposa morreu, quatro anos antes, que o escritor já não era mais o mesmo, ainda que freqüentasse diariamente a Academia Brasileira de Letras, que ajudara a fundar em 1896, e da qual fora eleito presidente primeiro e perpétuo, ainda que aparentasse o prazer de viver ao lado dos amigos, Machado já se esvaía por dentro. Vista fraca, infecção intestinal, uma úlcera na língua. Tudo culminaria com sua morte. “Estou à beira do eterno aposento” – disse Machado pouco antes de morrer. No enterro, o cortejo fúnebre que acompanhou o corpo do escritor se compunha de figuras ilustres e do povo; atestava a fama que Machado havia alcançado. Anos mais tarde seus restos mortais eram levados para serem se...