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Camilo Castelo Branco, o exagero sentimentalista

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Por Pedro Fernandes Quando li, ainda na faculdade, talvez o livro mais conhecido de Camilo Castelo Branco, Amor de perdição , pude levantar o epígono que utilizo no título desta postagem. Trata-se de uma novela em que – e isso sempre me perguntei –, dentre tantas e tantas possibilidades que se apresentam aos amantes Teresa e Simão, corre pelo trilho do drama trágico. Pudera: são “boas” personagens do chamado ultra-romantismo, logo, tornam seu destino submetido à cadência de fatos mais nebulosa a fim de constituírem sua história de amor.  Os protagonistas dessa novela representam o sentimento de uma sociedade que não mais cria nos veios do destino como trajetórias da vida. Isso é marco para a segunda fase do Romantismo; a fase que a crítica classifica como ultra-romântica, dado o exagero amoroso constituir-se recorrência nos dilemas romanescos. Espírito de uma época e não apenas invenção literária, em alguns casos o sofrer de amor (e o desfecho trágico) ultrapassava as página...

Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick

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 Laranja Mecânica. Quando um homem não pode mais escolher, ele deixa de ser um homem. Além da genialidade de suas visões, Stanley Kubrick era um diretor de gêneros. Em cada um de seus filmes, explorou um diferente, dentro dos formatos codificados do cinema. Ficção científica ( 2001 , de 1968), terror ( O Iluminado , de 1980), guerra ( Glória Feita de Sangue , de 1957, e Nascido para Matar , de 1987), filme de época ( Barry Lyndon , de 1975), épico ( Spartacus , de 1960), sátira política ( Dr Fantástico , de 1965), comédia de costumes ( Lolita , de 1962), noir ( O Grande Golpe , de 1956), drama familiar ( De Olhos bem Fechados , de 1999). Laranja Mecânica , seu filme mais cultuado (sobretudo pelas novas gerações), chama a atenção por não se encaixar exatamente em um único gênero narrativo. Tem muito de ficção científica, já que se passa em futuro não tão distante. É também comédia de costumes por trabalhar com aspectos cotidianos de uma nova sociedade. Além disso, traz elemen...

Diário pedagógico: a apresentação

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Por Pedro Fernandes No dia 25 de março de 2009, o jornal Correio da Tarde publicou na segunda página, na sessão artigos, um texto meu intitulado " Um genocídio outro, um genocídio só"¹ . Esta inserção de opinião expunha as condições que professores da rede pública de ensino enfrentam diariamente ao mesmo tempo em que apresentava uma crítica aos destinos traçados pelas forças maiores, o país, estados e municípios, têm feito: como o uso da força a fim de barrar os movimentos de professores que ano após ano tem lutado em prol de melhores condições salariais e de trabalho.  No texto para o Correio da Tarde  também indiretamente desconstruí ou reconstruí uma imagem que havia feito do professor noutro artigo publicado em 15 de outubro de 2008 no mesmo jornal e replicado na  Tribuna do Norte . Em " Escritores da liberdade" , havia dito que o professor é uma espécie de super-herói, uma imagem da qual me apossei e reapropriei para o nome de deus ; isto é, antes de ser um he...

A caverna, de José Saramago

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Por Pedro Fernandes O escritor José Saramago durante o lançamento de A caverna no Brasil, em 2000.  A caverna foi publicado em 2000. Vem, portanto, cercado por Todos os nomes  (1997) e  O homem duplicado (2002). É novamente um romance cuja narrativa traz o que a crítica literária tem chamado de fase da escrita de José Saramago que se volta para as questões em derredor do homem e do mundo contemporâneo, uma realidade fugidia, conforme bem assinalou o Comitê do Prêmio Nobel, em 1998, quando da comunicação do prêmio ao escritor. Este é, talvez, o romance mais malquisto pela crítica. Este livro e o poemas  O ano de 1993 (1975). O que, a meu ver, conjuga-se como um grande equívoco — nos dois casos. Todo escritor, é verdade, tem seus momentos mais felizes  de criação e outros nem tanto. E, muito provavelmente, um bom escritor é também isso pelas obras ruins que escreveu. No mais, para ele, se a crítica quer-lhe mal é problema da crítica. Agora, eu, que...

Algumas reflexões acerca dos momentos permanente trágicos da sociedade brasileira: a morte do menino João Hélio

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Por Pedro Fernandes  Nota:  Em janeiro de 2007, quando este blog ainda não existia (só foi posto na rede em meados de novembro daquele ano) eu escrevi um artigo acerca de um fato que vazou a mídia ponta a ponta, que foi a morte do menino João Hélio, na onda corrente de violência que cerca o Rio de Janeiro e todos os grandes centros do país. O artigo foi ter publicação no jornal De Fato , mas não com o título que trago para este blog e sim com o título "A morte do menino João Hélio". O leitor deverá entender o encurtamento do título; as mídias, sejam elas quais forem, prima pelo enxugamento e pela objetividade. Trago o texto para este espaço como via de registro. * Faço questão de iniciar o presente artigo com o nome estampado JOÃO HÉLIO no subtítulo para mostrar um pouco de atitude de respeito para com a família e o menino, especificamente, uma vez que a mídia televisiva a cada telejornal faz questão de usar O MENINO QUE FOI ARRASTADO (em negrito para dar ênfase) POR 7...

Os livros favoritos de Paul Auster

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Por Pedro Fernandes Não sou o único leitor a guardar certa curiosidade pelos livros que serviram à formação leitora dos grandes escritores ou daqueles de nossa predileção. E a pergunta de qual ou quais livros certo escritor recomenda, sempre recorrente nas entrevistas realizadas com essas criaturas, é uma desse interesse.   Nem sempre os escritores respondem e muitas vezes tergiversam querendo, em parte, proteger a face ou não recair em obviedades ou ainda não oferecer pistas demais acerca das suas influências. Outros, por sua vez, não encontram problema com as revelações, sobretudo se nas suas listas figuram exclusivamente aqueles que não poderão em nenhuma oportunidade estabelecer qualquer cobrança da ausência nas suas referências – o que é, de certa maneira, uma boa alternativa de despistar.   A curiosidade dos leitores, embora válida, talvez seja vã. As grandes obras da literatura estão bem localizadas no cânone, por mais que muitos tentem destituí-las. Assim, um grande e...